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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Segunda-feira, Agosto 30, 2004 Regressado das férias, dou uma volta pelos jornais para saber das boas do mundo. Boas, boas, só mesmo que as caralhotas de Almeirim vão ser certificadas. Além disso, o enxurreiro do costume. O coitadinho mais coitadinho da boçal nação lusitana continua a sua crise de tadinhice. Dá pelo singelo nome de Zé Maria e fez sucesso no diálogo com galinhas. Pedro Rolo Duarte diz que a culpa do rapaz se querer suicidar é de todos nós. Eu quero aqui declarar publicamente que nunca lhe vendi droga, nunca lhe prometi paraísos à porta do inferno, nunca me fiz passar por seu amigo para disso obter lucros imorais, nunca fiz dele o herói que ele nunca foi e, por isso, julgo que não tenho culpa nenhuma no caso. Pedro rolo Duarte que fale por si. Por falar em heróis, o novo herói nacional chama-se... Francis Obikwelu. Quem pronunciar bem o nome na língua original leva um prémio. Francis teve sorte. Ao contrário de outros imigrantes em Portugal, não foi vítima de um sistema obsoleto que patrocina a exploração, a clandestinidade, a exclusão e etc.. Francis teve sorte porque se lhe foram abrindo as portas certas. Muitos portugueses são, no seu íntimo, subtilmente etnocêntricos, racistas e xenófobos. Pude constatá-lo estas férias mais uma vez. Esses, devem estar moídinhos por dentro. Já lhes ouço, vindo das profundezas das entranhas, o eco do ressentimento. Depois de Eusébio, só nos faltava mais este preto que nem sabe falar português para nos pôr no centro do mundo!... Valha-nos a santinha. Mas não faz mal que não saiba falar português. Mais grave é que um secretáriozeco de estado de um tal Ministério dos Assuntos do Mar, o que deu a cara pela interdição imposta ao perversamente denominado 'Barco do Aborto', tenha mandado para aí quatro calinadas na gramática portuguesa em duas frases que lhe ouvimos num canal televisivo. Ninguém deu pelo assunto, mas eu é que me vejo aflito para convencer os meus alunos de que a língua portuguesa não é coisa para brincadeiras de mau gosto. As gralhas anti-despenalização do aborto do costume lá se levantaram novamente e foram, mais uma vez, tagarelar para os media. E os media todos contentes. O que essa gente ainda não percebeu é o mais elementar da questão: quem quer fazer um aborto, fá-lo. O problema não é fazê-lo, é como fazê-lo. Indo a Espanha, não correndo o risco de ser criminoso; pagando uma pipa de massa numa clínica clandestina em Portugal, correndo o risco de ser criminoso (criminosos são só os que se sabe, não é verdade?); pondo a vida nas mãos duma parteira com artes de feitiçaria ou outra coisa qualquer. Mas que não, não e não. Por trás das secretárias decoradas com fotografias lá de casa, continuarão a dizer que não e porque não. Antes investissem mais dos seus talentos e das suas energias na ajuda comunitária e benfazeja, distribuindo sopas aos pobres e educando criancinhas abandonadas. Mas que não, não e não. Como está é que está bem e prontos... Os putos são cada vez menos e começam a ficar caros. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:57 PM - Comments: Domingo, Agosto 29, 2004 Maria vivia numa casa debaixo do mar, lá onde não a luz não chega. Mesmo assim, porque a casa era profusamente iluminada, olhava para cima e via peixes e plantas - decerto imaginários num ambiente inóspito - em deslocações lentas, através do tecto. A casa transparente era constituída por uma única divisão, onde existia uma espécie de cama coberta com uma colcha vermelha. De um lado e de outro postavam-se dois cadeirões de estofo intensamente vermelho também. Havia muitos livros naquela casa submarina. Enfileiravam-se em estantes que subiam até ao tecto. Maria sabia não ser a única a habitar debaixo do oceano. Outros tinham concordado sujeitar-se à mesma experiência científica. Mas ela não fazia esforço para conhecê-los. Ela gostava de usar vestidos muito compridos. Tão compridos que a fímbria arrastava pelo chão. Gostava de vê-la deslizar sobre as profundezas submarinas. Maria passava o tempo a caminhar dentro da casa transparente e a ler, sentada ora num ora noutro cadeirão. Às vezes era visitada pelos amigos que viviam à superfície. Gostava que eles viessem, mas não lhes sentia a falta. Certo dia, a Ana e o Francisco visitaram-na. Disseram-lhe que já tinha passado ali tempo suficiente. Disseram-lhe que, com o dinheiro que ganhara ao longo da experiência, podia manter-se lá em cima. Demonstraram-lhe que não precisava de continuar ali. Depois partiram. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:02 PM - Comments: Sábado, Agosto 28, 2004
Recordando uma noveleta de Kafka "Há já muito tempo, os homens foram convidados a escolher entre tornarem-se reis ou correios dos reis: deuses ou correios dos deuses. Frase enigmática: quem propõe a escolha? Deus? Mas naquele momento não havia Deus, como mais adiante ficaremos a saber. Um Deus sem nome? Um Deus ausente? Ou foi uma escolha anónima, indiferenciada, posta pela própria vida? Em todo o caso, como afirma a Génese e suspeitam as Investigações de um cão, os homens, no início da sua história, teriam podido tornar-se deuses e 'viver no eterno': promulgar leis, contemplar os astros, viver recolhidos em torno da árvore da vida. Porém, dada a sua incurável frivolidade infantil, atraídos pelos cavalos, pelas vestimentas coloridas, pelos guizos e pelas sinetas, pelas estações de correios e pela vida movimentada, preferiram tornar-se 'correios de reis'. É por isso que vivemos agora num mundo sem deuses, porque naquele tempo das origens os deuses não foram criados." in Kafka, Viagem às profundezas de uma alma, de Pietro Citati. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:38 AM - Comments: vocês desculpem, mas de vez em quando apanho-me a cantarolar uma canção lindissima, comovente, iniciática.numa terra sem amos...lá láa lá láa lá láaaa leio "os irmãos karamazov" e, meus amigos, o mal e o bem existem e o crime não é explicado pela necessidade. os que acreditam no social como explicação de todos os males não devem ter lido dostoievsky. miss portugal, ainda a banhos postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:01 AM - Comments: Quinta-feira, Agosto 26, 2004
Sob influência do vazio - "Wanda", Barbara Loden Há filmes que magoam. Que nos apanham num sítio que queríamos protegido. Quase fugi da sala depois de ver "Wanda", para que ela não viesse atrás de mim. Tive pressa, bati nos joelhos dos outros espectadores, "com licença, com licença, oh, perdão", e subi a correr as escadas que dão para a rua. Desculpa-me Wanda, ter-te deixado assim, ainda imóvel no ecrã, mas senti que era uma questão de sobrevivência pessoal com algum vestígio de alegria, mesmo simulado, nas horas seguintes. Fugi do vazio que pressinto em mim. Tu tocaste-lhe. Disseste-me: "Olha, está aqui" e eu quis esquecer de imediato o caminho que me tinhas indicado. Para não voltar lá uma vez e outra, como a língua a um dente cariado, pemitindo que o nada, a passividade absoluta, se desenvolva e possa tomar-me, tal como te tomou a ti. És uma mulher sob influência do vazio. Tu, Wanda, foste capaz da recusa mais radical e depois ficaste, ou sempre estiveste, sob influência dele e sem possibilidade de te preencheres a ti própria. Transportas o invólucro. A certa altura forças a entrada no carro de um homem irrelevante. Para que ele te leve. Para que ele te salve. Migalhas emocionais alimentam-te. Suportas os estalos porque as esperas. Não tens nada, nunca tiveste nada, não hás-de ter nada, dizes. Outro homem responde-te: "Se não tens nada, não és nada. Não és sequer cidadã dos Estados Unidos. É como se estivesses morta." Tu assumes, enquanto depenicas com os dedos uma sanduíche: "Então, estou morta." Também não te importa que assim seja. És uma mulher morta que vive no mundo dos homens. Queria ter força para cravar-te as mãos nos ombros e abanar-te com violência. Dar-te também um estalo. Para que acordasses. Mas tu limitar-te-ias a recebê-lo. No máximo levavas a mão à face dorida e dizias: "Isso doeu." Não, Wanda, irmã Wanda. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:07 AM - Comments: Quarta-feira, Agosto 25, 2004 o demo a demo a democracia ... Comecei estas férias com Tom Zé. No castelo de Sines, já passava da meia-noite, depois de dançar loucamente ao som poderoso do jazz de Guadalupe com, entre outros, David Murray e Pharoah Sanders, chega ao palco um menino franzino todo vestido de branco. Onde os 67 anos! Aproximo-me do palco, fico frente a frente e deixo-me enfeitiçar completamente, como num amor à primeira ... Maravilhoso Tom Zé!!! Nunca vi-ouvi nada igual. Enamorei-me completamente. Cantei, dancei, ri, cantei, dancei, ri e nunca me cansei. Tinha ficado com Tom Zé a noite e o dia e a noite e o dia ... até ao final dos meus dias. Sorte da Neuza! A mim só me restam os cd´s a tocar ininterruptamente no carro e no trabalho. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:51 AM - Comments:
há algum tempo, com um livro da tribo de baixo do braço, fui visitar o Luís Pacheco ao lar onde resiste. não nos conhecíamos, ninguém nos apresentou. pedi-lhe permissão para entrar no quarto e ele, sem saber de onde vinha e a que vinha, disse imediatamente que sim. Conversámos bastante, ele falava e eu ouvia. O Luís, acho que o posso tratar assim, gosta mais de falar de pessoas do que de livros. Depois de discorrer sobre a gente dos livros, talvez por eu lhe ter entregue o nosso, passou imediatamente para a gente do lar. Os seus actuais companheiros de "viagem". Se com os primeiros ele era duro e trocista, com os segundos ele era todo bondade. Contou muitas histórias, percebia-se que o preocupava a bem/mal-estar dos outros. Falou-me muito de uma mulher que estava entregue a uma cadeira de rodas. Um amigo do lar, tão idoso como ela, costumava levá-la a passear todos os dias no jardim público que fica em frente, mas recentemente tinham-na mudado para um quarto na cave e a falta de elevador impedia-lhe os passeios. É doloroso este abandono. A certa altura falou-me de si, do seu estado actual, de uma forma muito objectiva, sem pinga de lamechice ou de auto-comiseração. Como ele me dizia, foram-se os livros, pela fraca vista, foram-se os passeios, pela dificuldade em movimentar-se, ficou-lhe a rádio, que ouvia atentamente, e os sonhos. Os sonhos passaram a ser a sua forma de entretenimento. Ansioso, esperava pela noite para viajar, para se permitir a fuga. E ele falava-me deles com um entusiasmo nos olhos, que deixava qualquer um curioso! Vão-se os dias, ficam as noites. Sempre algo nos salva, pensei tentando o optimismo. mp (de regresso e cheia de saudades tribais!!!) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:41 AM - Comments: sobre o sono e o sonho, o repouso e a agitação das noites em "Pedro Páramo" de Juan Rulfo: "Enquanto Susana San Juan se remexia inquieta, de pé, junto à porta, Pedro Páramo olhava-a e contava os segundos daquele novo sonho que já durava há muito. ............ Se ao menos fosse dor o que ela sentia e não esses sonhos sem sossego, esses intermináveis e esgotantes sonhos, ele poderia tentar arranjar-lhe algum consolo................... Desde que a trouxera para ali viver não sabia de outras noites passadas ao seu lado para além destas noites doridas, de interminável inquietude. E perguntava-se quando terminaria tudo aquilo. Esperava que alguma vez. Nada pode durar tanto, não existe menória alguma, por mais intensa que seja, que não se apaque. Se ao menos soubesse o que a maltratava por dentro, o que a fazia revolver-se destapada, como se a despedaçassem até a inutilizarem. Mas qual era o mundo de Susana San Juan? Essa foi uma das coisas que Pedro Páramo nunca chegou a saber." para descobrir nas férias. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:39 AM - Comments: Segunda-feira, Agosto 23, 2004 "A minha excelsa amada é tão bela e eu venero-a com tão respeitosa devoção, que sou obrigado a agarrar-me a outra mulher, para ter assim a oportunidade de me recompor do cansaço provocado por noites de insónia e de relatar à sucessora toda a afeição que sentia pela anterior e ainda de lhe declarar: amo-te tanto quanto a amava a ela" Robert Walser in "A rosa" Um estratagema um bocado rebuscado, mas sentido. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:55 AM - Comments: Domingo, Agosto 22, 2004 Dentro do sono, ela sabia que estava a dormir e que o sonho se aproximava. Receava-o dentro do sono. Mas não sabia como fugir-lhe. Era uma provação à qual teria de sujeitar-se. Não se submetia com a intenção de ganhar algo à custa do sacríficio. Não era como quando comia a açorda com o ovo cru, especialidade do Luís, disfarçando os engulhos, para agradar àquele homem enorme que gostava de cozinhar para ela. Enquanto, dentro do sono, via a gema do ovo, o sonho instalou-se. Tolheu-a. Era mesmo assim. O sonho era o tolhimento. Os braços agarrados ao tronco. As pernas uma à outra. O sonho era a cabeça feita bola de chumbo sobre a almofada. Era as costas incapazes de impulso para fazer sentar o corpo. O sonho era a impossibilidade de levantar os ombros do colchão. De fixar o cotovelo. Era depois a luta imóvel e desesperada contra o tolhimento. O combate imóvel. O movimento em todos os sentidos para desembaraçar-se daquele abraço total. Mortal. Dentro do sono, ela sabia que não morrera. Que só tinha de forçar-se ao movimento. Só assim conseguiria expulsar o sonho. Empurrava-se contra a cabeceira da cama. Atirava-se para um lado e para outro. Sacudia as pernas. Movimento imóvel. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:02 PM - Comments: Sábado, Agosto 21, 2004
Tal como Andrei e Ivan, os rapazes que enfrentam o regresso do pai, em "The Return", de Andrei Zvyagintsev, resisto à ideia de ausência de sentimento amoroso. Prefiro explicar a rudeza, às vezes a violência, como reflexo de um problema de expressão. De uma espécie de asfixia. Vivo melhor imaginando que o sentimento é de tal maneira excessivo que só pode demonstrar-se da maneira oposta. Percebo que esta ideia é perigosa, pois justifica a violência. Voltando ao filme, belíssimo, suspeito que o pai não demonstra amor pelos filhos porque entende não ter direito a fazê-lo. Porque sabe não ser legítimo desaparecer durante doze anos e depois reclamar que os filhos o amem. Não merece amor quem não o cultivou, pois não? E no entanto, os miúdos - e é sempre a perspectiva deles que nos orienta - estão dispostos a entregar-se-lhe. Um gesto teria sido suficiente. O gesto acontece. Tarde demais. O amor que não chega a expressar-se existe? IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:54 AM - Comments: "Quase não há palavras que eu escreva que estejam de harmonia com as outras. As consoantes chocam entre si com um barulho de latas e as vogais acompanham-nas cantadas, como o cantar dos pretos na exposição. As minhas dúvidas dispõem-se em círculo em volta da palavra e vejo-as antes de ver a palavra.' As palavras espalhavam-se e não conseguia recolhê-las num período; quando isso acontecia, entre uma frase e outra abriam-se tais fissuras que podia lá meter ambas as mãos: uma frase estava em tom agudo, outra em tom baixo, e cada frase esfregava a frase vizinha como a língua esfrega um dente furado. Falava a Max Brod da primeira redação de 'América' (um livro que depois viria a ser tumultuosamente rico) como de um conjunto de "breves fragmentos mais encostados do que entrelaçados uns nos outros." in Kafka - Viagem às profundezas de uma alma, de Pietro Citati. Até que, numa única noite, entre as 22h00 e as 6h00, escreveu "O Veredicto". IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:31 AM - Comments: Sexta-feira, Agosto 20, 2004 aquele corpo flácido e redondo. a barba que cresce demasiado ou quase nada. o andar de pernas juntas, como se guardasse algum segredo. não gostava nada daquele corpo que a proibia e criticava. estava certa de abominar o cheiro e o riso. dias e dias a desgostar-se da pele branca, com manchas avermelhadas, que se chegava a ela sem razão. detestava-o. naquele dia acordou e viu o corpo dele transfigurado. perdeu-se naquele tronco desabrigado, que dormia como as ondas do mar. subia e descia como as marés. era lindo. sentou-se em cima dele e acordou-o. afinal gostava. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:29 PM - Comments: Quarta-feira, Agosto 18, 2004 qualquer dia estamos incapazes de silêncio. de mantê-lo e de observá-lo. não só do silêncio no sentido de ausência de som: a música das esferas, chamava-lhe Aristóteles. mas do silêncio visual. do silêncio da parede branca. do silêncio da casa. encarpelo-me como as ondas do mar ante os ecrãs, onde passa uma notícia entre dois reclames publicitários, que acharam por bem instalar em algumas estações de metro. fecho as mãos. sinto as unhas nas palmas. só não pego em pedras para atirá-las ao dispositivo invasor porque não as há ali. indigno-me por ver-me encurralada num túnel e invadida. reparo nas pessoas alinhadas ao longo do cais. todos olhamos os corpos delgados de modelos, as duas raparigas de biquini, uma delas com um telemóvel no cabelo e, a seguir, mais um pseudo-desenvolvimento acerca do 'caso' cassetes roubadas. tudo isto dito aos berros. penso: estamos na manjedoura. à espera que nos alimentem. houvesse ali uma pedra e ninguém lhe pegaria. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:06 PM - Comments: Segunda-feira, Agosto 16, 2004 Qu'é este ba'ulho, pai? São as pessoas que passam lá fora, filho. Agora fecha os olhos que o pai vai contar a história da carochinha. João cerrou os olhos contente com a resposta e na ânsia do sonho. João é um puto feliz. Ainda bem, meu filho, que as minhas simples respostas te contentam. E ainda bem que não sabes, puto, que enquanto dormes a minha cabeça cria mil e uma perguntas que não tenho respostas, mas medo. E o meu medo adulto é tão grande, puto, que a noite me apura o ouvido para os ruídos lá fora. O meu Lobo Mau. O meu Bicho Muito Grande. A minha Bruxa Má. Firmo a mão na espada e desafio o Dragão. Será a morte, e não a vida!, a quebrar o nosso sossego. Tu serás sempre a minha princesa, puto, e esta é a nossa história de encantar. Sejamos Felizes para Sempre. [Artur Anjos] postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:11 PM - Comments: antes de um grande acontecimento pensa-se na celebração. ou não. ou em calar a alegria para a guardar, como cadela as crias. expiando com instinto animal os perigos que rodeiam a paz doméstica. como o livro de Teresa Veiga. a que vai parindo livros de três em três anos, doridamente. sem alarido. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:22 PM - Comments: Sábado, Agosto 14, 2004
- A mãe gosta do Outono. - Ela gosta de tudo. - Porque é que não vamos lá vê-la? - Com o nosso novo mercedes branco? - Não podemos. - Talvez de comboio. - Não podemos. "Dois Irmãos", de Fausto Paravidini, já não está em cena no Teatro Taborda. O diálogo precedente faz parte da peça, que, a mim, me fez ver a que ponto chegaremos - ao crime - no esforço de defesa do quotidiano desinteressante, rotineiro e claustrofóbico. Quanto ao motivo pelo qual, entre tantas, escolhi estas frases, escreverei que "não podemos" me lembra de "À Espera de Godot", peça essencial para o (des) entendimento do mundo. Quantas vezes Didi e Gogo se incitam mutuamente à partida para concluir "não podemos. Estamos à espera de Godot"? (Tenho de contá-las) Escolhi-as, às frases, também porque não sabemos se a mãe gosta do Outono. Muito provavelmente não gostará. Sabemos, isso sim, que o mercedes branco só existe nas cartas que os filhos lhe enviam. Nelas anuncia-se o emprego que um dos irmãos não tem e apresenta-se a namorada de vestido branco que o outro também não. Tudo é idílico no sentido mais kitch de idílico. O intruso chama a atenção dos irmãos para o facto, aparentemente simples, de aquelas serem mentiras. Os irmãos ficam surpreendidos: é evidente que sim, afinal são cartas. Longe da vista... Desde que não se saiba... Desde que não tenhamos de admitir a desgraça. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:23 PM - Comments: mergulhei no alentejo.fiquei mais do que devia. sinto que no alentejo seco, vasto e doce os minutos custam mais. passa-me o tempo na pele, forte o consolo do vento. transforma-se a fala, começo a responder ondulando as palavras, como as searas dobradas pelo calor. vejo pessoas do passado rompendo os seus casulos de preguiça. respondo que está tudo bem. sou medida pela aparência e um bocadinho invejada por ter fugido. sou uma pobre fugitiva que regressa e cumprimenta os guardas. que sente falta do tempo das proibições e das certezas. sinto que nada do que escrevo faz sentido.sinto que a minha vida de cidade é pobre e desapercebida. mas lá no meu alentejo, na terra que se alimenta dos meus avós enterrados à entrada da vila, eu entendo as coisas. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:33 AM - Comments: Quinta-feira, Agosto 12, 2004 de manhã, ele está sentado num pilarete mesmo onde a rua dobra. é ali que bate o sol. ele é um homem velho que traz o pescoço encolhido nas costas e um boné na cabeça. mais importante é escrever que traz um cão pela trela. uma daquelas que apanha o animal no dorso para não lhe causar incómodo no pescoço. quando a azáfama toma de assalto a cidade, o homem senta-se onde bate o sol, a catar o tempo no corpo do cão. o cão não é feio nem bonito. não é grande nem pequeno. é um cão branco, preto e amarelo ao mesmo tempo. deita-se de lado no passeio, oferecendo o corpo e a paciência ao vagar do homem. o homem observa cada milímetro do cão. primeiro as patas. trá-las até à mão em cova e não as devolve antes de depositar carícias em cada uma. as mãos do homem têm dedos longos. por isso, também as carícias dele são compridas. à tarde, eles mudam-se para o outro lado da rua. porque é ali que passa a bater o sol. o cão oferece a barriga ao homem. com as patas semiflectidas para o céu, parece ter prescindido da natureza canina, preferindo ajudar o seu homem a passar o tempo. vi-os ontem quando o dia acabava. o sol já fugia da parte alta dos edifícios. o cão tinha as orelhas derramadas no passeio. o homem deixara cair a cabeça para a frente. decerto tinham adormecido. só adormecido. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:24 PM - Comments: Quarta-feira, Agosto 11, 2004
Av. Estados Unidos da América, nº 105 Solidão absoluta num registo sistemático do espaço. Este trabalho pertence a um Verão só. Pertence a um momento e um espaço. Específico. À falha humana. Ao ponto de vista da sombra. O conjunto de imagens proposto une-se pela força gráfica que o desmonta dentro do seu conteúdo. Imagens de um espaço num tempo específico. O título é a morada da casa. A casa é a minha desde que nasci. Onde já vivi algumas vidas. Onde se carregam evidentes e demasiadas memórias. Podia chamar-se tantas coisas de emoções carregadas. Isto é o vazio. O desgosto de amor. O vazio e a dor que procuram usar os meios à disposição. Um pequeno instante por dia. Uma imagem de nada. Um dia só mais um dia até voltar à tona. Respirar um bocadinho de ar de cada vez. Viver. Viver um dia de cada vez. Ilusão de solidão absoluta num registo sistemático do espaço. Neste momento específico libertei em poesias de imagens sensações de forte comoção que me transpuseram para fora deste mesmo espaço. Permitiram distanciar-me dele o suficiente para o poder fotografar. De mim dentro dele. Cada imagem é uma vinda à tona de água. É como se fosse o que visse cada vez que venho à tona respirar. Ao mesmo tempo é uma reacção de sobrevivência. Reagindo às memórias, à solidão, sem roer a corda até ao fim. Deixando que ainda algo de fora penetre para dentro. A fugacidade de um momento que, por mais dificil que pareça, se perde na sua dimensão dramática, no grau de importância que afinal não teve. Ou será que, no fundo, nada tem importância? Ou será que somos feitos de tempo e pronto? O que nos transporta e que relativiza as emoções e os momentos da nossa existência. Solução temporal num registo sistemático do espaço Dora Nogueira Dezembro de 2002 Aqui fica o trabalho gráfico de Dora Nogueira, inserido no volume "As Segundas Palavras da Tribo", seguido de um texto escrito por ela para ilustrá-lo. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:19 AM - Comments: Terça-feira, Agosto 10, 2004 menina da amareleja por onde andas, que não gasta pelo calor? mando-te um poema do Manuel de Freitas, sobre o pai, quem mais? Há um pai que não encontra a bota, o primeiro indício do desespero (outros, tantos mais, virão) - enquanto as levadas correm correm para a paisagem subitamente extinta e um pé, descalço, repousa nos rochedos. Tinha três anos, na Calheta. Começava, só para ti, o fim do mundo. in "Levadas", Assírio e Alvim, 2004 postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:41 AM - Comments: Domingo, Agosto 08, 2004 Dois comentários: Ignoro a cor de cada minuto; se é denso, húmido; tal como não sei a quantidade de sal que existe numa lágrima. Ou numa gota de água. Eduarda Chiote, in Altas Voam Pombas, & etc., 1983. Nasci num lugar de cera, sem pessoas a meu lado. Corre-me nas veias o sangue duma anónima desesperança. Cresci no seio de uma família humilde, sem nome. O pai que me faltou nunca me leu Homero para me adormecer. Aprendi sozinho a orientar as lágrimas para a folha e sei a cor de cada minuto por que passei. É a cor de um céu parado nas faces da solidão. Sei também que ignorar é uma virtude e que me basta o sal que há numa lágrima para limpar esse céu parado nas faces da solidão. Eu, esquecimento, a caminho de um ódio naufragado, entrei pela porta da solidão e caminho no corredor do medo. Eu tenho raiva à ternura. Eu tenho raiva de ter raiva à ternura. Eu tenho a doença da ternura por ter raiva. Eu tenho tudo excepto a ternura. Eu não tenho ternura e sofro de inveja de quem tem ternura. eu já só tenho raiva. Manuel Cintra, in Tangerina, Edição do Autor, 1990. Quando bebemos muito pó, ficamos assim: secos. Mas secos de vento, como uma tempestade no deserto. O que nos trouxe até aqui, ninguém poderá definir senão com a linguagem dos fantasmas ¿ que é linguagem povoada de memória. Porém, para ouvirmos os fantasmas há que aprender primeiro a mergulhar para dentro. A mergulhar para lá do deserto, atravessando toda a areia, até chegarmos a um lugar de água. Rio de Heraclito que é a nossa matriz. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:43 PM - Comments: a mãos com dias vazios, que devo preencher e tornar positivos (inspirei-me numa ida à Galp- "tenha um dia positivo!) senti algures no cérebro uma ladaínha, que sabia ser um poema, que era importante lembrar para encher os dias. encontrei-o. Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os meses e os anos e nunca lhe faltará Oh! como é triste envelhecer à porta entretecer nas mãos um coração tardio Oh! como é triste arriscar em humanos regressos o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão ao longo do mar transbordante de nós no demorado adeus da nossa condição é triste no jardim a solidão do sol vê-lo desde o rumor e as casas da cidade até uma vaga promessa de rio e a pequenina vida que se concede às unhas Mais triste é termos de nascer e morrer e haver árvores ao fim da rua Ruy Belo, in "O problema da habitação" miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:05 AM - Comments: Revi ontem, na RTP2, "O Gosto dos Outros", de Agnès Jaoui. Gosto muito deste filme. Gosto das pessoas nele. Gosto até da decoradora, dentro da sua caixa de chocolate cor-de-rosa, arrebatada pelos lacinhos e corações. Gosto muito de monsieur Castella, porque, apesar da fatiota de 'industrial do Norte', se apaixona perdidamente pela actriz. Gosto da actriz, porque ela é capaz de perceber que gosta dele. Que ele lhe faz falta na plateia, mesmo se acredita que Ibsen é um autor cómico. Gosto que estas pessoas possam entender-se e gostar umas das outras, apesar da relação tão diferente com as diversas formas de arte. Gosto que o preconceito não as afaste. Gosto da maneira como o sopro, a princípio deslocado, de Bruno acaba por fazer sentido. Gosto daquilo tudo. Gosto da esperança presente n' "O Gosto dos Outros". IR
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:16 AM - Comments: Sábado, Agosto 07, 2004 As meias Ele não tinha tirado as meias. Ela sabia que ele era friorento. Mesmo nos dias quentes de Julho usava camisolas de manga comprida. Ele queixava-se das correntes de ar. Dizia que lhe arrefeciam as orelhas. Ela costumava achar graça, mas não gostou de sentir nas pernas nuas as meias. Torceu o corpo de maneira a enfiar o polegar entre a peúga e o calcanhar dele, arrancando-a. Fez o mesmo com a outra. Deve ter sido essa a altura da interrupção. Porque não tardou muito antes de ele voltar a enfiá-las. E ao resto da roupa. Também o gorro. Ela nem puxou o lençol. Não era verdadeira a associação literária entre frio e abandono. O corpo dela tinha sido abandonado, mas ficou descoberto até de manhã. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:13 PM - Comments: "...boi, boi, boi cara de lua, Tom Zé ainda chora quando vê moça nua..." em "Medo de Mulher", "Jogos de Armar" IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:31 PM - Comments: Sexta-feira, Agosto 06, 2004 O Portugal de sempre: Os saloios, como sabes, somos nós todos - vistos de Paris. (1961) ...há gente feliz a mais, muita literatice pelo meio e a aldrabice está, também, bastante divulgada. (1961) Eu creio, apesar do Salazar, nas ideias e na imaginação das pessoas, e de que é possível (com a coragem de que cada um dispõe e até, às vezes, ignora) fazer algo honesto neste País. Por honesto, digo: lúcido, sincero, pão-pão, queijo-queijo; duro quando tiver de doer, e compreensivo quando o deva ser. (1962) A tese é: não há neste momento, que eu saiba, por minha experiência, uma possibilidade de trabalho em criação literária, livre e honesto, que dê para um escritor viver, mesmo modestamente. Não será preferível, em vez de cair na aldrabice, o escritor cair na pedinchice, apresentando de tempos a tempos, obra sua, séria e válida? isto é, conseguir dum mecenato, ou da simples amizade e caridade, aquilo que os patrões lhe negam e o público, como clientela, não compensa? (1964) Luiz Pacheco, in Mano Forte, Alexandria, 2002. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:01 PM - Comments: Quinta-feira, Agosto 05, 2004
Directamente de Sines para a Amareleja: Companheiro Bush Se você já sabe quem Vendeu aquela bomba para o Iraque Desembuche Eu desconfio que foi o Bush Foi o Bush Foi o Bush Foi o Bush Onde haverá recurso Para dar um bom repuxo No companheiro Bush. Quem arranja um alicate Que acerte aquela Fase Ou corrija aquele fuso, Talvez um parafuso Que ta faltando nele Melhore aquele abuso. Um chip que desligue Aquele terramoto Aquela coqueluche Se você já sabe quem.... Tomzé, in "Defeito de Fabricação" ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:28 PM - Comments:
a história do irão em BD. para saborear. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:59 AM - Comments: Marjane Satrapi, iraniana exilada em Paris desde os 14 anos (tem agora 35 anos) autora do livro de BD "Persépolis", entre outros. Numa entrevista extensa e desassombrada, em que parece não ter medo de revelar tudo, afirma no final: " O que quero da vida é não ter nada quando morrer. quero ter gasto todo o meu dinheiro, ter-me desfeito de todas as coisas. Quero partir com uma mão atrás e outra à frente. Chegam-me os meus livros." o que eu pergunto é, o que fazer durante a vida? vende-se a tralha nos últimos dias, vai-se dando aos bocadinhos? Grande empecilho, as coisas do mundo. miss Portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:34 AM - Comments: Quarta-feira, Agosto 04, 2004
Opening Night, Jonh Cassavetes Está tudo bem. A vida é mesmo assim. Os outros suportam-na. Porque não hei-de eu? Não se passa nada de anormal. No máximo uma fase. Falta-me o equilíbrio quando ando. Bebo demais. Recuso-me a dizer o texto que a autora da peça escreveu para mim. Odeio a "Virgina" (a personagem). Eu não sou assim. Ela é velha. Eu não. Ela cai e chora quando lhe batem na cara. Eu revolto-me e esbofeteio quem me bate. Só não tenho força contra a rapariga. Sim, a rapariga, muito jovem, muito loura e entusiasta. Tão entusiasta! Com as emoções à flor da pele. Sou (era) eu e quer destruir-me. Eu já não tenho as emoções à flor da pele. Nem sei se tenho ainda emoções. Digo que consigo convocar a rapariga. Garanto que sou capaz de controlar esta fantasia. Mas a verdade é que ela me surpreende. Ontem espancou-me. Atirou-me a cabeça contra as portadas. Partiu-me os óculos. Feriu-me. Hoje lutámos. Parti-lhe um jarrão na cabeça. Acho que a matei. Quando saí, ela ficou deitada perto da janela. Escorria-lhe sangue de uma orelha. Vim para aqui. Agora devo regressar ao teatro. Representar a "Virgina". Vou dar a volta ao texto. Matá-la também, para ver que mulher sobrevive quando eliminar a jovem e a velha. Só mais um copo. "Empregado! The same!" Onde fica o teatro? "Taxi!". Caí ao sair do taxi. Alguém me ajuda a subir as escadas até ao camarim? Obrigam-me a subir de gatas. Vou representar: é o que faço. " Estou podre de bêbeda. Mal consigo manter-me em cima das pernas. Porque é que estão todos tão felizes? Correu bem? IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:37 PM - Comments: Na "Colónia Penal", a "culpabilidade é inevitável". O prisioneiro não conhece a sentença. É irrelevante para o Processo. Mas a máquina que a executa funciona na perfeição. O que faz é inscrever a sentença sucessiva, precisa e dolorosamente no corpo do condenado, até desfazê-lo. A superioridade da máquina, mesmo se não devidamente reconhecida pelo actual comandante, justifica a oferta sacrificial de quem a ela se dedicou, retirando da capacidade mecânica de matar a razão da sua existência (humana). O texto de Kakfa, encenado pela Casa Conveniente, no antigo Bar Lusitano, é perturbador e poderoso. Surpreendeu-me o espernear do prisioneiro. Surpreenderam-me os seus gritos quase simiescos. Esperava que o condenado se entregasse sem um lamento. Sem conhecer a sentença. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:30 PM - Comments: Segunda-feira, Agosto 02, 2004 Manuel Alegre está para a política portuguesa, neste momento, como as máquinas de escrever estão para as artes literárias. Toda a gente lhes elogia o passado, mas ninguém lhes vislumbra futuro algum. À força simbólica das máquinas de escrever, prefere-se, hoje, o utilitário computador. Qual é mais eficaz, ninguém pode, com honestidade, asseverar. Dependerá da perspectiva com que se abordar o problema. As máquinas de escrever exigiam que se soubesse escrever, os computadores exigem que se saiba manipular. Depois, os correctores fazem o resto. Perante um cenário destes, venha o diabo e escolha. Eu já me decidi, vou continuar a ler cardápios. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:44 PM - Comments: tinha sempre um bocadinho de medo do calor, como se lhe revelasse algo que lhe desagradava ver. a sua aversão ao esforço tornava-se mais óbvia e dolorosa no verão, quando era necessário superar o corpo mais vezes e com maior tensão. o calor desnudava-lhe a alma. fingir entusiasmo pelas coisas banais era-lhe tão penoso quanto ver-se espelhada nas montras das lojas. formas rubicundas, que se enviesavam à sua passagem, que a não reconheciam nos vestidos apertados e nas sandálias altas e um pouco deformadas.sabia que era mais transparente no verão. o sorriso suave perdia convicção. o abraço aos amigos derretia-se pelas costas suadas. no verão era um problema. não convencia. não dava sentido às coisas. era informe. deveria ser metida em forminhas de bolos e deixada a pousar. para se tornar concreta.para se sentir. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:38 AM - Comments: Domingo, Agosto 01, 2004 o tomzé mexeu com o nosso hipotálamo. fez-nos dançar à lua, lua cheia sobre a baía de sines e ensaiou-nos sem banda. agora que me quero recordar à força das suas palavras, elas escondem-se num lugar remoto e inacessível. tenho de ir lá buscá-las um dia. foi uma noite-vida, um concerto-criação. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:20 AM - Comments:
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