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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Quinta-feira, Maio 31, 2007 "Quando os caçadores chegaram ao cimo do monte, apareceu, entre os tamargueiros e os raros sobreiros, o verdadeiro rosto da Sicília, perante a qual as cidades barrocas e os laranjais não são mais que ninharias desprezíveis: uma paisagem ondulando aridamente até ao infinito, colina após colina, desolada e irracional. Nela o espírito não podia agarrar as linhas principais, concebidas num momento de delirante criação: como um mar que de repente tivesse sido petrificado no momento em que uma mudança de vento tivesse feito endoidecer as ondas. Donafugata, agachada escondia-se numa dobra anónima do terreno; não se via vivalma: só filas de vides desaparecidas indicavam a presença dos homens. Para além das colinas, para um dos lados, a mancha índigo do mar, ainda mais mineral e infecundo que a terra." Tomasi di Lampedusa, O Leopardo postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:54 PM - Comments: Sexta-feira, Maio 25, 2007 Doem-me às vezes as costas, o que me obriga a ficar deitado. Hoje, por exemplo, ainda não me levantei. Também tenho qualquer coisa no ouvido interno - vou a andar e sinto que caio para o lado direito. Por causa disso não saí ontem. Também há o joanete, mas não quero maçar-vos mais. Não gosto de mudanças. Não fica bem dizê-lo assim. Ou de qualquer outra maneira. É suposto estarmos sempre a mudar - também de pele, como as cobras. Eu gosto de cobras, mas não gosto de mudanças. Mudei de casa uma única vez na vida. Antes vivia numa casa grande. Grande e cansada. Cansada porque era grande. À noite ouvia os suspiros dela. Ainda pensei que fosse a respiração pesada do vizinho do lado. Mas não era humano aquele suspiro. Não havia insuflação física seguida de esvaziamento. Nenhum movimento. Não foi porém por causa disso que tive de arrancar-me dali. Eu compreendo o cansaço. Principalmente o das casas, que não podem furtar-se às discussões e pior ainda aos silêncios dos que lá vivem. Ir dar uma volta. Beber um café. Esperar que acalmem os ânimos ou se dissolvam os ressentimentos. Foi mais por causa do corredor em éle. Era naquele corredor que a casa preparava a reacção ao tormento que lhe infligiam. Barricava-se na parte deitada do L, resguardada dos olhares e hábitos dos residentes. Quando era forçado a atravessá-la, a caminho da casa-de-banho, ia sempre em passo de corrida. Temia que o jarrão chinês me caísse em cima ou que me puxassem a carpete. Lamentava a casa mas não sabia o que fazer por ela. Não era tão velho e sábio como sou hoje. Entendia o cansaço e a rebelião, mas a insondabilidade maléfica do corredor atormentava-me. De noite acordava sobressaltado com aqueles ais mudos. O dia, passava-o em corridinhas. Mudei para uma casa muito mais pequena e, por isso, creio, menos cansada. Logo na primeira visita saudou-me pousando uma tira de luz no meu braço. Da segunda vez que lá entrei foi com a intenção de não sair mais. Levei a escova de dentes, uma muda de roupa e a minha begónia. Senti que a casa me abraçava. Não me ficava folgada. Largueirona. É do meu tamanho. Um número acima, no máximo. Eu digo que é por causa do ouvido interno. Que as costas e o joanete me obrigam a ficar em casa, mas, na verdade, gosto apenas de estar cá dentro, de cingi-la ao corpo como se faz a um casaco quando o ar arrefece. Fazei-me o favor de não me contrariar nem denunciar-me por baixa fraudulenta à Segurança Social. António postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:26 PM - Comments: Segunda-feira, Maio 21, 2007 Queria fechar-me para balanço. Escrever "volto já" na tabuleta (e só voltar quando me apetecesse). Pedir que fizessem o obséquio de bater à porta do lado - todos os assuntos passam a tratar-se lá. Entrar em liquidação total por motivo de obras ou mudança de gerência. Tapar o corpo e a cara alegando remodelação da montra. Depois passa-me. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:52 PM - Comments: Quarta-feira, Maio 16, 2007 "De profundis. Joana esperou que a ideia se tornasse mais clara, que subisse das névoas aquela bola brilhante e leve que era o germe de um pensamento. de profundis. Sentia-o vacilar , quase perder o equilíbrio e mergulhar para sempre em águas desconhecidas. Ou senão, a momentos, afastar as nuvens e crescer trémulo, quase emergia completamente ... Depois o silêncio." Clarice lispector, "Perto do coração selvagem" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:49 AM - Comments: Sábado, Maio 12, 2007
Peder Severin Kroyer, "0 roseiral" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:22 PM - Comments: vi-te ontem recortada e pendurada sobre uma mola. o teu rosto fitava-me entre tantos outros e ali, imóvel, colada sobre um outro corpo, chamavas-me, ou assim, me quis parecer. penso sempre o melhor de ti. por todos os lados me observas, tu a que amas. e eu, que quero ser amado, senti-me rodopiar entre o calor de tantos corpos e de tantos olhares amantíssimos.encomendei-te para a minha sala, para me seguires com o teu olhar todos os dias, quando saborear a pele adstringente dos diospiros e sentir em mim a recrudescência de um abraço. irás deitar-te sobre homens irados com barbas de papel e eu irei olhar-te em todas as madrugadas. alberto para o tó poppe postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:16 AM - Comments: Quinta-feira, Maio 10, 2007 "Decidiu não fechar as janelas que davam para o terraço e sentou-se numa ponta do sofá. Sentia que não estava propriamente à espera. Não conhecia ninguém com o seu gosto de estar parada, sem sequer um livro no colo, deslocando-se calmamente pelos seus pensamentos como se andasse a explorar um novo jardim. Tinha aprendido a ser paciente graças aos muitos anos de convivência com a ameaça das enxaquecas. Inquietar-se, concentrar-se, ler, olhar, desejar - eram tudo coisas a evitar em favor de um lento impulso de associação, enquanto os minutos se acumulavam como um banco de neve e o silêncio se adensava à sua volta." Expiação, Ian McEwan postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:52 PM - Comments: Quarta-feira, Maio 09, 2007 Pastoreio, por José Marto (1º prémio Litterararius de Poesia do Clube Racal parabéns amigo!) "Fui guardador de rebanhos sem flauta, sem outeiro com páginas colhidas nos livros a eito, em linhas altas lidas quando descansava o rebanho e a paisagem tinha escritas árvores ao sol, frutos ardidos, poeira de brisa, manga curta, camisa desfraldada eu, na sombra recolhido. Fui pastor de quase nada no canto dos pardais revoadas, bicando o ar de linhas curvas nas largadas de pombos ao fim da tarde ou das rolas sobrelançadas, furando o céu, na declinada água ferida de redes, esvoaçando penas picavam linhas cinzentas, mosquiteiras sob o atarantado das borboletas vermelhas, verdes, azuis na presa dos rendilhados, desembaraçavam-se das grilhetas fechadas a puxão de espera, magra caça. Fui companheiro dos bichos que encontrava desirmanados em fugas desajeitadas, do lagarto escamado a verde e azul, da cobra serpentina preta num ápice engolida pelo feno, da lebre fugitiva e astuta à noite sob o trilo dos grilos ou da batuta da campainha das ovelhas. Fui guardador do mundo no chão das ovelhas presas por linhas que nos meus livros deixaram às vezes espaços de página em página, onde eu me lia e guardava num mundo lido alto; de tempo a tempos a passagem dos comboios, lentos, de horários certos, horas secretas do calor dos dias, na convocatória das madrugadas, de quando um rio horas a fio as alinhava, as abria por dentro filtradas a sol alto, baixo ou à ferida dos ventos, da capa que me protegia da água dos dias raros em que chovia. Guardei ovelhas, guardei as revoadas dos pombos no meu coração. Fiz as minhas viagens directas abandonando o meu fôlego de bicicletas, ardendo por dentro dos livros, onde recompunha escombros, unindo amiúde as quebras do mundo. Guardei ovelhas não guardei cabras, como meu irmão já muito mais velho Miguel Hernandez que fez tantas descobertas em horas tão incertas, numa Espanha de tempos muito antes dos meus. Hernandez morreu no cárcere sem ceder um traço na rebeldia dos versos de puxar as palavras do avesso de se afastar do terço de se irmanar com as cabras que pastava em Orihuela. Guardei ainda mais rebanhos, guardei ainda mais ovelhas sendo outras ou as mesmas, quando os pastores fugiam em debandada de noite por sangrarem neles solidões nos longes dias, nas longas horas que havia no pastoreio do gado manso, na rebeldia dos ocasos em que o sol menos aquecia, o gado aproveitava e comia, o tempo em que andava pardo e comia. os pastores fugiam, como se de prisões de guardar do gado levavam a flauta de Marília ou de Elisa voltavam em mangas brancas de camisa festejando aparecimento, fazendo promessas: juravam a água, o sol, os frutos, juravam afeiçoamento às crias, pertencer à família queriam-se nos rituais do gado, na separação, no aprisco nos canjeirões de leite no fazer do queijo, um fruto nascido por suas interpostas mãos, liso, aceso, milagre do coalho ardido nas palmas árduas, nuas juravam por fim as geadas aos espelhos, saudavam, cumprimentavam de quem viesse a sua vaia mão apertar. Mas fugiam às solidões dos dias, ao fumo das neblinas das manhãs, ou à intrépida chuva, ao calor que a noite amealhava, ao pastoreio úbero logo no Outono. Corriam as estradas com assombro, iam as casas longínquas pedir água, veio o seio insinuado das raparigas, pedir-lhes compromisso de guerra, dos dias curtos de que estavam à espera, estudavam-lhes o cabelo, viam-lhes o manear das ancas, a escultura da perna. Bebiam água pelo púcaro, enchiam o cantil, enquanto outros dobravam assobios também à espera de uma madrinha mulher uma fada de dias ilesos que presos hoje ou presos depois se queixassem da condição escondida das mais altas solidões. eu fui pastor pequeno que levava recados maravilhados e trazia água, água, a água dos Invernos ou dos Verões que eles bebiam serenos. Os momentos amenos, a sede insegura, a água fresca, quase pura. Naquelas horas sem batida de relógio o coração a pulso, eu compreendia aquele mister, aquelas guardas de horas, como se o cavalo do tempo ficasse suspenso nos ares e a ele viessem pousar no dorso uma chuva de borboletas. Li-lhes as minhas letras de livros, alguns deles ouviam comovidos com os cajados fincados no chão, como se supensa ficassem a página, as surpresas, as desfeitas do formigar do amor, a incompreensão dos dias. A comunicação espalhada no chão onde laboravam formigas, o milhafre sob arco as via a pino, e em queda livre as devorava no montículo. Apenas uma ou outra ovelha se sobressaltava, soprava um ar de brisa deslassado. Alguns queriam ler, eram-lhes fáceis, as horas pediam-lhes entretém, jogavam pedras ao ar, desfiavam a contar glórias inúteis à noite andavam horas e horas a pé, à procura do destino de um café. Juravam vinganças vindouras e com vassouras exorcizavam os pés. Eram eles, os pastores, os pastores muito senhores de muita solidão, os pastores de casa de meu pai, os pastores de quem meu pai guardava distância de respeito consentido que dava folga ao domingo e me tirava as minhas corridas de bicicleta, a bola entre pés, os livros de página vincada, a procura das minhas belas, desejadas. e me tornava pastor, eu também era o pastor dos domingos eu era pastor de rebanhos de domingo como Miguel Hernandez muitos anos antes foi pastor de solidões. Eu não era pastor de solidões, eu tinha livros, eu aprendia o ofício dos dias, o mais puro ofício dos dias, a solidão de estar comigo. Fui o pastor de meu pai nas horas das aflições em que feitas previsões se dava o descanso aos pastores, em que se fechavam de amores inconfessáveis pelas madrinhas de guerra, pelas suas gratas madrinhas de guerra, as madrinhas de guerra que pensavam ter solidões de muitas esperas, agora as do gado, depois com uma guerra, um coração de mulher não se abria, eles eram de outra natureza, embora a integridade às vezes tendesse à aspereza de uma palavra maldita, e acudia a desculpa logo aflita não se abria o coração de mulher com a promessa de uma guerra, isso não tornava íntegra a espera - - dizia minha mãe aos pastores que dispostos nos seus amores lhe entregavam como penhor os seus segredos, - à guerra vais - da guerra voltas - não temas na incerteza não se abre o coração de uma mulher, com a promessa de uma guerra, se assim for abre-se a porta do medo. Eu fui guardador de rebanhos, interroguei as coisas simples: o silvo das cobras, o piar dos mochos à demanda das noites, a queda do sol nos pinhais, o regresso dos pombos, os pavões que só desferiam grito aquela hora, o zurro de um burro que dividia o dia em duas partes. Fui guardador de rebanhos e interroguei as coisas simples: a ordem dos dias suspensos, o labor dos pássaros, as asas das borboletas, bebi o leite a mojo úbere a regalo dos pastores. Um alimento exacto e seguro no contentamento puro dos meus cinco anos E a minha mãe dizia-lhes... As mulheres dão-vos o alimento pela colher, acodem aos filhos a ralho, acreditam no embalo das sereias nas águas cativas do mar, têm sempre as mãos cheias, que mais delas se pode imaginar." postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:12 PM - Comments: Terça-feira, Maio 08, 2007 Quem já ouviu falar de cartas mentais??? Aqui fica um exemplo para aqueles que como eu só lhes ensinaram a técnica das chavetas para ajudar a memorizar! a miúda na escola postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:33 AM - Comments: Segunda-feira, Maio 07, 2007 cheguei à conclusão, custa-me admiti-lo, de que a vida nos traz os mesmos desafios uma e outra vez. mas, mais triste e risível é que nós, nós mesmos, sem a isso sermos obrigados voltamos a repetir os mesmos erros, ou digamos a reagir com as mesmas singularidades aos mesmos estímulos. usamos para isso a nossa liberdade, um pouco manca e viciada de todos os maus usos e fragilidades, que nos constituíem. tudo isto para te dizer, escreveria ela na carta, que me voltei a apaixonar pelo mesmo homem embora exteriormente pareça outro. é de facto, outro, na sua identidade e demais características, mas eu sei, e peço que me acredites, que é o mesmo homem. sou eu de novo e ele, vinte anos depois, a brincarmos com a vida demasiado rápida, a sairmos à noite exaustos, a bebermos para além da moderação, a arriscarmos a vida à nossa maneira. mas há vinte anos, eu não escreveria assim. diria simplesmente que estava a viver intensamente e quando tudo acabasse, culparia o mundo, por ser cruel para os amantes. terminaria assim, a carta. comunicavam-se à antiga. o sobrescrito creme, as letras desenhadas a caneta e o selo bem visível sobre o lado esquerdo, do coração. dirigiu-se ao correio e enquanto subia a rua corrigia mentalmente as palavras, que estavam dentro da sua mão. não deveria ter usado a palavra "amantes". ele chamá-la-ia vulgar. ou ironizando, iria congratulá-la pelo tom brejeiro e primaveril da prosa. ela não se importaria. continuaria a repetir os mesmo erros e a reagir com a mesma singularidade, ao mesmo estímulo. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:42 PM - Comments: Quinta-feira, Maio 03, 2007 Há um ninho no parapeito de uma janela que mais parece uma fenda da minha casa. Estão lá, muito chegados um ao outro, dois ovos. Eu já suspeitava - arrulhos, agitação das asas. Ontem fiz-me maior e espreitei. O casal de pombos tinha-se ausentado. Os ovos repousavam entre pequenos ramos e não sei como se chamam as fitas estreitas que apertam os maços de jornais. Já aconteceu antes. Um ninho. Então era só um ovo e depois um ser coberto de cascas. De olhos fechados e protuberantes, com as poucas penas coladas ao corpo - tão magro. Não sobreviveu. E eu, que não tenho medo dos mortos, dos meus mortos, pelo menos, que onde quer que estejam decerto hão-de velar por mim, não consegui deixá-lo ali, no ninho, atrás da vidraça empoeirada. Um dia, à tarde, quase noite, enfiei um saco de plástico na mão, forcei a janela e peguei naquele corpo sem corpo. Desembrulhei a mão com a outra para cobri-lo, sem ter de olhá-lo. Dei um nó na abertura do saco e deitei-o no caixote do lixo, como se fosse possível esconder a morte. E eu, que nunca choro, subi as escadas dois a dois e fechei a porta. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:47 PM - Comments:
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