Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

tentava explicar-me o princípio do prazer, mas todo o seu corpo se retesava com a minúcia a que essa explanação obrigava. seria pois, segundo ele, necessário a libertação do espírito através da mais pura disciplina, para que o corpo não recuasse perante tamanho adversário. porque era sempre de uma luta que se tratava. nunca o prazer poderia ser alcançado sem haver de antemão alguma cedência, um entregar de armas, uma rendição do sujeito. importava que essa luta não deixasse o indivíduo exangue, e assim, continuava ele, na sua voz lenta e bem articulada, seria necessário treino. disciplina e treino ou se quisesse persistência e motivação. a busca do prazer não era nenhuma brincadeira.era propósito e ardilosa intenção. eu atrevi-me com a ideia do deixar andar, o abandono ao que o mundo, os outros, o acaso nos trouxesse. uma certa lassidão optimista, por assim dizer. "estás doida?", perguntou-me ele irritado. como é que conseguiria apreender toda a dimensão e subtileza do prazer quando ele aparecesse? se vivesse distraída deixá-lo-ia escapar e a única realidade de que me aperceberia seria a dor e a ausência. treino, prosseguia ele. treinar o olhar e o corpo, deixar o homem lógico e racional na estação e apanhar o comboio, sem olhar para trás. não sei se me darei como convencida. disse-lho e ele manteve a sua irritação. levantámo-nos da mesa onde tomáramos café. o sol ainda quente das cinco da tarde fez-nos semicerrar os olhos. ele despediu-se com poucas palavras e eu sorri, apesar da pouca alegria que sentia. sorrio sempre.

amélia

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"Lagar

As mães, e até as que não eram mães,
achavam salutar que mergulhasses no mosto,
na promessa apenas desse vinho tinto
que ao enrijecer os músculos
despertava a alma para infâmias e paixões.

Que diriam agora, se o pudessem dizer,
essas mães? Deixa, qualquer abismo serve:
perdeste a infância e não encontraste o mundo"

Manuel de Freitas in "Beau Séjour", 2003


miss portugal

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Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007



José Afonso (1929-1987)

"Que amor não me engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia"

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Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007







entrada. tecto. no b'leza há uns anos.

miss portugal

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Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

a coerência, a irrealidade e o poder absoluto

"...embora seja verdade que as massas são obcecadas pelo desejo de fugirem à realidade porque, privadas de um lugar no mundo, já não podem suportar os aspectos acidentais e incompreensíveis dessa situação, também é verdade que a sua ânsia pela ficção tem algo a ver com aquelas faculdades do espírito humano, cuja coerência estrutural transcende a mera ocorrência...
... o acaso é o senhor supremo deste mundo e os seres humanos necessitam de transformar constantemente as condições do caos e do acidente num padrão humano de relativa coerência.
... Na sua condição de deslocados espirituais e sociais, um conhecimento medido da interdependência entre o arbitrário e o planeado, entre o acidental e o necessário, já não produz efeito.
Antes de tomarem o poder e criarem um mundo à imagem da sua doutrina, os movimentos totalitários invocam este falso mundo de coerências, que é mais adequado às necessidades da mente humana do que a própria realidade."

Hannah Arendt, O Sistema Totalitário
(IR)

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contava-lhe o que se tinha passado na ausência dela. as coisas práticas que tinham acontecido, o trabalho bem ou mal feito, as movimentações pessoais dos que se agitavam à sua volta, como se fossem peças de um xadrez imaginário. o joão deixou a catarina com três filhos, a carla deixou o joão carlos sem razão. o chefe que sem aviso se tornou solícito e atencioso e de como todos eles comentavam que estaria apaixonado ou secretamente promovido. mas todas essas trivialidades nada eram, nada representavam, embora lhes tentasse dar volume, dar-lhes um espírito qualquer, nomeá-las. e voltava sempre à mesma sempiterna sensação. quando ela não estava os dias pareciam-lhe estar cobertos de uma névoa persisitente e fria, tanto mais incomodativa quanto só ele a via. olhava para o céu e ele não correspondia aos seus sentimentos. mantinha-se límpido e sereno e essa indiferença dos elementos magoava-o. a sua vida estava descentrada, embora tudo não passasse de uma percepção tão ténue como um toque de mulher. tão essencial como o toque dela sobre o seu corpo.

alberto

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Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

"Oh, parece-lhe? Não estou bem certa. As coisas parecem durar tanto tempo... como se, no final, acabassem por desgastar as pessoas. Por vezes, a vida parece um jogo entre nós próprios e os nossos carcereiros. Os carcereiros, evidentemente, são os nossos erros; e a questão está em ver quem é que aguenta mais tempo. Quando penso nisso, a vida, em vez de ser demasiado longa, parece-me tão curta como um dia de Inverno... Oh, repare, já há luzes lá em baixo, no vale... este dia terminou. E, subitamente, descobrimos que perdemos a nossa oportunidade. Que fomos derrotados...?"
Jovens Rebeldes, Edith Wharton
(IR)

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Terça-feira, Fevereiro 13, 2007



Ele é filho dela e acaba de sair da prisão após ter cumprido dois anos por exibicionismo diante de crianças. Nesta cena ela diz-lhe (escrevo de memória): 'Tu és um milagre, somos todos um milagre porque sabemos que aqueles que amamos nos vão ser tirados e mesmo assim continuamos. Os animais não fazem isso.' Naquele subúrbio de gente endinheirada e entediada, ela parece ser a única que, de facto, ama e luta por quem ama.
Little Children, Tod Field
IR

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Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

mais um poema:

"Derrota"

De facto conseguimos viver nas derrotas.
As amizades aprofundam-se
o amor esperto ergue a cabeça.
Até as coisas se tornam limpas.
As andorinhas brincam no ar
instaladas sobre o abismo.
As folhas dos álamos tremulam.
Apenas o vento prossegue imóvel.
As aparições escuras do inimigo projectam-se
contra a base brilhante da esperança. a coragem
cresce. Eles, dizemos deles, nós, de nós,
tu, de mim. O chá amargo agrada
como uma profecia bíblica. Tomara que
a vitória não nos surpreenda.

Adam Zagajewski (n.1945)

miss portugal

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Domingo, Fevereiro 11, 2007

hoje, dia do referendo, é um bom dia para ler poesia. abri o manancial nunca esgotado da "rosa do mundo" onde sempre encontro a beleza, que o mundo esconde ou não revela.
deixo-vos um poema, amigos:

Eu podia escolher

Não tinha ideia.
Escolhi a paz.

A verdade e a beleza
deixei-as ir,
e também a sageza e a nostalgia-
até o amor,
que tão embevecido me olhava,
negras nuvens com eles se deslocavam.

Paz, era paz.
e nos recônditos da minha alma
dançavam seres
de que nunca tinha sequer ouvido!

E no céu pendia outro sol.

de Toon Tellegen (n.1941)

miss portugal

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Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

vizinhos III
ela dói-me. pedia-me cigarros. "desculpe, não fumo." ela incomoda-me. incomoda-me quando faz conversa com os homens das obras e eles se riem dela. na minha rua as obras nunca acabam. depois de um condomínio fechado há sempre outro condomínio fechado a erguer para o céu linhas direitas e majestosas diante de velhos muito velhos aos postigos de casas mais idosas do que eles. ela pede aos homens das obras "um cigarrinho." pisca-lhes os olhos. tem os olhos puxados sobre as maçãs do rosto salientes. os malares largos. os dentes pequenos dentro da boca larga também. ela calça sandálias douradas de salto alto quando chove. patinha nas poças. a lama pega-se às unhas envernizadas de azul. ao berloque da pulseira da canela. ela balança quando anda. os pés para um lado o corpo para outro. e tropeça. e recomeça. ela aperta-se dentro das calças da moda que terminam um pouco abaixo dos joelhos masculinos. encontrei-a há pouco tempo no hospital onde fazem com que os insanos e os esquisitos durmam. pensei que estava definitivamente longe da minha vista. até ontem. ela voltou. fingi que não a via. carta sem baralho. peça de que o puzzle nem suspeita. mulher de lado nenhum a caminho de nenhum lado. "cinquenta cêntimos. para um cafezinho." ela persegue-me. IR

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Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

"Creio que é compatível o voto na despenalização e ser - por pensamentos, palavras e obras - pela cultura da vida em todas as circunstâncias e contra o aborto. O 'sim' à despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dentro das dez semanas, é contra o sofrimento das mulheres redobrado com a sua criminalização. Não pode ser confundido com a apologia da cultura da morte, da cultura do aborto, embora haja sempre doidos e doidas para tudo."

Frei Bento Domingues in "Público", com um agradecimento à Aldina que não deixou o vento levar as palavras. Haja alguém entre o clero que recuse atear fogueiras e queimar bruxas. IR

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Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007



"O marquês de Brightlingsea, de pé, voltado para a monumental lareira da sala de estar vermelha, consultou severamente o seu relógio. Conservava ainda, aos 60 anos, uma magnífica figura, com músculos firmes, um corpo elegante, com o perfil inclinado e o ar friamente benevolente associado, nos retratos ancestrais, a uma cabeleira e folhos atravessados pela faixa de uma Ordem. Lorde Bringhtlingsea era um homem justo, e, tendo constatado que ainda faltavam cinco minutos para as oito, guardou o relógio no bolso com um ar menos severo começando a dar voltas ao invólucro vazio da sua mente."
Jovens Rebeldes, Edith Wharton
que tal como definição de personagem? IR

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Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

a luz entrava na janela sempre no mesmo ângulo, sovando o vidro que mostrava riscos e imperfeições.se não soubesse de fonte segura, da ciência e dos homens sábios, dir-se -ia que a terra era um corpo imóvel, que a nada nem a ninguém se ligasse. a ousadia de pensar que ele permanecia quieto e que a terra o segurava ao seu sítio, enlançando-se aos seus pés não o deixando voar ou sair da órbita! mas não era assim, o tempo corria, a terra que parecia tão segura e firme, movia-se como uma jovem irrequieta, ávida de emoções, e só ele parecia nada fazer, nada tocar. tinha telefonado à mulher amada e ela parecera surpreendida, como se a voz dele falasse da escuridão do passado. ele sentira nas suas respostas vagas e eficazes, o desamor de que estava rodeado.
alberto

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