Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Domingo, Outubro 31, 2004

mais uma vez amor

Quem vê telenovelas está habituado a ver Marcos Palmeira e Ana Beatriz Nogueira. Eu não vejo telenovelas, e fui ao Tivoli porque esta malta das telenovelas brasileiras também faz teatro.
E fazem bom teatro.
E usam toda a prata da casa. O texto é de autores brasileiros. o cenário, o design, a multimédia. A banda sonora é toda uma delícia de bons arranjos de MPB, maioritariamente Caetano e Chico.
A história é uma história de amor um pouco diferente. Romantica e engraçada. Mais não digo para não matar a surpresa.
Vão ao Tivoli. Nem que seja pelo Teatro, que como o Rio de Janeiro continua Lindo. E continua sendo....

Artur Anjos

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Sexta-feira, Outubro 29, 2004

sobre o palco há uma decisão de revelação ou de secretismo. no palco da dança tudo parece ser revelado, mas a viragem e o movimento contam só uma história, que pode ser de abertura, fechamento, confronto ou harmonia. no final, nós os que estamos sentados imóveis olhamos para os corpos do lado de lá, que não podemos tocar nem afagar, e esperamos uma explicação, um sentido de corpos que cortam e integram o espaço. nós, os sentados, ficámos muito tempo sustendo a respiração, gravando, na nossa memória de corpos adormecidos, a possibilidade de sermos diferentes.
miss portugal, sobre "Once" de anna teresa de keersmaker

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"Parece velho e isso desperta a piedade por vê-lo caminhar sozinho depois de tantos anos, tantos dias e noite oferecidos, sem contar com esse rumor que se ergue à nascença e mesmo antes, esse insaciável Como fazer? Como fazer?, ora baixo, como um murmúrio, ora límpido, como o E para beber? do chefe de cozinha, e muitas vezes inchado até ao rugido. Para se ir embora sozinho, no fim de contas, ou quase, por caminhos desconhecidos, ao anoitecer, com um cajado. Era um grande cajado. Servia-se dele para lançar o corpo para a frente e, também para se defender, caso fosse preciso dos cães e dos larápios. Sim a noite caía, mas o homem era inocente, de uma enorme inocência, não tinha receio de nada, sim, receava, mas não havia necessidade de ter receio, não podemos nada contra ele, ou muito pouco." de "Molloy", Samuel Beckett
Como fazer? Como fazer? IR

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uma editora que nos salva!





... e tantos outros!

mp (este fim de semana terá a oportunidade de ouvir ao vivo um dos discos deste catálogo, as "misteriosas" sonatas de Biber pelo grupo "Les Veilleurs de Nuit", no Festival de Música de Mafra - sábado, às 16:00, na Biblioteca do Palácio, a não perder!)

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Quarta-feira, Outubro 27, 2004

Como é negra a "Noite Escura" de João Canijo. Negra, brutal, sem "glamour", sem encanto. Será o encanto que associamos à noite apenas poético, resultado de não a conhecermos bem? Na noite de João Canijo não há sentimentos, nem os mais elementares, como aqueles que é suposto ligarem os elementos de uma família. O pai sacrifica a filha. Fá-lo como se não o fizesse, servindo-se ainda de palavras melosas, iludindo-a com beijinhos e abraços. O pai, personagem interpretada por Fernando Luís é, entre todas, incluindo os mafiosos russos, a figura mais revoltante. Não só entrega a filha a qualquer coisa pior do que a morte para salvar a sua própria pele. Também, entretanto, se porta como o mais carinhoso dos pais. Ascoroso. Actor excelente. O espaço, a casa de alterne, apanha o espectador em cada cena, graças aos diálogos que acontecem à volta e não são silenciados nem reduzidos a som ambiente. Penso que o filme é muito bom. Mesmo se, quando se abandona a sala, a noite parece ainda mais escura. IR

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um homem recebe cartas de amor de uma mulher a quem não ama. ela insiste em escrever-lhe continuadamente. ela torna-se uma escritora famosa. depois de morrer ele vende as cartas. todos se escandalizam ao saber que aquela mulher magnífica não conseguiu ser amada por um homem banal. a história pode ser lida em "The Touchstone" de Edith Wharton. Todos nos admiramos de não sermos amados como queríamos, como gostaríamos. se calhar a escrita é uma forma de sermos mais amados. não nos submetermos à rudeza de uma vida onde as palavras faltam. as palavras desejadas. as palavras de amor.
miss portugal

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Terça-feira, Outubro 26, 2004

para colocarem na agenda


No dia dos 85 anos do seu nascimento
Homenagem a Sophia estreia na Figueira da Foz


A Biblioteca Municipal da Figueira da Foz vai receber a estreia do recital "A Sophia", de homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen, no próximo dia 6 de Novembro, data de aniversário do seu nascimento.
O Grupo O Contador de Histórias, que desde sempre trabalhou os textos da escritora em acções de promoção da leitura e recitais, apresenta agora um espectáculo que pretende manter viva uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa. Baseado nas diversas vertentes da sua obra, "A Sophia" não se limita a pegar em vários textos da autora, fazendo antes uma viagem pelo seu universo, passando por diversos autores, portugueses e estrangeiros que também abraçaram as mesmas causas.
No dia em que faria 85 anos, a Biblioteca Municipal da Figueira da Foz acolhe este novo espectáculo do Grupo O Contador de Histórias. A sessão, de entrada livre e destinada ao público em geral, tem início às 16 horas.

mp (para quem não conhece este grupo de contadores de histórias, aqui fica um
link para o seu site http://www.ocontadordehistorias.com)

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Domingo, Outubro 24, 2004

Os chinelos perfeitamente alinhados. O bico de um exactamente na linha do bico do outro. Os dois a espreitar para debaixo da cama. Debaixo da cama havia um mundo diferente. Necessariamente deserto. Debruçava-se do colchão várias vezes antes de apagar a luz para certificar-se de que permanecia assim. Suspeitava que aquele território era de natureza mutável. Só a vigilância permanente o poderia manter livre de alguma presença. Apagou a luz da mesa de cabeceira e voltou a acendê-la. Com os joelhos na colchão, pôs-se de cabeça para baixo, como se tencionasse fazer o pino. Por cinco vezes apagou e a acendeu a luz. Parecia comunicar em código morse. Achava até uma certa graça àquela mulher impelida pelos rituais. Ainda assim, nunca ponderara deixar de cumpri-los. Mas naquela noite sentia-se muito cansada. Ouvia, dentro da cabeça, a voz do chefe a pedir-lhe que fizesse qualquer coisa e o seu contrário. Distraíu-se. Nem reparou que, quando desabotoara a camisa, a tinha lançado de qualquer maneira para cima da cama e aí a tinha deixado, embora, sabia-o bem, o lugar dela fossem as costas da cadeira. E sempre com as mangas para trás. Naquela noite a terra tremeu. Os efeitos do sismo, noticiaram as televisões no dia seguinte, foram devastadores. IR

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Quinta-feira, Outubro 21, 2004

"só temos o passado à nossa disposição. É com ele que imaginamos o futuro. Mas há duas maneiras de se servir do passado para construir o que, por não termos outro remédio, se chama futuro. Uma é ter passado como se o não tivéssemos (...) A outra é a de ter essencialmente, ou com uma fixação hipnótica, só passado, quer dizer, ser simbólica e apaixonadamente passado."
eduardo lourenço in "Nós como futuro"

quem me dera que fosse assim tão simples.será?
miss portugal

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Quarta-feira, Outubro 20, 2004

Se quiser passar para além da porta, Elizabeth Costello terá de fazer uma declaração de crença. Outros, naquela cidade-limbo, naquele tempo sem tempo, chamam-lhe confissão. Só que Elizabeth é escritora, quer dizer, "secretária do invisível". Declara-o ao guarda da porta e depois perante o tribunal. Deve estar disposta a acolher o que o invisível lhe ditar, encarregando-se, assegura, de ouvir e passar a escrito as vozes das vítimas, mas também as dos assassinos. É por isso que Elizabeth não pode acreditar. Ainda assim, só uma declaração de crença a levará ao outro lado da porta. Alguém a avisa: o Colectivo - de juízes - não pede paixão, mas apenas os efeitos da paixão, a simulação. Elizabeth faz uma declaração apaixonada acerca das rãs que, no Verão, se enterram, morrem, mas, quando chove e a lama lhes envolve os corpos, ressuscitam. Elizabeth acredita nas rãs. IR

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Sei que não me
conheces
a língua
gema
sem
clara
idade
de quem me segura
em ovo
ninho
e me entorna
ferida
aberta
sobre a sertã

Não te esqueças de aquecer bem a gordura
Só assim serás capaz de demolir
a mulher
frígida
sorvendo-a
quente
num prato
raso
branco
puro
como teu primeiro dente

de menino
que
ledo
trinca
sua
menina guloseima
avidamente

Só assim
sei
te saberei
bem
só assim
sei
me terás sempre

E não,
não o passes por água,
lambe-o bem
retendo-me na língua
em beijo
demorado

E não,
não me colhas mais
em ovo,
deixa
o borracho
aparecer
quebrar o útero
solidificado
deixa-o partir
bater asas
e
voar
voar
voar
de encontro
ao azul
do céu do mar dos olhos
castanhos
verdes
claros
nublados

Vencer o azul do azul
Glória Nossa

a miúda

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:09 AM - Comments:


tenho andado a abrandar o tempo. nada melhor do que ler obras vagarosas, que nos ocupem dias e horas. a pergunta óbvia: como arranjar tempo para abrandar o tempo? começa-se por abrir um romance (de não menos de 400 páginas) no capítulo 1. de início iremos achar que não se passa nada. Nas primeiras 50 páginas uma mulher atravessou um campo florido, de onde avistou ao fundo um riacho. depois regressou a casa e escreveu uma carta. passado este primeiro obstáculo, entraremos, atenciosamente, na intimidade da personagem e iremos, com ela, enfrentar o dia a dia. estamos receosos de não amarmos com suficiente vigor o nosso noivo. encontraremos um jovem poeta, a quem dedicaremos a nossa atenção. iremos sentir que gostamos mais de estar com este, do que com o outro.eles chamar-se-ão cecil e george. serão loiros, um gostará de caçar, o outro será tuberculoso. duzentas e vinte e três páginas e algumas semanas depois (tempo ficcional) rompemos o nosso noivado. choramos, eu e a personagem, e ficaremos sempre na dúvida de termos feito a escolha certa.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:00 AM - Comments:


Terça-feira, Outubro 19, 2004

Se tivesse uma filha como a do (h) e as do Artur, num dia cinzento como este acordala-ia com um beijo ao som de Jorge Palma. Existe música mais linda para uma menina linda? Ao ouvi-la, a chuva e o vento desatariam de certeza a correr daqui para fora! Como não tenho filhas esta música é para a ir e para a ib, com um beijo matinal para as duas. mp (hoje acordei assim, um bocadinho melosa!)

Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

Anda ver que lindo presente
A aurora trouxe para te prendar
Uma coroa de brilhantes para iluminar
O teu cabelo revolto como o mar

Acorda, menina linda
Anda brincar
Que o Sol está lá fora à espera de te ouvir cantar
Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

Porque terras de sonho andaste
Que Mundo te recebeu
Que monstro te meteu medo
Que anjo te protegeu
Quem foi o menino que o teu coração prendeu ?

Acorda, menina linda
Anda brincar
Que o Sol está lá fora à espera de te ouvir cantar
Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

Anda a ver o gato vadio
À caça do pássaro cantor
Vem respirar o perfume
Das amendoeiras em flor
Salta da cama
Anda viver, meu amor

Acorda, menina linda
Vem oferecer
O teu sorriso ao dia
Que acabou de nascer

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:42 AM - Comments:


acabo de ler Edith Wharton, "The reef".lembram-se da "Idade da Inocência"? Pois este "recife" é também sobre a inocência incorrupta e a sua incapacidade de compreender o mal. e quando a inocência o encontra fica perplexa, porque o mal convive tão bem entre nós, entre os que amamos. e a melhor maneira de se sentir esta influência e poder é no amor. o amor que ocupa espaço e tempo. que penetra em todas as nossas ausências e nos contamina para sempre. o amor como um destino que nos marca. para o bem ou para o mal.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:26 AM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 18, 2004

(h), enquanto não temos a música do Pandit Pran Nath, fiquemo-nos com estes mantras on-line: http://www.sanatansociety.org/indian_music_and_mantras/sounds_of_tantra_mantras.htm

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:31 AM - Comments:


para a Paula Rego

Qual é o seu artista favorito?
É o Goya. E também o Ensor e o Bordalo Pinheiro. O Daumier, que admiro cada vez mais, porque fazia aquelas figuras todas, como nós todos. Tocante, aquelas cenas dos juízes a falarem uns com os outros todos empertigados, mas amarelos, porque sofrem do fígado, macilentos, mortais. São maus, mas são mortais. Ele fazia tudo isso de cabeça, não copiava nada. E depois, no fim, fez aqueles quadros do D. Quixote, que são tão bonitos também.

(excerto da entrevista de Paula Rego ao Público de 14 de Outubro passado)


Honoré Daumier, "Don Quixote and the Dead Mule"
1867, 132.5 x 54.5 cm, Musee d'Orsay, Paris

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:38 AM - Comments:


Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Agora que vos olho, meus dedos, sinto que em cada um de vós está um bem precioso. E ter-vos assim, tão completos, no prolongamento das minhas mãos, é dom para o qual nenhum tributo bastaria. Talvez amar-vos como ao coração que bate e ficar-vos grato de cada vez que me permitis sentir-vos na pele de outro alguém. Agora que vos olho com olhos de sentir, deixai-me que vos dê conta, meus queridos dedos, do quão cheio me sinto por ter-vos ainda, cada um de vós, com as marcas de uma vida repleta de desencontros. Mas que vida se pode pedir a uma vida que mais não é do que a repetição de tantas vidas anteriores e o prenúncio das que ainda estão por vir? Talvez uma vida que viva mais pelos dedos, sempre tão perto de nós, sempre tão dados. Agora que vos olho, meus dedos, sinto que em cada um de vós está um último corredor de esperança.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:16 PM - Comments:


histórias com música

Pandit Pran Nath

nasceu em Lahore, actual India, em 1918, e morreu em Berkeley, California a 13 de Junho de 1996

"Pran Nath always rose very early, between four and five in the morning, to begin his practice. He was around 51 years old when I met him, but he still practiced for 4 or 5 hours every morning, always the same ragas. Just like someone who was polishing their pots, he went over and over again the details of these fine ragas. As a student, I would sit with him and observe his practice -- how he approached the ragas and how he took care of his voice. He always said, "I take care of my voice like a mother takes care of her baby." He would only eat certain foods that he felt were good for his voice, good for his sound. He wasn't a vegetarian. He liked to eat meat. He felt that meat was needed for the strength of singing. The first hour or two of the early morning, while it was still dark, was passed with what is called "kurage practice," or practicing in the very lowest notes of the scale. These were notes that I didn't even have in my voice at that time. But he would practice on these very low tones: C, two octaves below middle C, was usually the note that he rested on. He did all kinds of mantras and wasefas (sacred sounds) in the morning. These slokas -- or holy sayings -- he used to develop his voice.
(...)He spent a lot of his life practicing out of doors. He really liked to sing standing in the middle of a river. He said the river was often infested with crocodiles (the Ravi River). He said he would practice maybe three hours standing there, because it would develop his abdomen, having the pressure of the water against it. He had many austere practices. When he practiced at night, he would tie his hair up against the rafters, so that, if he started to fall asleep, his head would fall down and jerk against the rope and wake him up. (...)"
(parte do tributo de Terry Riley ao seu Guruji)

mp (fiquei fascinada com a vida deste músico indiano que descobri recentemente e resolvi partilhar com vocês. Digo a vida porque ainda não lhe conheci a voz, ando à cata dos seus discos.)

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Quarta-feira, Outubro 13, 2004

Mestre Lagoa Henriques, Obrigado!

Ontem, no Auditório Lurdes Norberto, o Grupo 1º Acto fez uma homenagem à Eunice. Foi realmente uma noite diferente, acolhedora, simpática, num espaço que só por si é diferente, acolhedor e simpático.

São noites assim que valem a pena.

A intervenção do Mestre Lagoa foi um momento de magia. Curiosamente, fez um puro e sincero elogio a duas pessoas directamente ligadas à homenageada: sua mãe Mimi e seu pai Hernani. Não me atrevo a desdobrar aqui em palavras a intervenção do Mestre, e deixo-vos aqui apenas o meu sentimento de inveja em relação a todos aqueles que tiveram o prazer de o ter como professor: as aulas do Mestre devem ser algo de absolutamente extraordinário.

Artur

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:54 PM - Comments:


gosto de causas perdidas. as do optimismo e as da esperança. e quanto mais palpáveis as incoerências e as injustiças, mais couraçados precisamos de viver. em carapaça doce, de amabilidade teimosa e respingona. de amor desenfreado aos ideais que nos apaixonam, aos lugares que nos encantam, à beleza que insiste em aparecer onde menos se espera. vamos viver enternecidos com os cuidados dos outros, com as mães heróicas, com os desenlaces que desafiam toda a lógica. vamos-nos apaixonar pela luz e pelo ar, que está frio e límpido como um cristal. há mais uma estação para além das quatro. a estação da leveza. como nos mostra a lourdes castro.





Lourdes Castro, "Teatro de sombras, as cinco estações", 1976

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:01 PM - Comments:


"O mel" de Tonino guerra:

Canto décimo terceiro

De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.

Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.


Não sei se vou ter um gato, ou se um gato me irá ter a mim. mas posso imaginar-me a meter as mãos no pêlo quente, e senti-lo aos meus pés como uma manta ruçada. e ler em voz alta poesia e ser olhada com altivez de felino, como se nada importasse na vida, excepto o sol na fresta da janela. quero pensar que os gatos sabem que estar ao sol, num dia frio de inverno, é como uma mão que nos afaga o cabelo.

miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:57 AM - Comments:


Terça-feira, Outubro 12, 2004

atacaram os meus sapatos. disseram que parecia um labrego da periferia de visita à cidade. e eu, que me gabo, da minha ductilidade e tolerância reagi mal. disse numa voz odiosa; "se me pagassem o que me devem, já teria dinheiro para uns sapatos novos". e lembrei-me como os sapatos podem ser um objecto de sedução. então, e os pobres, não seduzem?
a ver se aprendo a não me chatear por causa de uns sapatos velhos. desculpem-me este intermezzo à la "Oliver Twist", mas é o que me sai.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:39 AM - Comments:


devo andar muito zangada, dizia-me sorvendo ruidosamente um café curto. só me saiem banalidades e generalizações! Quais, perguntava eu, algo entediada, mas a querer saber. Bem, os portugueses confundem conflito de ideias com conflito de personalidades. alguém que discorde de outra pessoa, é logo apelidado de mal educado ou de imediato agredido.duas pessoas que pensem de maneira diferente não conseguem conviver com naturalidade.arranjam desculpas superficiais para se incompatibilizarem.
não acho nada disso, disse eu, e para o empregado, a conta, por favor. paguei o meu café e saí porta fora.tinha-me irritado o penteado dela.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:20 AM - Comments:


Domingo, Outubro 10, 2004

Cliquem em www.petitiononline.com/convento/petition.html para tentar evitar que o Convento dos Inglesinhos, no Bairro Alto, dê lugar a um condomínio de luxo.

To: Câmara Municipal de Lisboa / IPPAR
PARA QUEM AMA LISBOA DE VERDADE

É URGENTE SALVAR O CONVENTO DOS INGLESINHOS !

O Bairro Alto está a ser vítima de mais um abuso por parte da Câmara Municipal! Depois da demolição de um quarteirão antigo entre a Rua da Rosa e Rua do Trombeta para a construção de um Condomínio Privado, é tempo de proceder a mais uma destruição:
Desta vez o ataque é ao CONVENTO DOS INGLESINHOS!
A sua descaracterização já está em curso, É URGENTE TRAVÁ-LA!

Património inalienável deste Bairro, cuja construção é do século XVII, portador de uma enorme riqueza, desde os seus muros ao seu jardim de árvores centenárias, enquadrando a magnificência da Igreja de São Pedro e São Paulo e os seus preciosos salões, a sua cozinha e as suas celas, culminando com o Observatório dos seus terraços de onde se pode contemplar a cidade de Lisboa, de nascente a poente, de norte a sul!
Monumento magnífico implantado em espaço desafogado na mais alta vertente deste Bairro Alto de construção densa e carente de espaços livres, vendido e deixado ao abandono e à especulação imobiliária pela Santa Casa da Misericórdia, a sua existência é vital para o equilíbrio ecológico do Bairro e da Cidade e como tal deve ser recuperado PARA USO E FRUIÇÃO DE TODOS OS CIDADÃOS!

O Grupo Amorim aproveitou-se do desprezo da Câmara pelo património colectivo e quer transformar o CONVENTO DOS INGLESINHOS num Condomínio de Apartamentos de Luxo.

VERGONHA :O IPPAR TAMBÉM APROVOU!!

Os moradores do Bairro Alto recusam a desfiguração sistemática do seu Bairro e apelam à presença de todos numa vigília de protesto.

VAMOS TRAVAR ESTE "NEGÓCIO" CONTRA O BAIRRO ALTO!

Por favor, passem a mensagem.

Sincerely,

The Undersigned

View Current Signatures
IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:04 PM - Comments:


Sábado, Outubro 09, 2004

"O fato azul, o cabelo engordurado, são pormenores, sinais de um realismo moderado. Fornecem as especificidades, permitem que os significados venham ao de cima. Um processo iniciado por Daniel Dafoe. Robinson Crusoe chega à praia, olha em volta à procura dos seus companheiros de barco. Mas não há ninguém. 'Nunca mais os vi, nem sinal deles', diz ele, 'a não ser três chapéus, uma boina e dois sapatos desirmanados'. Dois sapatos, desirmanados: por serem desirmanados, os sapatos deixaram de ser calçado e transformaram-se em provas de morte, arrancados, pelo mar revolto, dos pés dos afogados e lançados à costa. Nada de grandes palavras, nada de desespero, apenas chapéus, boinas e sapatos."
in "Elizabeth Costello", de J.M. Coetzee
IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:46 AM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 08, 2004

para a ib
A sério que queria falar-te de gatos. De dizer-te como gosto deles, em particular de uma, que aceita partilhar a vida comigo há onze anos. Queria dizer-te que as pulgas são um incómodo irrisório quando eles olham directamente para os teus olhos e permitem que tu observes os deles, descobrindo lá cores de que não sabes o nome. Queria também falar-te da exigência felina. Contar-te que a minha gata vem deitar-se em cima do livro aberto diante dos meus olhos, porque, afinal, é ela o centro das atenções. Claro que, no dia seguinte, pode comportar-se como se eu não existisse: chego a casa e não se digna a sair da almofada, ou da cadeira, ou da cama, ou de cima do guarda-fatos, ou das estantes, ou da gaveta para onde vai - não me perguntes como - nos dias frios. Queria falar-te dela, deitada em cima do meu cabelo, e de mim, incapaz de virar a cabeça na almofada. Dizer-te que, enquanto trabalho, as pessoas aproximam-se com o polegar e o indicador em pinça para apanhar os pêlos dela na minha roupa. Queria falar-te dos gatos. Só que ontem fui ver o filme "A Vida é um Milagre", pelo que estou ainda sob influência de uma burra, castanha, que tendo sofrido um desgosto de amor, tenta repetidamente o suicídio, postando-se no meio dos carris do comboio. Que é igual à burra Bonita, companheira do meu avô Manuel. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:27 AM - Comments:


ando com ganas de ter um gato. acudam-me os avisados, aconselhem-me, impeçam-me, façam qualquer coisa.falem das pulgas, da caixa da areia e de outras enormidades. a verdade, verdadinha é que um felino agora calhava-me bem.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:26 AM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 06, 2004

I e D estão apaixonados. Não conseguem estar muito tempo sem se tocar, com os olhos, com a ponta do pé, com as mãos. Tentam fazê-lo dissimuladamente, por cerimonia para com os presentes, mas a urgência do amor torna-o impossível de disfarçar.
I e D são búlgaros, mas de localidades diferentes da Bulgária, ele do Sul, ela do Norte. Foi em Lisboa que se conheceram, quando se viram ambos na mesma situação, imigrantes numa cidade que lhes era estranha. D chegou primeiro, há um ano atrás, I é recém-chegada.
Conheci D no início deste ano, através das oficinas da Cais. Conheci I há duas semanas atrás, foi D que me apresentou, com um sorriso algo comprometido! Quando os conheci tinham estado os dois no ribatejo a trabalhar durante duas semanas nas vindimas e na apanha da azeitona. Regressaram a Lisboa para tentarem arranjar trabalho por aqui, mas se não conseguissem tinham planos de regressar ao campo, onde ainda haverá trabalho por mais algum tempo. D não se perde, é um lutador. Nunca conheci ninguém assim, com tantas dificuldades e com tanta vontade e alegria de viver. A boa disposição de D é um "vírus" que nos deveria infectar a todos!
I veio para cá sem saber uma única palavra de português, só fala búlgaro e alemão, o que dificulta arranjar um trabalho. D conta-me que I era professora de música no Conservatório da sua terra, mas que por não saber a língua não quer dar aulas de piano - o seu instrumento - ela entende que sem a explicação oral o aluno perde muita coisa. Depois de um telefonema, conseguimos que I vá a uma entrevista de trabalho numa casa particular. I não estava muito esperançosa, mas o que parecia impossível acabou mesmo por acontecer. I começou hoje a trabalhar. Quando saímos da entrevista I parecia uma criança, com um sorriso tão aberto e franco. D tinha-me dito que I tem uma filha na Bulgária que este ano entra para a faculdade e precisava de começar a trabalhar rapidamente para lhe poder enviar dinheiro para os estudos.
São casos como este que nos ajudam a acreditar que nem tudo está assim tão perdido como no desabafo do (h) no post anterior, há muitas portas que se fecham, mas ainda há portas que se abrem, quando menos se espera. É preciso é ter a dita da paciência, e não desistir! D, que está a viver há mais de um ano em Portugal e ainda não arranjou trabalho, é um exemplo vivo dessa paciência. Pouco a pouco ..., como ele sempre repete.

mp (parabêns para os pais do (h)!!!!, 42 anos de vida a dois é um grandessissimo feito!!!)

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Segunda-feira, Outubro 04, 2004

Desabafo: cada vez sinto mais que Portugal é um país hipotecado. Um país sem conhecimento é um país hipotecado; um país sem educação é um país hipotecado. E eu cada vez me convenço mais que Portugal se está a transformar num país de gente estúpida, um misto de falta de educação e muita arrogância. Parece conversa de reaccionário saudosista, eu sei. Mas é o que sinto. E se por vezes não devemos revelar o que sentimos, a bem do colectivo, outras vezes torna-se absolutamente vital que o façamos. É o caso. Ou o digo ou entro definitivamente em paranóia. A questão é que se me torna, de ano para ano, mais difícil convencer os meus alunos de que vale a pena estudar, vale a pena conhecer, vale a pena o esforço, vale a pena sermos pessoas cultas e civilizadas. Eles olham-me desconfiados e falam do irmão licenciado que não arranja trabalho em lado nenhum. Eu tento explicar-lhes que não é só o trabalho que importa, que o conhecimento é o princípio da liberdade; porque conhecendo, mais perspectivas se nos tornam possíveis e isso é que é ser livre e ter um futuro todo escancarado à nossa frente. Mas eles olham-me desconfiados e falam do primo que deixou de estudar e está cheio de dinheiro. E o dinheiro é que importa e os professores são carne para canhão e, com jeitinho, ganha-se um prémio qualquer num concurso qualquer num canal de televisão qualquer e é-se quase feliz. O quase faz toda a diferença, não é? Gente célebre por ser boba. São referências, porra. Os putos olham para mim e acham que eu estou a delirar quando desvalorizo essa fama efémera, conquistada à custa de nos predispormos a ser apenas e tão-só os bobos da corte mais célebres do país. Eles olham-me desconfiados. Todos los hombres desean por naturaleza saber. Às vezes apetece-me mesmo mandar Aristóteles à merda. Pronto, já desabafei. Já tive o meu momento reaccionário do dia. Espero que não levem a mal. É preciso ter paciência. (ver post seguinte)
(h)

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Os meus pais fizeram 42 anos de casados. Podemos duvidar do amor, da paixão, da fidelidade, da cumplicidade até. Não podemos duvidar da paciência.
(h)

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Domingo, Outubro 03, 2004

O primeiro filme de Abbas Kiarostami era sobre um velho, uma criança e um cão. "Todos amadores", diz-nos, olhos nos olhos, ou nem por isso, porque ele protege os seus com óculos escuros, no documentário "Ten on Ten", no qual explica o cinema que faz. Este parece ser uma negação do cinema como artifício, aproximando-se, em vez disso, do quotidiano, que nada tem de comezinho. Diz-nos, na lição sobre o argumento, que o cinema representa uma ruptura com a realidade apenas para dela se aproximar mais. O cineasta iraniano cita uma frase de Nietzsche: "Tudo o que é profundamente verdadeiro precisa de uma máscara." A literatura também é uma máscara, penso. IR

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