Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008

Foi há muito tempo, em Amesterdão. Ele de mochila às costas, kispo vermelho e camisa aos quadrados vermelhos e brancos. Olhos cansados. Era de noite e reconhecíamos a incapacidade de recordar o número do quarto. Mas ríamos. Ríamos de tudo. Ele, no meio da rua, a perguntar-me o que estava antes sobre um cartaz com a fotografia de um homem assemelhado Felipe Gonzalez. Ele a rir entre o bigode a barba escuros. Nós, no meio da rua, em Amesterdão, a debruçar-nos sobre a planta da cidade tentando localizar a rua onde ficava o hotel de nome impronunciável. Três da manhã, numa cidade permeável. Um casal a parar para ajudar-nos a encontrar o caminho. Nós a rirmos. Eles a rirem mas cuidando de marcar bem as palavras que nos levariam de volta ao hotel. Ele a rir entre o bigode e a barba escuros. Lembro-me dele a rir com uma espécie de tristeza e uma espécie de cansaço nos olhos. IR

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"Parasita foi a palavra usada pelo capitão da polícia no acampamento de Jakkalsdrif, um ninho de parasitas, à beira de uma cidade limpa e luminosa, que devoravam os seus alimentos, sem nada produzirem. Contudo, para K., deitado ociosamente na sua enxerga de folhagem, pensando sem paixão não lhe parecia assim tão óbvia a resposta, quem era o anfitrião e quem o parasita, se a cidade ou o acampamento. Se o verme devorava a ovelha, porque é que a ovelha engolia o verme. O que aconteceria se houvesse milhões e milhões a viver em acampamentos, a viver de esmolas, desempregados, delinquentes, escondidos pelos cantos, suficientemente espertos para serem encontrados e mobilizados? O que aconteceria se os anfitriões fossem ultrapassados em número pelos parasitas, os parasitas da ociosidade e os outros parasitas disfarçados de exército, de polícia, de escolas, de fábricas e de escritórios, os parasitas do coração? Deviam chamar-se parasitas? Os parasitas também tinham carne e substância; os parasitas também podiam ser devorados. Afinal, se os que estavam no acampamento se deviam chamar parasitas da cidade, ou a cidade parasita do acampamento, dependia de quem fazia ouvir mais alto a sua voz.”

JM Coetzee, A Vida e o Tempo de Michael K

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Quarta-feira, Fevereiro 27, 2008

parecia despontar do seu rosto um fulgor de tempos passados. Embora bela e porventura atraente, esforçadamente cuidada, notava-se no trejeito dos lábios, na ligeira compressão dos olhos ao sorrir que nada lhe era dado, que o mundo a contrariava incessantemente. ao abrir a janela ao sul, poderia sentir-se a imensa nostalgia de mais uma manhã. A questão não seria tanto o tempo, e as manhãs que se sucediam às noites e estas às tardes, mas a imensa previsibilidade das horas, que se enrolavam a seus pés como um gato ensonado. passaria vinte minutos, talvez mais, a preencher mentalmente o dia, algo ansiosa, tentando dar a todas as acções, por mais rotineiras o sentido de urgência, ou em segunda escolha, de necessiade. Era absolutamente necessário ir trabalhar, igualmente obrigatório produzir, regressar a casa sem se deixar esmagar pela pena do retorno. Teria momentos bons, a alegria que escorria de certas pessoas e de certas situações. Teria de estar atenta aos momentos bons, não os desvalorizar. E depois de algumas horas, recolher-se em si e suspirar e dizer baixinho, em oração : "Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu Te amo", ou de um maneira menos ortodoxa, mas igualmente amorosa: "Sabes tudo, sabes que eu o amo". E sentir-se ia melhor, como se voltasse a ligar a luz que a fazia viver, a luz que lhe definia os contornos e que iluminava as suas trevas. Na escuridão repetiria com amor redundante e obssessivo: sabes tudo, sabes como te amo.

alberto

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Sábado, Fevereiro 16, 2008

[16.2.08 1:18 AM | PALAVRAS DA TRIBO]
Quando cheguei, sem memória de companhia, o claustro ainda estava praticamente vazio. As cadeiras no centro alinhavam-se em meio círculo à volta do local escolhido para a actuação. Mantiam uma aparência excessivamente organizada frente à minha indecisão na escolha do lugar. Enquanto esperava os outros recolhi-me debaixo das arcadas. Era um lugar frio, a pedra como material de eleição. Não me lembro das horas, mas tenho na memória a iluminação amarela, os instrumentos destacavam-se do escuro acima presente.
A visualização do meu lugar sentado ia surgindo à medida que ganhava confiança no espaço.
John Zorn e os Masada iam actuar. Foi o primeiro concerto a que eu assisti num diferente lugar ao convencional. Não me lembro da estação, mas gosto de pensá-la no Inverno. Foi um maravilhoso concerto.
Sentada no chão, durante o intervalo, apercebi-me da história. Os Loosers já tinham tocado os seus vibrantes sons acompanhados pelo saxofone de Valerio Cosi.
Doíam-me os ouvidos. Pensava nas obras a vibrarem no andar de cima.
A sala fechada. Alcatifa cinzenta e paredes brancas. Passou um mês desde a silenciosa projecção de vídeo de Anri Sala, Long Sorrow.
No barulho ocorreu-me o tempo.
No silêncio ocorreu-me a diferença de espaços.
Na espera de Matt Valentine e Erika Elder pensei na distância que separam estes dois momentos.
Durante a cantiga leve tranquila alegrei-me no crescimento. No som folk, blues na voz quente de Valentine em sintonia com a leve voz de Elder apercebi-me da pequena e minha cidade a avançar despercebidamente, mas a caminhar.
No mesmo lugar, movimentava as pernas doridas, cruzadas e esticadas. Não tive dúvidas na escolha: entrei e de imediato sentei-me no centro. Ao meio.
E, novamente na cantiga o tempo sem tempo tornou-se num momento feliz.
Ao filho único.

cristina r.

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Terça-feira, Fevereiro 12, 2008



"On bended knee is no way to be free
Lifting up an empty cup, I ask silently
All my destinations will accept the one that's me
So I can breathe...

Circles they grow and they swallow people whole
Half their lives they say goodnight to wives they'll never know
A mind full of questions, and a teacher in my soul
And so it goes...

Don't come closer or I'll have to go
Holding me like gravity are places that pull
If ever there was someone to keep me at home
It would be you...

Everyone I come across, in cages they bought
They think of me and my wandering, but I'm never what they thought
I've got my indignation, but I'm pure in all my thoughts
I'm alive...

Wind in my hair, I feel part of everywhere
Underneath my being is a road that disappeared
Late at night I hear the trees, they're singing with the dead
Overhead...

Leave it to me as I find a way to be
Consider me a satellite, forever orbiting
I knew all the rules, but the rules did not know me
Guaranteed

"Guaranteed", Eddie Vedder, ontem em "Into the Wild", com argumento e direcção de Sean Penn

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Quarta-feira, Fevereiro 06, 2008

"Durante anos convencera-se de que, pelo coração, o seu lugar era com os desenraizados, de que ter dinheiro era um acidente feliz, que qualquer dia podia estar de novo na estrada com todas as suas coisas num saco. Mas o tempo fixara-o no seu lugar. Tornara-se do género dos que olham em redor à procura de um polícia sempre que vêem um pobre sujo. Agora estava do outro lado. Se não estava, porque tentara fingir que não os via? Porque não aceitara o facto de estar em inferioridade numérica e os olhara nos olhos, como poderia ter feito em tempos, e não distribuíra algum do dinheiro alegremente acidental? Parara o carro e seguia um carreiro invadido por ervas na direcção da cancela... Outrora sentira-se leve sobre o chão. Costumava pensar que a sua vida era uma aventura ilimitada, costumava dar coisas, divertia-se quando o inesperado acontecia, coincidências benévolas costumavam encorajá-lo. Quando acabara tudo isso? Quando, por exemplo, começara a pensar que as coisas que tinha eram realmente suas? Não se lembrava."

Ian Mc Ewan, A Criança no Tempo

(IR)

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Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008



A viúva Raísa Pavlovna contando os seus rublos, ontem, no Teatro do Bairro Alto. Excelente! IR

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