Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Terça-feira, Agosto 28, 2007

O saco de rede com laranjas arranhava-lhe de vez em quando as pernas nuas enquanto subia a rua.
Sentado no passeio, um homem fazia cinzeiros a partir de latas de coca-cola. Era trabalho em série. Primeiro cortava meia dúzia de latas em tiras que a seguir dobrava. Mais à frente, um rapaz muito magro, vestido de preto, com rastas no cabelo, soprava para dentro de uma flauta. Quando a retirava dos lábios, estendia a mão dizia “é para o cão” e apontava-o, cor de mel, deitado de lado, a dormir à sombra. Mulheres de peito XL apertado em tops S balançavam os sacos com logótipos.
Uma criança de braços abertos, como quem brinca aos aviões, e sorriso ainda mais largo passou por ela a correr. O ar deslocou-se para dar passagem ao pequeno corpo em movimento e atirou o saco de rede contra as pernas marcadas por varizes dela. Foi nessa altura que deu por ele. Pela voz dele. Cantava. E a ela, que sabia escolher as melhores laranjas da caixa mas estranhava partituras, soava-lhe a música de igreja. Sílabas prolongadas. Era uma voz quase feminina a dele, parado diante do rapaz mal encarado da flauta. O cão, o cão dormia ainda. Sonhava talvez. Ela julgou tê-lo visto estremecer dentro do sono quando tudo o mais se aquietara - até o homem que dobrava as latas para fazer cinzeiros. Também ela pousou o saco verde de rede. Só as laranjas escorregaram até tocarem as pernas do miúdo, quieto ao fundo da rua.

Ernesto

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Sexta-feira, Agosto 24, 2007

De Irene Lisboa,

Escrever

Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

(IR)

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Segunda-feira, Agosto 20, 2007

para a ib, no dia do seu aniversário


Lembrava-se de ter passado para o 1º ano do ciclo e para uma nova escola. Imensa, capaz de alguém se perder naqueles pátios, com um enorme edifício de cimento e uma dezena de pré-fabricados pintados de azul. Lembrava-se de estar num corredor à espera da primeira aula. Não conhecia os outros que esperavam também. Lembrava-se da sensação de estar debaixo de água e de lutar para alcançar a superfície. Precisava de um amigo para respirar. Ainda não tinha aprendido a inspirar e expirar sozinha. Isso foi depois. Olhou para os que esperavam no corredor e viu-a a ela – tinha uma gabardina transparente debruada a linha cor-de-rosa, o cabelo louro, um dente da frente ligeiramente encavalitado no outro. Parecia uma boneca. Lembrava-se de se ter aproximado dela para perguntar se queria jogar ao elástico. Ela mostrou-lhe o dente encavalitado para dizer que sim. Lembrava-se de ter recuperado o fôlego e retomar a respiração natural – para dentro, para fora, oxigénio, dióxido de carbono. Estava tudo bem outra vez.
Só muito mais tarde descobriu tratar-se a respiração de um acto individual. Primeiro pensou que morria. Mas o movimento para dentro para fora para dentro para fora impunha-se sem o fole da amizade. Habituou-se. Atribuiu aos desvarios da infância a crença absoluta na respiração colectiva. Julgou-se imune ao efeito das gabardinas transparentes debruadas a fio cor de rosa e ao feitiço dos dentes encavalitados. Tinha crescido. Tinha um salário. Já não jogava ao elástico. Preferia alinhar letras e palavras, à procura da frase.
Foi nessa altura que a encontrou. Ela partilhava o gosto pelo jogo. Trazia um casaco verde pelos ombros e quando se ria deixava ver um dente partido. Mexia no cabelo, a compô-lo e a descompô-lo logo de seguida. Falava amparando as palavras com as mãos, os dedos esticados para tocar o que há e não se vê. Ela acreditava no invisível. Relacionava-se com ele. Temia-o às vezes quase nunca. Ela gostava de banhos no mar e do sol. Era morena. Tinha o cabelo escuro e liso. Moura encantada.
Lembrava-se de ter perdido a ideia de mecanismo. Respirar não era afinal um acto individual. Nem colectivo. Era interdependência.
IR

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Domingo, Agosto 19, 2007

começamos por contar os dias de ausência. o exercício rotineiro de saber às quantas andamos, se ainda sabemos pensar e, portanto, ser. era difícil contar os dias. para trás existiam longos dias de emoções límpidas e intensas, como as águas. as pessoas entravam e saíam da casa comprida, diferentes umas das outras, mas afinal não tão diferentes quanto isso. as crianças sentiam-se mais livres, corriam mais depressa, voavam mais alto em sonhos. tudo era experimentado, aguardavam-se surpresas. o verão é um lugar onde se vive. o calor é uma casa comprida onde as paredes vazias projectam os nossos desejos. numa noite passaram viajantes do deserto, de mochilas propositadamente pobres e debotadas. noutra visitaram-me noivos que casaram sem deus nem testemunhas, no dia 7-7-07, para se sentirem diferentes, embora não tão diferentes quanto isso. a areia sujava a piscina, o vento lançava as cadeiras de lona para a água. havia alguma dissensão, que não bastava para sombrear as paredes. eram lugares silenciosos onde o vento marcava sulcos primordiais. era o lugar da criação. tudo se fazia pela primeira vez.
ainda era necessário escrever. ordenar em caracteres a nossa vida, como se fosse possível reproduzir a claridade do amanhecer.
alberto

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Quarta-feira, Agosto 15, 2007

Férias na praia. Abandoná-la quase de noite. Trazer a pele quente para casa. Parar na croissanteria e jantar só crossaints. Ficar calado ou falar falar falar falar sobre este e aquele que passam na rua. Inventar sobre a vida deles. Beber vinho tinto do jarro que importa se deixa a boca áspera. Escrevinhar a toalha de papel. Deixá-la toda escrevinhada desenhada riscada rasgada. Dizer vou para casa e passar a noite a andar pelas ruas. Dormir de dia. Voltar à praia. Abandoná-la quase de noite. IR

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Segunda-feira, Agosto 06, 2007



mais uma vez, as asas do desejo, porque as coisas são como são e há sempre qualquer coisa que me lembra este filme. IR

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Sexta-feira, Agosto 03, 2007

Deve ser por causa do calor que tem feito. Deve ser por causa dele que consigo fixar os teus olhos tornados maiores pelas lentes. Ou naturalmente assim, agora que me lembro de pensar, quando um dia tiraste os óculos para esfregar os olhos, que eram desmesurados, grandes demais para a tua cara, miúda. Deve ser por causa do calor que, embora mantenha o meu olhar no teu, me apercebo tão bem do teu corpo. Da existência dele. É como se o escutasse para além da conversa, inofensiva, dos olhos. Só pode ser o calor que me dá a certeza de saber desenhá-lo (a mim, que não sou capaz de usar um lápis para reproduzir o que quer que esteja em frente) - os ombros, o peito, o ventre, as pernas...
"O que é que estavas a dizer? Sim, o calor, o calor...impossível, este calor." IR

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Quinta-feira, Agosto 02, 2007

A antecipação do prazer

Dispõem-se os corpos bronzeados em filas paralelas. Levemente sombreados por lonas brancas. Espalham-se famílias funcionais pelas areias. As crianças obedecem sempre e visitam os avós em tempos inoportunos. Os maridos visitam as mulheres que irradiam legitimidade. Os amantes encontram-se à beira mar temendo ser desmascarados. Mas eis que o desconcerto é arrastado pela maré cheia. O peixe-aranha pica os perfeitos pés de unhas violeta. Os maridos protestam em vingança. O nadador-salvador é descomposto, se é que mais descomposto pode ser. Uma nuvem negra cobre o sol. O Expresso esgota e a água esquece-se de pingar das torneiras.

miss portugal

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