Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sábado, Abril 28, 2007

sobre uma outra revolução, desta vez em 1848, no advento da guerra franco-prussiana:

"Eram três horas da tarde. De repente, ouviu-se na rua uma gritaria, e uma espécie de berros e asobios turbulentos e o ruído de muitos passos. E esse barulho crescia , ao aproximar-se:
- Mãe, o que é isto?-perguntou Klara, olhando o espelho colocado à janela- Toda essa gente... Que têm eles? Por que estão tão alegres?
- Meu Deus! - gritou a consulesa, atirando as cartas para cima da mesa. Levantou-se cheia de angústia e correu à janela. Porventura...Oh, grande Deus, sim! é a revolução... A plebe vem a caminho...
Era verdade que durante todo o dia, houvera tumultos na cidade. Na Breite Strasse, atiraram uma pedra à vitrina da casa de tecidos Benthien - e só Deus sabia, que tinha que ver a vidraça dos Benthien com a alta política.
-Anton! - gritou a consulesa, numa voz trémula, para a sala de jantar, onde o criado arrumava a prataria...-Anton, desça depressa! Feche o portão! Corra o ferrolho! A plebe vem a caminho..."

"Os Buddenbrook", Thomas Mann

miss portugal

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Quinta-feira, Abril 26, 2007

eu sei que é um cliché, mas é tão belo este poema. e este velho país tem a sorte de ter poetas que dizem a revolução com tanta beleza. bom dia, liberdade. temos muito a agradecer.

"esta é madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
e leves habitámos a substância do tempo"
Sophia

miss portugal

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Terça-feira, Abril 24, 2007

Eu vinha do supermercado. Trazia dois sacos com compras em cada mão. O peso curvava-me as costas. Nem o vi aproximar-se. Foi o sopro perto do meu pescoço que me fez retomar a verticalidade. Disse-me que a minha cara não lhe era estranha. Disse-o franzindo a testa, arrepanhando os olhos, como se quisesse que a memória lhe saísse do crânio. Continuei a andar espiando-o pelo canto do olho. Um homem alto e seco, o último botão de uma camisa às riscas apertado a dois dedos travessos do pescoço fino - de peru, pensei -, as calças de bombazina castanha, as botas de camponês. Não tenho hábito de dar conversa aos homens na rua. Muito menos dentro de casa. Sou uma mulher séria. De um homem só. Enterrado no Alto de S. João. Que a terra lhe seja leve. Também não dei conversa àquele camponês. Mas ele insistia em que a minha cara não lhe era estranha. Tinha passado para a minha frente e andava ao contrário, de frente para mim. Eu olhava-o de baixo para cima, com as pálpebras semicerradas. Da idade do meu falecido, bem parecido, olhos grandes e escuros, queixo pontilhado de cinzento, uma bela cabeça. "Mas de onde é que a conheço?" repetiu quando chegámos à porta do prédio e eu introduzi a chave na ranhura. "De onde?" Pelo canto do olho vi-lhe o sinal negro na face. Rudolfo Valentino. Subimos juntos as escadas. Ele carregou os sacos. IR

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De JORGE DE SOUSA BRAGA, in O POETA NÚ

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me
sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D.Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
atacava os orgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o
Infante D.Henrique foi uma invenção do Walt
Disney
e o o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do
Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
que os meus egrégios avós me perdoem
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
áparte o facto de agora me tentar convencer que nos
espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se
contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um
resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encon-
trar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e
idiota como tu
mas que tem um coração doce mais doce que os
pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para te poder espre-
mer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos em cinquenta e sete Salazar
estava no poder nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente
nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que
Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos ?
Sao castanhos como os de minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

NADA de censuras em nome da poesia bilhete postal.este é um poema de um país onde muitos destes mitos ainda permanecem! zé marto



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Segunda-feira, Abril 23, 2007










algumas fotos tiradas no almoço da tribo no aniversário de uma das autoras do blogue.
parabéns!

miss portugal

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Quinta-feira, Abril 19, 2007

(hoje acordei um bocado piegas)
VAMOBORA
Entre por essa porta agora e diga que me adora
você tem meia hora pra mudar a minha vida
vem vambora que o que você demora é o que o tempo leva
Ainda tem o teu perfume pela casa ainda tem você na sala
porque meu coração dispara quando tem o seu cheiro
dentro de um livro "dentro da noite veloz" "na cinza das horas"...
Adriana Calcanhoto
(IR)

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Terça-feira, Abril 17, 2007



"Blessed are thou among women", 1899
Gertrude käsebier (1895-1965)

uma mãe possível.
miss portugal

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Segunda-feira, Abril 16, 2007



casal de Oklahoma

Dorothea Lange(1895-1965)

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:58 PM - Comments:


não fui feito para o prazer, disse ele, à laia de aforismo. faz-me estar desatento, perder de vista as coisas importantes, continuou. segui-lhe o olhar que se escondia do sol e se agarrava à ementa e senti-o revoltar-se contra toda aquela enormidade de gozo. eu concordei, embora totalmente por convencer. dá-me prazer cobri-lo de certezas. pediu então uma sopa do dia e uma cerveja, que engoliu sem remorsos. a mulher da mesa ao lado comia, depois de partido em pequenos paralelipípedos, um enorme bolo de chocolate, que se esmiolava pelos lábios vermelhos. passei a mão pela minha própria boca de lábios finos. pedimos a conta e dissemos até amanhã.

amélia

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Domingo, Abril 15, 2007

o fausto apresenta-se nas noites de festa. À volta da mesa come-se mais do que se tem e se deseja. o excesso apresenta-se como um escape. cansados, esquecemo-nos de agradecer o estarmos vivos. alguns já se esqueceram de como é ser alegre. como o rosto se contrai e distende e o ar sai e entra em golfadas enérgicas e de rompante. havíamos de fazer isto mais vezes, disse-me ele tímido. pode ser, respondi eu e senti o bolo da festa a arrastar-me para a terra.
amélia

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Sábado, Abril 14, 2007

When you go away

"When you go away the wind clicks around to the north
The painters work all day but at sundown the paint falls
Showing the black walls
The clock goes back to striking the same hour
That has no place into years

And at night wrapped in the bed of ashes
In one breath I wake
It is the time when the beards of the dead get their growth
I remember that I am falling
That I am the reason
And that my words are the garment of what I shall never be
Like the tucked sleeve of a one armed boy

W.S. Merwin

ou ainda, na tradução de José Alberto Oliveira

Quando partes o vento roda para o norte
Ospintores trabalham todo o dia mas ao sol-pôr a tinta cai
Descobrindo as paredes negras
O relógio bate repetidamente a mesma hora
Que não tem lugar nos anos

E à noite acobertado na cama de cinzas
Acordo de repente
É a altura em que a barba dos mortos está a crescer
Eu recordo que caio
Que sou o culpado
E que as minhas palavras revestem o que nunca serei
Como a manga enrolada de um rapaz sem braço.

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:22 PM - Comments:


disse-me ele que era tudo o que podia dar. que não tinha mais nada a dizer. mas não era assim. continuei como se nada fora. peguei-lhe na palavra e levei-a comigo. a palavra não podia ficar curta, como uma manga de criança pobre. deitei-lhe a bainha abaixo, arranquei-lhe os pespontos e tirei-lhe os vincos para cobrir toda a nudez a descoberto. ame-se sempre. ame-se contra toda a eficácia.

amélia

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o amor necessita de palavras. palavras bem ditas, reiteradas em cânones, soletradas devagar, escorrendo sem equívocos. o amor quer-se certo, como alguns relógios. a palavra mergulha no amor, toma banho de prata, seca-se ao sol, a palavra amor. o amor escurece as horas de desejo. Fecha-as e estica-as como peças de roupa no estendal. o amor também é o indizível, a tensão que se sente entre nós e o possível. digo-te amor, sou amor e invoco o teu nome. Ele desce sobre mim, não tu, o amor desce, entendes? enrolo-te no sonho e despacho-te. para a próxima faço-te mais. é isso o que me acontece, espero que não te importes. o amor deve contar-se como uma história enredada, com peripécias de fazer rir e chorar. delas tirar-se-á o devido proveito.

amélia

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Sexta-feira, Abril 13, 2007

um antigo amor é como um casaco de inverno em dia de verão. pesa-nos, aquece-nos quando já não temos frio e torna-nos desaquados ao tempo presente.a lã grossa pica-nos a pele, embora no passado a tenhamos achado confortável e indispensável ao dia a dia. o casaco ainda está novo e parece não ter envelhecido, nem se ter estragado com o tempo de permanência no armário. Ficamos desconfiados se alguém não o terá usado durante a nossa ausência. somos confirmados na suspeita, quando ao revistar os bolsos chapados sobre a frente do casacão descobrimos bilhetes de cinema de data recente. uma inquietação sobrevém: quem terá usado o casaco? ignoramos essa ousadia ou assumimos a perda e o desnecessário que o casaco se tornou no verão? resolvi espiar as andanças do meu antigo e desusado casaco. pôr-me à escuta, esconder-me detrás da porta e nessa falta de engenho envergonhar-me e desistir após a primeira hora. decidida a não aguentar a espera, resolvo ir visitá-lo de vez em quando. abro a porta do armário, com vergonha da intenção, e toco-o, apalpo-o, viro-o e reviro-o no cabide, vou-lhe aos bolsos e volto a colocá-lo com um afago. pode não me servir para nada, mas é meu.
amélia

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Terça-feira, Abril 10, 2007



Willie recebe a prima Eva no seu apartamento-quarto-e-cozinha de Nova Iorque. Eva fuma, vê televisão e passeia sozinha. Sabe tomar conta de si própria. A acompanhá-la, o leitor de cassetes. Quando pressiona a tecla, o tema é sempre o mesmo: "I put a spell on you" ('cause you' re mine). Eva está de passagem - dez dias em Nova Iorque, entre a Hungria e Clevland. Willie vive de esquemas relacionados com o jogo. Quando ela parte, para Clevland, ele oferece-lhe um vestido. Eva veste calças, camisolas e sempre o mesmo sobretudo preto e comprido. Passa um ano. Willie faz batota no poker. Ganha 600 dólares. "Estamos ricos!", celebra Eddie, o comparsa. Pedem um carro emprestado e os dois fazem-se ao caminho. Vão visitar Eva. Em Clevland há um lago "muito bonito". O trio passeia até lá. Um lago gelado. Eddie, Willie e Eva em fundo branco. Stranger than Paradise. Jim Jarmusch, integral na Cinemateca este mês. IR

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Segunda-feira, Abril 02, 2007

há um lugar que eu visito com frequência em sonhos. debruço-me da varanda e sinto-a contra o meu ventre. se é verão os ferros escaldam, se é inverno os mesmos arabescos de ferro preto gelam-me. a sala com o piano preto e a dos cortinados verdes mudam de funções, à medida dos caprichos de uma das donas da casa.nunca se sabe quem dorme com quem e em que quarto. quem se imagina outra para além do que pobremente é, e vive de acordo com esse ser imaginário, ávido e exigente. é um lugar real e de tão real eu trago-o em mim, junto à pele. recrio-o em qualquer momento e sob qualquer pretexto. é a minha melhor vida. e é nela que eu me continuo e nela espero nunca me perder.
amélia

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