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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Sexta-feira, Março 30, 2007 Vão os dois à quarta-feira. Ela chega primeiro. Traz um fato de banho preto que em cima lhe tapa o peito abundante e em baixo as coxas grossas. Faz lembrar uma Vénus pré-histórica. Uma touca cor de rosa apanha-lhe o cabelo. O fio de ouro de contas grossas aperta-lhe o pescoço. Deixa os chinelos de enfiar no dedo à beira da piscina e entra na água de costas, agarrando os corrimãos de frente para os degraus. Inspira pela boca entreaberta, como se sentisse frio. Quando os pés assentam no fundo da piscina, a água dá-lhe um pouco acima da cintura. Olha para baixo e vê as pernas, brancas e instáveis. É então que começa, os braços como remos, a caminhada. Ela vê-lhe primeiro os chinelos pretos, com tira de borracha sobre o peito do pé, os dedos em martelo. A seguir as mãos, caídas no alinhamento das coxas, com pêlos escuros nas falanges, as unhas quadradas. Há uma prega de gordura, não excessiva, inclinada sobre o baixo ventre. O olhar dela pára aí. Depois só os ouvidos trabalham. Ouve-o sentar-se na borda da piscina. Entrar na água com um salto pesado. E começar a caminhada, em sentido inverso ao dela. Há um trilho de água azul a separá-los. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:30 PM - Comments: Terça-feira, Março 27, 2007 "Não seria justo omitir que uma convivência mais assídua com o Príncipe também teve um certo efeito sobre Sedàra. Até então, só encontrara aristocratas em reuniões de negócios (quer dizer de compra e venda) ou a seguir a excepcionalíssimos e bem longamente meditados convites para festas, dois tipos de eventualidades durante as quais estes singulares exemplares sociais não mostram o seu lado melhor. Por ocasião destes encontros, ele ganhara a convicção de que a aristocracia consistia unicamente em homens-ovelhas, que só existiam para abandonar a lã dos seus bens à tesoura de tosquia, e o nome, iluminado por inexplicável prestígio, à sua filha. .... Depois, quando começou a conhecer melhor Dom Fabrizio reencontrou nele a moleza e a incapacidade de se defender, que eram as características da sua anterior fórmula nobre-ovelha, mas também mais um atractivo, diferente em tom mas igual em intensidade ao do jovem Falconeri; além disso, ainda uma certa disposição para procurar a sua forma de vida no que dele próprio saísse e não no que podia arrancar aos outros; com este poder de abstracção, ele ficou fortemente impressionado, embora se lhe apresentasse em bruto e não redutível a palavras, como aqui se tentou fazer. Tomasi di Lampedusa in "o Leopardo" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:54 PM - Comments: Domingo, Março 25, 2007 " Não há lugar para um bicho em casa. A história da relação do cão com o homem é uma relação que não foi boa apenas para os cães, ao contrário do que se pensa. Foi muito boa para os homens. Os homens utilizaram os cães desde sempre como marcadores de território, para avisarem quando vinha um estranho, para caçarem, criando aquilo a que chamamos uma relação simbiótica, que é a melhor relação em biologia....Os cães ficam chateados connosco, quando a gente se zanga sem necessidade, eles amuam e não nos ligam. Os cães têm toda esta consciência, esta interpenetrabilidade emocional, e por isso têm uma consciência fantástica. ... Quando começámos a ficar mais sofisticados, o cão começou a diminuir o lugar. Mas isso é como a automação, que leva as pessoas ao desemprego! Por favor, não ponham os cães no desemprego!" Carlos Amaral Dias in "O inferno somos nós- conversas sobre crianças e adolescentes" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:12 PM - Comments: Sexta-feira, Março 23, 2007 1. no jardim do meu bairro há um senhor que dia após dia se senta no mesmo banco, à mesma hora; traz, pendurado no punho, um saco de plástico cheio de pequenos fragmentos de pão, migalhas em forma de cubos milimetricamente cortados. O pão é de fabrico artesanal, uma mistura de trigo e milho que ele sabe ser apreciada por eles. Os pardais. A sua companhia diária. A única talvez. Nunca o vi com mais ninguém. Outros senhores da sua idade frequentam o mesmo jardim, pousam também ali perto. Falam alto, riem, resmungam. Unidos por um baralho de cartas, onde são mais os que ficam de pé do que os quatro que têm direito a assento. Mas o nosso senhor dos pardais nem sequer os vê ou ouve, é como se estivesse num outro lugar. Onde só árvores e pequenos pássaros. E estes rodeiam-no como filhos que provavelmente não teve. Vêm-lhe debicar a comida aos dedos. Confiam naquele corpo enorme, esguio, ligeiramente curvado; tez rosada e lisa, (quase me atreveria a dizer, macia. Como a sua voz.) Sobretudo comprido. Boné de fazenda. Uma figura antiga, saída de uma fotografia a preto e branco. Os pardais, não vendo, não ouvindo, não falando, sabem que este homem é de confiança. Ao contrário dos pombos que competem pela refeição. E dos homens das gaiolas. Eu também sinto essa confiança. É impossível não nos encantarmos com a sua presença. Com os seus silêncios, ou o seu falar pausado, de quem só diz o que tem verdadeiramente para dizer. Esperamos das pessoas de maior idade uma sabedoria de vida que nem sempre se verifica. Há quem envelheça mal, e que ao em vez de emergir, mergulha mais fundo nas suas fraquezas, vincando-as. Nele essa sabedoria está presente nos mais pequenos gestos, nas frases mais curtas. Mas é talvez quando nada acontece, quando a voz se cala e o movimento se detém, que a sua presença se magnifica e expande. Nesse à vontade com o vazio, com o espaço em branco. Nesse espaço que ele propositadamente deixa por preencher. a miúda o cão e o senhor dos pardais postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:05 AM - Comments: Quinta-feira, Março 22, 2007 Não tenho qualquer homem para a Amélia, mas, caso algum se apresente, devo informá-lo, através de palavras alheias, que "A afeição de uma mulher [da Amélia, claro!] lê-se na sua propensão para o silêncio. Ela surpreende-se muitas vezes por o seu amante não entender as suas meias-palavras. Ela precisa muitas vezes de explicar coisas que lhe parecem claras, o que a faz irritar-se. É um dilema milenário, esse de comunicar ao outro as suas intuições profundas de mulher, assim como este processo de iniciação mútua que ela pressente, e que é tão difícil de construir harmoniosamente... Ela sabe ler o seu amante como um livro aberto, entrar nele como num quarto vazio e ficar como se estivesse em casa, conhecê-lo melhor do que ele próprio. Em silêncio ela escrutina os mais ínfimos pormenores que possa revelar coisas dele, ela sabe enroscar-se no seu amor como se fosse uma roupa aconchegante, e descobrir muita coisa sobre ele." Elogio do Silêncio, Marc de Smedt (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:23 PM - Comments: Quarta-feira, Março 21, 2007 mais uns homens para a amélia... serie B
em exibição aqui postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:55 PM - Comments: Um homem para amélia, um homem saído de um filme de Ozu, com a graciosidade dos pequenos gestos repetidos infinitesimalmente numa câmara muito lenta e despida onde corpos de tão leves não tocam o chão. Um beijo é um beijo é um beijo é um beijo... ao de leve sobre a testa. O olhar entra e sai como uma agulha de crochet tecendo a malha que os vai unindo. A luz branca faz sobressair o negro dos cabelos lisos que cobrem os ombros da mulher. Ele é calvo desde a infância. Abraçam-se no para sempre do instante. Toda a verdade da união. Na tranquila aproximação do par. No silêncio avassalador do momento. Apaga-se a palavra abrindo-se a infinitude da vida que não se diz., porque ali onde não há simplicidade o divino não pode reconhecer-se. E é de um encontro divinal que se trata, sem que ninguém fale nisso. Sem que ele seja sequer nomeado. Um homem para amélia, um homem saído de um acto de amor da miúda postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:30 PM - Comments: quando se esfuma a esperança há uma contracção no mundo. o mar recolhe-se e os animais escondem-se apressadamente nos seus covis. mas ao reemergir a esperança dilata-se o universo, os sons ancestrais convocam-nos e interferem nas televisões e nos telemóveis. há uma suspensão do mal e, eu e tu, unimo-nos sem pretexto. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:20 PM - Comments: Segunda-feira, Março 19, 2007 andava timidamente a fugir-lhe com um pressentimento de que algo de essencial me estava a escapar. no entanto, sabia que a fuga me era absolutamente necessária e que todas as pessoas de bom senso, me apoiariam. era de certo modo fugir à violência do desamor, da presença esgotante de uma hipótese que nunca se concretizava, de uma eterna promessa, como dizem dos jovens atletas explorados nos seus corpos e levados a proezas insensatas.era-me exigido que planeasse a fuga ao pormenor, pois não haveria uma segunda oportunidade. o efeito surpresa poderia trazer-me algo que era raro nele: o desconcerto, a total falta de controlo e era nessa probabilidade que me apoiava. andava há alguns meses a desenlaçar-me, com a minúcia e a humildade de uma mulher sem escolhas. seria para a frente ou não seria. seria sem ele, sem nenhum apoio dele ou nunca seria. seria de uma simplicidade como poucas coisas na minha vida. mas simples e a direito, olhar recto e sem rodeios, era exactamente o que me convinha. não haveria regresso, não haveria nada de requentado na despedida. era adeus, seguido de um enorme espaço vazio como uma paisagem no novo méxico: plana, agreste e sem fim. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:27 PM - Comments: Sexta-feira, Março 16, 2007 "Há certas ocasiões e circunstâncias nesta estranha e confusa história a que se dá o nome de vida em que o homem encara o universo como um incomensurável gracejo, cujo sentido ele apreende apenas vagamente, sem deixar de nutrir a funda suspeita de que tal gracejo se faz exclusivamente à sua custa. Todavia, nada o faz desanimar, como nada lhe parece valer o esforço de uma contestação. Engole então os acontecimentos, todas as crenças, convicções e persuasões, todos os maus bocados visíveis e invisíveis, por mais nodosos que sejam, como uma avestruz capaz de digerir balas e pederneira de espingarda. E, quanto às pequenas dificuldades e às preocupações que pressagiam uma fatalidade súbita, uma mutilação ou perigo de vida, tudo isso, tal como a própria morte, lhe parece apenas os efeitos maliciosos do bom humor, das joviais palmadas nas costas que lhe são aplicadas pelo velho gracejador invisível e inescrutável." Moby Dick, Herman Melville (IR) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:52 PM - Comments: Quinta-feira, Março 15, 2007 "Na natureza todas as formas, desde as mais antigas e mais sumárias, quase ainda imateriais, até às mais evoluídas e vivas, estavam sempre reunidos e coexistiam: a nebulosa, a pedra, o verme e o homem. Muitas das formas animais tinham desparecido e já não havia répteis voadores nem mamutes. Isso não impedia que ao lado do homem continuasse a viver o animal primitivo, apenas provido de uma forma: o unicelular, o micróbio, o infusório. Com uma entrada e uma saída no seu corpo-célula. Não era preciso mais para ser um animal. E, para ser um homem, não era geralmente preciso muito mais. Isto foi uma ironia de Kuckuck, uma ironia cáustica. Ele pensava, sem dúvida, dever mostrar um pouco de causticidade a um jovem de sociedade como eu.!" Thomas Mann in "As confissões de Félix Krull" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:49 AM - Comments: Segunda-feira, Março 12, 2007 Teófila vestiu o sobretudo azul. Compôs-se diante do espelho. Identificou um borboto e caçou-o com os dedos em pinça. Deixou ficar os outros - tantos que eram já. Sorriu para verificar o alinhamento dos dentes postiços. Ajeitou a bandeleta. Julgou-se composta. Pegou na sombrinha, que lhe servia de bengala. Há dois dias que não falava com ninguém, sem contar com Jesus Cristo, na parede, com ar sofredor, e a Virgem Maria em cima do frigorífico. Contava-lhes os episódios da telenovela, informava-os sobre o que ia fazer para o almoço, dizia-lhes que a vizinha recebia uns e outros em casa. Jesus Cristo e a Virgem Maria não lhe davam troco. Nem uma palavrinha, um sussurro, um "pois é", um "enfim". Ressentida, Teófila fez-se ao caminho, entre a sala e a cozinha, para a porta da rua. Ia ao café. Sabia onde se vendia a bica a cinquenta cêntimos. Fechou a porta atrás de si e ficou à espera que alguém passasse. Ali vinha a vizinha, a que recebia uns e outros a altas horas da noite. Abeirou-se. Contou-lhe que ia ao café. 50 cêntimos. Mostrou-lhe os dentes brancos enquanto apertava o lóbulo da orelha para sublinhar a excelência da bica. Piscou-lhe o olho. 50 cêntimos. Um café delicioso, aromático como não havia outro. Teófila podia pagar dois cafés. Até três se lhe apetecesse. Ia formular o convite com a clareza que a dentadura postiça lhe permitia quando a vizinha desatou a correr rua abaixo. Teófila ainda gritou a pergunta. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:35 PM - Comments: Sábado, Março 10, 2007 gostaria de escrever com raios de luz gravados na pele. e ao voltar de noite a nossa casa, em solidão, pudesse ler em mim os motivos da esperança. os sonhos de muitas vidas impedem que me instale num só lugar, com uma só alma. a cada noite, sua dor. a cada dia, sua passagem. em mim calo com persistência todas as razões, que não as que em mim se encarniçam. é escusado, pois ninguém me dará descanso, senão tu, meu corpo de luz. para ti me viro, para não morrer mais um bocado. mais não, que nada me resta para te amar. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:02 PM - Comments: Quinta-feira, Março 08, 2007 ... um bom descanso "Tal como a gaivota sem pátria que ao pôr do Sol fecha as asas e adormece ao sabor das vagas, assim, no mar alto, ao cair da noite, o natural de Nantucket ferra as velas e estende-se para repousar, enquanto bandos de morsas e baleias perpassam por assim dizer, por baixo do seu travesseiro." Moby Dick, Herman Melville IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:10 PM - Comments: antigamente as primaveras chegavam em dia certo. iam a todos os países sem se esquecerem de nenhum. a nossa instalava-se como uma velha matrona no seu sofá preferido. espraiava-se na praças e ruas da cidade e nos campos, onde ao que ouvi dizer, fazia o mesmo. a um sinal transcendente, que só as plantas e alguns animais sentiam, dispunha-se a despertar os olhares e a cativar as emoções. o sol repentino não o tocava. nem o esfusiante sorriso de alguns ou a destemida convivência a que se atreviam. há anos que deixara de sentir a primavera. não a via, não a cheirava, não lhe passava pelo corpo. desconhecia-a como aliás acontecia com demasiadas coisas no mundo. nos pequenos recortes onde escrevia tudo, nada indicava a presença de um dia de sol ou de um deslumbramento perante um momento mais vivo do que os anteriores. era demasiado desconcertante para que tal circunstância fosse anotada entre idas ao dentista ou visitas a amigos. talvez por isso lia mais afincadamente nos dias do primeiro sol depois do inverno. atrevia-se à poesia, seguindo um antagonismo ao óbvio, que era da sua natureza. e quando alguma luz lhe entrava forçosamente pela pele, passava ao de leve a mão pelos braços, sacudia as pernas, levantava-se e suspirando culpava a imobilidade, que lhe provocava espasmos musculares. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:19 PM - Comments: Terça-feira, Março 06, 2007 entrámos em sua casa. a disposição dos móveis era dele, apesar deles não o serem. eram da mãe, explicou-me ele secamente. sentei-me num cadeirão de pernas torneadas, lascadas do uso, sem verniz que lhes cobrisse a nudez. ele sentou-se no lugar de dono da casa. estendeu-se sobre um sofá de onde lhe sobravam as pernas sobre o braço de veludo verde escuro puído. ocorreu-me ir para junto dele, mas reparei que não havia lugar junto do seu corpo que só de si se ocupava. cruzei as pernas para disfarçar o desconforto de me sentir só. olhei para o tecto onde umas grinaldas pendiam algo sorumbáticas, saudosas de um passado faustoso. ele virou-se para mim sem me fitar e disse "então, gostas?". desconhecia o que havia eu de gostar ou desgostar. de quê, respondi-lhe, numa voz sem tom. "então, da casa, claro!" parece-me simpática, o que era uma grosseira inverdade. "fica à vontade" prosseguiu ele, recostando-se ainda mais fundo no seu sofá verde escuro. nos momentos seguintes questionei-me se ele iria ligar a televisão. nada me poderia já surpreender. antes disso falou um pouco da actualidade, das eleições antecipadas, das passadas, das por vir. e entre comentários olhava-me de soslaio. tive a sensação quase palpável de que me deveria levantar e ir-lhe buscar qualquer coisa, uma manta, um chá. havia algo nele que pedia que o servissem. um pedido insistente naquele corpo inerte e sem chama, que necessitava de sentir alguma coisa. um chá quente nos lábios, um calor nas pernas, uma almofada sobre o pescoço largo. não o fiz. disse, "então vou andando", sem pressa. o olhar dele lançava-me um apelo que não entendi. e assim, descruzei as pernas e fui-me embora. regressei a casa, cansada de alguma coisa que se deveria ter passado e que não acontecera. era uma hipótese que me deixava perplexa, como se houvesse alguma promessa por cumprir. tinha combinado comigo o exercício de uma solicitude, de uma atenção sem falhas ao outro. ouvir para além dos ouvidos, ver para além dos olhos. sentir sem o esperado retorno.e nessa atenção me perdia, deixava o chão mal suster os meus pés e o corpo existir como se pairasse, mais do que pesasse o peso da sua carne. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:17 PM - Comments: Segunda-feira, Março 05, 2007 veria como não me ia custar nada. ele telefonara e eu acedera mais por hábito do que por vontade. afinal o que custava tomar um café e conversar um pouco? ele mostrava-se cada vez mais solitário e mal se sentava começava de imediato a longa exortação sobre um tema, que só a ele poderia interessar. ainda tentei sem convicção perguntar-lhe se andava a trabalhar, se se sentia melhor. ele nem respondeu, nem manifestou na voz ou no corpo, que ouvira a minha pergunta. tem a mestria inigualável de me fazer sentir invisível, de me retirar do palco, de me cortar da realidade como se fosse uma figurinha de papel num livro de figurinos. isolava-me logo de início, olhava propositadamente para longe, para um ponto entre a parede e o relógio e levantava o queixo e com ele todo o seu perfil se elevava e ajustava ao seu modo de projectar os sons, em palavras sabiamente articuladas. eu remexia a colher de metal, um pouco torta do uso, e seguia as circunvalações líquidas do café, antecipando-me ao único prazer da tarde. ele pausara e olhara-me com olhos de censura. não tinha respondido à sua pergunta " não concordas", por distracção. e ele, com um espanto que dedicava ao mundo e a todas coisas vivas em geral, fitou-me em silêncio. era a incompreensão mais completa que eu via nos seus olhos tensos e irritados. "desculpa, mas não ouvi o que disseste", disse com voz inocente. "deixa, agora já não interessa", rematou ele. obrigou-se ao mais dorido silêncio que já presenciei. mexia as pernas, os joelhos pontiagudos batiam na mesa de fórmica a um ritmo sincopado, esfregava as mãos, metia-as e tirava-as dos bolsos, como quem procura algo. de repente imobilizou-se e olhando-me disse em tom condescendente "ligo-te amanhã". acabei o café, endireitei as costas, pus duas moedas sobre a mesa e segui-o. amélia postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:45 PM - Comments: Domingo, Março 04, 2007
prémio bes photo 2006, Daniel Blaufkus "Teresin" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:53 PM - Comments:
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