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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Sábado, Fevereiro 19, 2005 "Para além disso já morri uma vez, naquela árvore, e foi você que decidiu salvar-me. Por isso, há uma coisa que gostaria de saber antes de ir. Se não for demasiado tarde, com os bárbaros à porta.' Sinto um ligeiro sorriso de mofa assomar-me aos lábios, não posso evitá-lo. Olho de soslaio para o céu limpo. 'Perdoe-me se a questão parece impudente, mas gostaria de perguntar-lhe: como é que acha possível comer depois de você ter estado... a trabalhar pessoas? É uma interrogação que já pus muitas vezes a mim próprio, acerca de carrascos e outros do género. Espere! Oiça-me um pouco mais, estou a ser sincero, custou-me muito vir aqui com esta conversa, pois você aterroriza-me, não preciso de dizer-lhe o que é, tenho a certeza que percebe. Não lhe custa comer depois? Eu imaginei que uma pessoa desejaria lavar as mãos. Mas uma lavagem vulgar não seria suficiente, uma pessoa devia requerer a intervenção de um padre, uma cerimónia de purificação, não acha? Uma espécie de purga à alma, também - foi assim que imaginei. Por outro lado, como seria possível uma pessoa voltar à sua vida diária, por exemplo, sentar-se a uma mesa e partir o pão com os familiares ou com os camaradas?' Ele afasta-se, mas, com a mão como se fosse uma garra, tento agarrar-lhe o braço. 'Não, oiça!', digo. 'Não me interprete mal, não estou a censurá-lo ou a acusá-lo, há muito que me deixei disso. Lembre-se, eu também dediquei uma vida à Lei, conheço os seus processos, sei que os trabalhos da justiça são, muitas vezes, obscuros. Estou apenas a tentar compreender. Tentar compreender a zona onde você vive. A tentar imaginar como respira, come e vive dia a dia. Mas não consigo! É isso que me preocupa! Se eu fosse ele, digo para mim, as minhas mãos sentir-se-iam tão sujas que eu sufocaria.' Liberta-se do meu braço e atinge-me no peito com tanta força que me falta o ar e tropeço para trás. 'Sacana!', grita. 'Cabrão de velho lunático! Desapareça! Vá para o raio que o parta!" in "À Espera dos Bárbaros", JM Coetzee IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:42 PM - Comments: Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005 Naquela altura eu mantinha o mundo equilibrado na ponta dos meus dedos. Bastava trabalhar muito e não me esquecer de nada. Nunca me esquecer de nada. Nunca me esquecer de carregar no interruptor cinco vezes. Repetir cinco vezes o gesto de carregar no interruptor cinco vezes. Rodar a chave cinco vezes para um lado e cinco vezes para o outro na fechadura. Repetir cinco vezes o conjunto de movimentos. Debruçar-me cinco vezes à procura de monstros debaixo da cama. Só assim poderia afastá-los. Alinhar os sapatos. Perfilá-los tão exactamente que não ficasse um nem a espessura de um cabelo à frente do outro. Levantar-me cinco vezes da banheira durante o banho de imersão para levar a mão direita à parede por cima dos azulejos. Obrigado a erguer-se cinco vezes, o corpo era feliz e esfriava. Mergulhar a cabeça até ficar com o rosto coberto de água cinco vezes. De olhos fechados. O polegar e o indicador apertavam-me o nariz. Virar cinco vezes para um lado. Cinco vezes para o outro. Eu ficava muito cansado. Tão cansado. Mas tinha a certeza. Da continuidade. Do futuro. Do futuro que era o presente vezes cinco. Depois esqueci-me. Já não tenho a certeza do futuro. O despertador toca cinco vezes e eu não me levanto. Há cinco monstros debaixo da minha cama. Deixá-los estar. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:38 PM - Comments:
"O Superman. O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad. O Superman. O judge. O Mom and Dad. Mom and Dad. Hi. I'm not home right now. But if you want to leave a message, just start talking at the sound of the tone. Hello? This is your Mother. Are you there? Are you coming home? Hello? Is anybody home? Well, you don't know me, but I know you. And I've got a message to give to you. Here come the planes. So you better get ready. Ready to go. You can come as you are, but pay as you go. Pay as you go. And I said: OK. Who is this really? And the voice said: This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes. This is the hand, the hand that takes. Here come the planes. They're American planes. Made in America. Smoking or non-smoking? And the voice said: Neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds. 'Cause when love is gone, there's always justice. And when justice is gone, there's always force. And when force is gone, there's always Mom. Hi Mom! So hold me, Mom, in your long arms. So hold me, Mom, in your long arms. In your automatic arms. Your electronic arms. In your arms. So hold me, Mom, in your long arms. Your petrochemical arms. Your military arms. In your electronic arms." Big Science, Laurie Anderson postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:08 AM - Comments: no domingo vou votar arnaldo antunes "Tô louco pra fazer Um rock pra você Tô punk de gritar Seu nome sem parar Primeiro eu fiz um blues Não era tão feliz E de um samba-canção Até baião eu fiz Tentei o tchá tchá tchá Tentei um yê yê yê Tô louco pra fazer Um funk pra você E tá consumado Tá consumado Tá consumado Tá consumado Fiz uma chanson d' amour Fiz um love song for you Fiz una canzone per te Para impressionar você Pra todo mundo usar Pra todo mundo ouvir Pra quem quiser chorar Pra quem quiser sorrir Na rádio e sem jabá Na pista e sem cair Um samba pra você Um rock and roll to me E tá consumido Tá consumido Tá consumido Tá consumido Fiz uma chanson d¿amour Fiz um love song for you Fiz una canzone per te Para impressionar você" mp (Grande Arnaldo!!!) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:52 AM - Comments: viva favela ![]()
Há cerca de um ano, Macarrão fez o público se emocionar com sua participação em Fala Tu, como um dos três rappers que teve sua vida acompanhada por uma câmera, durante nove meses. Entre outras coisas, o filme mostrou sua tristeza com a perda da mulher, que acabara de morrer de parto. Ao ver o filme, se arrependeu de ter deixado um momento tão pessoal ser exposto pro mundo inteiro. "Ficou parecendo que foi uma opção minha ter mostrado aquilo, mas não foi. Se pudesse, não teria colocado. Mas quando vi já era tarde", revela. A morte de sua mulher ainda é motivo de muita tristeza. Macarrão não entende como em pleno século XXI alguém possa morrer de parto. Os médicos, segundo o rapper, disseram que sua mulher tinha "o útero fragilizado", e que uma parte do órgão havia se rompido sem que a ultra-sonografia fosse capaz de detectar. "Não podia ter tido um baque maior na minha vida. Saí de casa para a maternidade numa felicidade só, e voltei viúvo com um bebê recém-nascido no colo. Você não imagina a dor que isto foi para mim", conta o rapper, pai de outros dois filhos.... mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:36 AM - Comments: Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005 a bela mulher que eu julgo amar está a tornar tudo muito difícil. encontrei-a no café onde nos cruzámos pela primeira vez e falou-me com um desadequado tom de familiaridade. afinal nada se passa entre nós para me tratar como se fôssemos íntimos. não gostei de a ver comer uma bola de berlim com os dedos nem limpar os cantos da boca a um papel amarfanhado. achei que estava a exagerar ao beber duas garrafas de coca-cola para acompanhar. não adianta disfarçar: do que não gostei mesmo foi do cachecol cor-de-laranja ao pescoço.como lidar com a beleza extrema que corrompe os nossos ideais? como começar a amá-la sem ter o que lhe dizer.convidou-me para irmos ao cinema na sexta. disse-lhe que não podia. saí enraivecido. maldita política. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:47 PM - Comments: ![]()
Odete podia ser uma personagem de uma das muitas aventuras de Corto Maltese. Odete é natural de Cabo-Verde, nascida na Ilha do Sal. Mas a sua verdadeira pátria são os oceanos. Odete é marinheira. Acabou de chegar de uma viagem à volta do mundo num barco à vela de nove metros. Foram quase dois anos. Ela e o pai do seu último filho. Engravidou a bordo, veio a terra tê-lo no hospital e voltou a embarcar, agora com a criança. Para que o bebé não tombasse do berço, ela e o pai "construíram" uma cama com rede para o segurar. Conta-me que foram uns meses santos. Dormia quase todo o tempo, embalado pelo movimento da água foi como se não tivesse chegado a sair de dentro dela. O pior foi o regresso, habituá-lo à terra firme. Pergunto-lhe quantos filhos tem e ela responde-me muito rapidamente que tem 4. «Sou uma máquina de fazer filhos». Odete é pequena, miúda, mas firme. Com a musculatura toda à vista. Um corpo de esforço, habituado à dureza da vida a bordo. O mais difícil, diz-me, são as noites, por vezes o frio é tanto que só o grogue nos salva, só ele nos aquece. A sua cara é uma massa esculpida pelo vento e pelo mar. Traços bem enterrados formam dunas à superfície e uns olhos rasgados de verde não enganam o fundo da visão. Escrevo sobre esta mulher porque não a quero esquecer. Ela é o exemplo daquilo que nos pode acontecer quando nos envolvemos apaixonadamente com os elementos naturais. Quando não pisamos só asfalto. Quando nos abandonamos à deriva. É bom saber que ainda há quem viva assim. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:07 AM - Comments: Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005
"O Piano", Jane Campion IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:20 PM - Comments: Caríssimo Pedro, Hoje desci as escadas a correr, atrasada como sempre. Espreitei pelas ranhuras da caixa do correio. Havia lá duas cartas - uma tinha remetente, a saber a TMN, a outra era anónima. "Se não costuma votar, leia esta carta", pediam-me. A curiosidade falou mais alto. Felizmente, não está afónica. À conta dela violei correspondência. Porque, caro Pedro, a carta não me era dirigida. Eu voto sempre. Nos últimos tempos, talvez, com menor entusiasmo. Reconheço que até já engoli uns sapos. Atribuo a persistência, a teimosia, ao efeito do "impensado genealógico". Quarenta e oito anos de silêncio é muito tempo. Abri o sobrescrito. Na verdade, rasguei-o. Sou pouco hábil. "Caro (a) amigo (a). Não pare de ler esta carta." Não apreciei a familiaridade do tratamento e cheguei a suspeitar tratar-se de uma daquelas correntes que garantem desgraças tremendas caso tenhamos a veleidade de quebrá-las. Ainda assim, o tom desesperado comoveu-me. Levava a mala a tiracolo, um saco com o almoço na mão, as chaves e os óculos escuros naquela que segurava a carta. Compreenderá que inicialmente só tenha lido as frases a negro. "Tenho defeitos como todos os seres humanos, mas conhece algum político em Portugal que eles tratem tão mal como a mim?" Infeliz Pedro, lamento-o. Sinceramente. Você é um desgraçado. Ocorreu-me de imediato sugerir-lhe o recurso à Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, o que agora faço. Como saberá, a APAV gere casas refúgio, onde as mulheres maltratadas curam as feridas, longe dos agressores, que lhes desconhecem o paradeiro. Decerto há-de abrir uma excepção e acolher um homem político que já foi esfaqueado e pontapeado. Um homem perseguido. Quem sabe não é possível forjar-lhe nova identidade? Os versos da Internacional - "De pé ó vítimas da fome..." - acudiram-me quando li o que escreveu sobre a luta contra os poderosos. Quem diria que você, camarada Pedro, é, afinal, um defensor dos humilhados e ofendidos? "Só com o seu voto será possível prosseguir as políticas que favorecem os que menos ganham e que exigem mais dos que mais têm e mais recebem", que é como quem escreve "proletários de todo Mundo, uni-vos!" Veio-me aos lábios outro tema. "Conta-me histórias/ Daquilo que eu não vi." Com a diferença de que eu tenho visto. Quase a chegar à Calçada do Combro, fez-se luz no meu espírito nebulado. O Pedro sofre de uma desordem de personalidade. Uma espécie de esquizofrenia, de divisão da alma, sem pretender ofender os demais perturbados. O Pedro está no sistema e fora dele ao mesmo tempo. "Provavelmente nós temos algo em comum: não nos damos bem com este sistema." Pois não. Mas você personifica o sistema com o qual não nos damos bem. Quero descansá-lo. Naturalmente, votarei. Depois não diga que não o avisámos. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:56 PM - Comments: consegui falar com ela. a mulher mais bela do mundo. a minha musa, por quem facilmente morreria, embora essa possibilidade me pareça pouco provavel.a verdade é que a minha morbidez, me tem levado a imaginá-la a chorar-me, depois de morto.quando não somos amados em vida resta-nos o gozo de sermos muuito chorados em mortos. as pessoas de negro e olhos vermelhos inchados, recriminando-se por não nos terem amado mais. acho a ideia deliciosa e excitante. não será preciso a morte, porque já falei com ela. foi ontem e desde então não consigo deixar de reproduzir, com ou sem grande fidelidade, as palavras que usámos. todas elas, as palavras, acompanhadas de um sorriso lindo e eu que não conseguia despegar os olhos do da boca dela. o meu medo era estar a salivar enquanto falava com ela. há coisas que não se conseguem evitar. falei com ela é certo. a voz não era a que eu imaginava. não é doce nem suave. é até um pouco agressiva. deve ser falta de amor, acho. nada que não se remedeie.o problema é que já não a acho tão bela. agora só a quero ouvir falar, mas ao mesmo tempo tenho pavor que ela diga o que não deve. assim fico sem mulher dos meus sonhos. e que trabalho me deu a encontrá-la. alberto postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:17 AM - Comments: Domingo, Fevereiro 13, 2005
night creatures Lee Krasner IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:32 PM - Comments:
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