Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Domingo, Dezembro 31, 2006

"E quais eram, afinal, a forma e a máscara sob as quais o amor vedado e oprimido reaparecia? Assim perguntou o Dr. Krokowski, e deixou o seu olhar passar ao longo das filas, como se esperassse seriamente uma resposta dos seus ouvintes. Mas cabia-lhe ainda a ele dizê-lo, a ele que tantas coisas dissera já. Ninguém, a não ser ele o sabia; mas ele não falharia certamente, notava -se na sua expressão. Com os seus olhos ardentes, a sua palidez de cera, a sua barba negra e as sandálias de monge por cima das meias de lã cinzenta parecia simbolizar em pessoa, o combate entre a castidade e a paixão, de que acabara de falar. Pelo menos era a impressão de Hans Castorp, enquanto, como todos os demais esperava com suma curiosidade ficar sabendo sob que forma reaparecia o amor recalcado. As mulheres mal se atreviam a respirar. O promotor Paravant coçou mais uma vez a orelha para que, no instante decisivo, pudesse recolher a resposta. Depois o Dr. Krokowski disse: "Sob a forma de doença". O sintoma da doença era uma actividade amorosa disfarçada e toda a doença era metamoforse do amor."
Thomas Mann in "Montanha Mágica"

miss portugal

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Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

Que o ano de 2007 signifique amigos, amores, trabalho, saúde e muitas palavras, lidas e escritas. É o meu desejo. Vale o que vale. Até para o ano. Cá nos encontraremos! IR

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"Bonita" é uma vaca da raça barrosã, que, pelo porte, inspira respeito e um ou dois passos atrás. Só Alberto, 60 anos, boné aos quadradinhos na cabeça, caminha sem receio, o braço paralisado encostado ao tronco, o direito lançado para a vaca, a que chama "pequenina". Vai repetindo em voz baixa, sem que o cigarro se descole do lábio inferior, "anda cá pequenina, anda cá." E ela vai ter com ele. Alberto é um dos funcionários, quase todos pessoas com deficiência, do centro hípico de Miranda do Corvo. Com a mão sã aberta no lombo castanho de vaca, explica, balançando ligeiramente o cigarro: "Lidei muito tempo com gado, está a perceber? O gado dá-se bem comigo, está a perceber?" Ninguém duvida. Basta vê-lo assim, abraçado a um animal com quase quinhentos quilos de peso. Segue agora ao lado de "Bonita", nenhum deles preocupado em evitar as zonas onde há lama. O cigarro emigrou para o canto dos lábios gretados pelo frio, de onde continuam a brotar palavras, desta vez dirigidas exclusivamente à vaca. IR em Miranda do Corvo

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Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

Ha!Ha! Houdini!
..................
Harry is known in higher stations
as the 13th apostle.

His name was fake but he was not.
he was no alchemist. no scientist.
no tricster plucking radishes from
top hats. no cup and ball man. no
heaven born conjuror. but a man who
sought heaven through natural magic.
he studied our saviour's tactics religiously.
he was internally airborne.

and driven with such an obssessive
desire to mount the sky he soon proved
himself to be a true-blue pilot.

Yet his ariel triumphs are little known.
he is still worshipped as the great
escape artist. the supreme shackle cracker.

was ever there a man so misunderstood?
Harry was not merely escaping. he was
on his way somewhere.

Patti Smith

miss portugal

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passa hoje à noite na rtp2. directamente de um tempo - a infância - em que tudo era grande e brilhante e até os ditadores tinham qualquer coisa de risível e tonto. tempo de gradiscas, tios loucos empoleirados nas árvores e avós perdidos no nevoeiro. quando ninguém tinha morrido. IR

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Terça-feira, Dezembro 26, 2006

ESTRAGON:

Nothing happens, nobody comes, nobody goes, it's awful!

Waiting for Godot, Samuel Beckett (este foi o ano do centenário do seu nascimento). IR

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Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

>... a poesia fora completamente abandonada e apenas era comprada pelas vinhetas dos pintores mais ou menos conhecidos. Já nesse tempo eu percebi que a pintura parisience devorara a poesia francesa.

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É a minha amiga Nina. Tem 14 anos. É linda, corajosa e só quando lhe apetece boazinha. IR

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Terça-feira, Dezembro 19, 2006

Há que dias que nem o cyber espaço aceita as nossas palavras...

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Segunda-feira, Dezembro 11, 2006

Sou um homem corpulento mas nem por isso descuidado. Tenho - tinha - aquela espécie de agilidade surpreendente nos gordos. Digo surpreendente porque o que se espera de pessoas com volume corporal parecido ao meu é que derrubem objectos e façam tremer o chão a cada passo. Nunca foi esse o meu caso.
Cresci numa casa ampla e tornada vazia pelo amor dos meus pais. Depois nem toda a paixão que Emília dizia sentir por mim a levou a desfazer-se dos sapatinhos de cristal no aparador, dos sete anões em redor da branca de neve sobre a coluna de madeira à entrada da cozinha e das outras criaturinhas em imitações baratas de cristal que pululavam na habitação.
Sete anos, sete, vivi entre o quarto com quatro passos de largura e a sala de cinco por cinco passos, com raras idas à cozinha - nunca disse à Emília, para não melindrá-la, mas a cozinha era minha inimiga, apertava-me como um par de calças do tamanho abaixo - e uma visita diária à casa de banho. Ali, sentado no vaso sanitário, descansava confortavelmente a cabeça na parede em frente.
Perguntem-lhe, perguntem à Emília se alguma vez derrubei qualquer dos animaizinhos alinhados sobre o depósito do autoclismo. Perguntem-lhe se desalinhei os minúsculos frasquinhos de perfume colocados diante do armário com portas de espelhadas do WC. Perguntem-lhe se alguma vez toquei com um ombro ou qualquer das minhas abundantes ancas os elefantinhos postos uns atrás dos outros, do maior para o mais pequenino, na mesinha ao lado do sofá. Nem um ligeiríssimo encontrão!
Disciplinei não o corpo inteiro, mas as suas partes, de tal maneira que cada uma aprendeu a mobilizar-se em defesa do objecto que supostamente colocava em perigo. Imediatamente, em tempo real, sem necessidade de reflexão ou coordenação do sistema nervoso central ou lá o que é.
Emília não soube dar o devido valor a esta associação orgânica entre o meu corpo desmesurado e os seus bibelots mínimos. Foi-se embora. Na mala levou apenas algumas roupas. Deixou tudo o resto: os animaizinhos de vidro, os anões e a Branca de Neve, a colecção de dedais de porcelana, as socas de barro, os sapatinhos de cristal... Daqui a pouco levanto-me do sofá onde estou sentado desde ontem e vou à cozinha. Para ver o que acontece. IR

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Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

"Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse

Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, da operação poderosa do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir
E a mulher cantava para o homem respirar"

Daniel Faria in "Homens que são como lugares mal situados"

miss portugal

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queria lembrar-me dela, a grande cabra. ainda ontem me deitava sobre ela e a sentia como sempre. nada tinha mudado ou talvez eu nada tivesse mudado nela. assim a queria como em sonhos e só eu sei como a sonhei, repetidamente, até não mais poder. depois dela ficou no quarto um cheiro, que de tão intenso se materializava nas paredes. com ele podia escrever frases sobre ela, o meu anjo. antes dela havia a possibilidade do verbo, das palavras que se formariam depois: monossílabos, polissílabos, de tónica grave ou aguda. apesar da dor, ficaram as palavras que o meu amor me deixou.
alberto

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"Maman et la putain", de Jean Eustache, anteontem na Cinemateca. Ainda estou em fase de recuperação, a tentar a assimiliação. Sou muito lenta. Preciso de tempo. Por enquanto estou atordoada. Haverá um momento em que começo, muito len----ta-----men-----te a lidar com pedaços do filme, a parti-lo aos bocados, como a um alimento entre os dentes, depois em bocadinhos mais pequenos, até ficar uma massa, que posso engolir, para que se forme o bolo alimentar. A absorção pode demorar anos e implicar mais uns quantos visionamentos. IR

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Terça-feira, Dezembro 05, 2006

sempre gostei de loucos. se forem poetas, melhor.

"Sobre a ordem da poesia"

Sobre o que a poesia se não há-de pronunciar eu o sei:
sobre a coincidência das flores
sobre a natureza da alma
nunca sobre a natureza do dia.
A poesia nasce e faz-se aqui neste fazer-se poesia
aqui onde a poesia toma as proporções da mensagem do dia
a esta luz mediterrânica
este sol
este céu
aqui a poesia se transforma no todo da natureza
e restitui ao convívio aquilo que ele não dá
................

António Gancho in "O ar da manhã"

miss portugal

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Waiting for the Barbarians, Constantine Cavafy (1864-1933)

What are we waiting for, assembled in the forum?

The barbarians are due here today.
Why isn't anything happening in the senate?
Why do the senators sit there without legislating?

Because the barbarians are coming today.
What laws can the senators make now?
Once the barbarians are here, they'll do the legislating.
Why did our emperor get up so early,
and why is he sitting at the city's main gate
on his throne, in state, wearing the crown?

Because the barbarians are coming today
and the emperor is waiting to receive their leader.
He has even prepared a scroll to give him,
replete with titles, with imposing names.
Why have our two consuls and praetors come out today
wearing their embroidered, their scarlet togas?
Why have they put on bracelets with so many amethysts,
and rings sparkling with magnificent emeralds?
Why are they carrying elegant canes
beautifully worked in silver and gold?

Because the barbarians are coming today
and things like that dazzle the barbarians.
Why don't our distinguished orators come forward as usual
to make their speeches, say what they have to say?

Because the barbarians are coming today
and they're bored by rhetoric and public speaking.
Why this sudden restlessness, this confusion?
(How serious people's faces have become.)
Why are the streets and squares emptying so rapidly,
everyone going home so lost in thought?

Because night has fallen and the barbarians have not come.
And some who have just returned from the border say
there are no barbarians any longer.
And now, what's going to happen to us without barbarians?
They were, those people, a kind of solution.

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"Era assim com todos os rapazes. Se Bozena fosse bela e pura, e se nessa época ele fosse capaz de amar, talvez a mordesse toda, exasperando até à dor o seu prazer sexual e o dela. Pois a primeira paixão adolescente não é de amor por uma pessoa, mas sim de ódio a todas as pessoas. Sentir-se incompreendido e não compreender o mundo não é o efeito de uma primeira paixão, mas a sua causa. A paixão é apenas um refúgio, no qual estar com o outro significa solidão duplicada."

Robert Musil in "O jovem Törless"

miss portugal

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Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

"A forma mais radical - e a única segura - de posse é a destruição, pois só possuímos com certeza aquilo que destruímos. Os donos de propriedade que não consomem, mas continuamente procuram aumentar as suas posses, esbarram com um limite muito inconveniente: o facto lamentável de que os homens morrem. (...) A finitude da vida pessoal é um desafio tão sério à propriedade como fundamento social, quanto os limites do globo são um desafio à expansão como fundamento do sistema político. Por transcender os limites da vida humana, o crescimento automático e contínuo da riqueza além das necessidades e possibilidades de consumo pessoais, que é a base da propriedade individual, torna-se assunto público e sai da esfera da simples vida privada."

Hannah Arendt, "O Sistema Totalitário", acerca do Imperialismo

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:11 PM - Comments:


depois, tinham já passado muitos anos, deixou de reconhecê-lo. O rosto era o mesmo: os olhos sonolentos, o esquerdo ligeiramente descaído em relação ao direito, as pálpebras arroxeadas, o lábio inferior a crescer para o de cima, a tonalidade oliva da pele. Sabia contudo que aquele não era ele. Não sabia desde quando sabia nem exactamente como soubera. Tinha ficado a saber que sabia na tarde em que o observara, sem que ele desse por isso, da janela, quando regressava a casa. Era talvez qualquer coisa na maneira como andava, com o tronco avançado. Decidiu investigá-lo. Passou a olhá-lo com cuidado, a ouvir atentamente o que dizia, depois a tacteá-lo, a cheirá-lo, a prová-lo, para verificar se tinha o mesmo sabor salgado, a rasgá-lo gentilmente, tentando averiguar-lhe a espessura da pele. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:34 PM - Comments:



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