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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Segunda-feira, Maio 31, 2004 time for fixation IV "O homem escapa às leis deste mundo apenas num ápice de um relâmpago. Instantes de pausa, de contemplação, de intuição pura, de vazio mental, de aceitação do vazio moral. É nestes instantes que é capaz do sobrenatural." (Simone Weil, "A Gravidade e a Graça", Relógio D´Água) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:34 PM - Comments: Sexta-feira, Maio 28, 2004 time for fixation III
"No Quarto de Vanda", de Pedro Costa "A ideia de princípio, ou o desejo, ou a vontade deste filme era estar com a Vanda. Filmar a Vanda no seu quarto, com a sua irmã, na casa dela, com a família, aquele grupo de quatro pessoas. E depois alargar para as casas vizinhas, ..." (fragmento de uma entrevista a Pedro Costa no site ajanela.com, Março de 2001) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:58 PM - Comments: time for fixation II
"Quando o Nicholas Zurbrugg me pediu um desenho para a capa do seu livro Samuel Beckett and Marcel Proust, comecei logo a fazê-lo, pois que, gostava tanto do Beckett como do Proust, um dos escritores franceses que devo ter lido na íntegra. Reparei durante o desenhar das suas silhuetas que o contorno de um era suave e arredondado, o do Beckett muito angular, seco. De cada vez que pego num texto do Beckett saboreio a densidade do infinitamente reduzido e penso nas sombras que são, de facto, o mais simples retrato das características fundamentais de alguém. Maio 1986" (desenho e texto de Lourdes de Castro in Phala nº 93, Assírio e Alvim) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:33 PM - Comments: time for fixation
Abbas Kiarostami, "O Sabor da Cereja" "It´s like a motionless window giving onto a landscape: through it, for a melancholic while, you´re fixedly looking at a single tree standing across from it. This tree acts the same way as a person. And you´re thinking that you wouldn´t trade it for all the trees in the world. This tree gives you the promise of something constant. You have a rendez-vous with it. You, you´re given to it, and the tree, it has givem itself up. It seems to me that these fixed things have the ability to rouse our feelings." (excerto de uma conversa entre Abbas Kiarostami e Jean-Luc Nancy, Paris, 25 de Setembro de 2000) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:36 AM - Comments: diário de uma ex-aluna de desenho, pag.1 Muito dificilmente eu teria despertado o "olhar" se não tivesse tido aulas de desenho. Mais do que ensinar a desenhar, porque isso não se aprende a aprender mas a desenhar, as aulas de desenho ensinam-nos a arte da visão. Ensinam-nos a trazer a consciência para as retinas. Parar o olhar num objecto, desenho à vista, ou numa pessoa, desenho de modelo, para depois desenhá-lo/a é dos exercícios mais eficazes para se aprender essa arte que se pratica com os olhos. É uma revelação. Ficamos como que encantados pelo modelo. Trazê-mo-lo para dentro de nós, ingerimo-lo com a vista. Aprendemos a amá-lo. Percebemos que o lugar do amor não está primeiro no coração, mas na visão. Atenta. O coração vem depois. O coração é o desenho livre. Quando se consegue desenhar sem olhar é porque já se está a amar. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:42 AM - Comments: Quinta-feira, Maio 27, 2004 não sei a que propósito me sinto seca. sequinha como uma passa, embora não tão doce nem tão indispensável em noite de reveillon. Laranja sem sumo. casca de banana ressequida, negra e desnecessária. então comecei a magicar na minha ausência.pouco depois já lacrimejava imaginando as saudades da família e as imprecações a um deus inconsequente e cruel. afinal o exercício tinha resultado. a auto-estima ainda substia sob uma espessa camada de papéis de chocolate caídos no chão. ainda chorava por mim. quem chora ainda funciona. quem sente ainda consegue. faltava-me a paciência que fortalece as almas em tempos de provação. ver o tempo enrolar-se em si próprio, não andar para a frente nem para trás. ser um tempo de queda e improdutivo. tempo de raspar as unhas nas paredes do poço ao cair. tempo de suspirar e de beber vinho tinto. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:11 PM - Comments:
Gwendolyn Brooks WE REAL COOL THE POOL PLAYERS. SEVEN AT THE GOLDEN SHOVEL. We real cool. We Left school. We Lurk late. We Strike straight. We Sing sin. We Thin gin. We Jazz June. We Die soon. THE CRAZY WOMAN I shall not sing a May song. A May song should be gay. I'll wait until November And sing a song of gray. I'll wait until November That is the time for me. I'll go out in the frosty dark And sing most terribly. And all the little people Will stare at me and say, "That is the Crazy Woman Who would not sing in May." mp (descobri Gwendolyn Brooks completamente por acaso. Em 1950 recebeu o Pulitzer Prize pelo seu segundo livro de poemas "Annie Allen", antes de si nenhum escritor negro tinha recebido este prémio) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:37 AM - Comments: Quarta-feira, Maio 26, 2004 absolutamente preciosa (apetecia-me dizer "precious", gosto da forma com a língua se enrrrrrrola no céu céu da boca boca!) Laurielaurie na ubuweb: "It´s not the bullet that kills you - it´s the hole" "Ethics is the Esthetics of the few-ture"
mp (site oficial de Laurie Anderson) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:09 PM - Comments: (excerto de uma entrevista com Abbas Kiarostami) "Human beings and their problems are the most important raw material for any film"
David Walsh: How can film or art in general contribute to the lives of ordinary people? Abbas Kiarostami: First of all, the people in the village are very distant from the cinema or the artistic world. When they only see a couple of films a year, it cannot have an impact on their lives as such. The biggest impact of cinema on the viewer is that it allows his imagination to take flight. There are two possible results of this. Perhaps it will make his ordinary day-to-day life more bearable. On the other hand, it may result in his day-to-day life seeming so bad that as a result he may decide to change his life. We become more aware of the day-to-day hardships. As Shakespeare says, we´re more like our dreams than we are our real lives. DW: You are choosing to make films about ordinary people, poor people. That itself is quite rare today. AK: I get my material from around me. When I leave my house in the morning, those are the people I come into contact with. In my entire life I´ve never met a star - somebody I´ve seen on the screen. And I believe that any artist finds his material from what´s around him. Human beings and their problems are the most important raw material for any film. So as a result, when I¿d made the film before this, I couldn´t put out of my mind the problems of the lead actor. Which is why I returned to make the third film. I had many interviews in Cannes and people asking me why I had made a trilogy. I gave many answers every day. But I found the most important answer on the final day: my link to these people never was cut off. And every time I finish a film in the village and I leave, I realize that there are dozens of other subjects that I haven´t covered. It´s difficult for me to forget these people. So that initially when I finished this film, I thought that it was a trilogy and that was that, but in the past few months, I´ve thought about it and I´ve decided to make the next film there. ... mp (para mim Abbas Kiarostami é o maior realizador vivo. a forma como os filmes dele me tocam é qualquer coisa que não consigo explicar, que não consigo esquecer. porque, para mim, aquilo que ele filma é exactamente aquilo que importa filmar. aquilo que importa. as pessoas, dentro das suas vidas, não como um "voyeur", mas como alguém que quer estar com elas. Filmar só para estar com as pessoas, haverá motivo mais bonito?) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:35 AM - Comments: DAQUI P´RÁ ALEGRIA não sei quantas pessoas terão visto este filme. muito poucas talvez porque quase não se ouviu falar. os bons filmes portugueses, sem vedetas de cartaz, ficam sempre para trás. o que é pena, porque em regra há mais alegria onde não há vedetas.
as três graças, esperança, fé e caridade (Portugal - 2003 - 1 h 30 mn - Realização: Jeanne Waltz - Produção: Maria João Mayer, François d'Artemare - Cenário: Jeanne Waltz - Imagem: Lisa Hagstrand - Décor : David Bartex - Montagem: Jeanne Waltz, Vanessa Pimentel - Som: Yves Levêque - Interpretação: Dinarte Branco, Raquel Cardoso, Catarina Rosende, Carlos Rodrigues, Joana Ferreira, ...) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:17 AM - Comments: Terça-feira, Maio 25, 2004
Gaëtan Pensarmos que não nascemos com um "jeito" especial para alguma coisa é a maneira mais fácil de emudecermos e fecharmo-nos. Deveríamos evitar a todo o custo expressões como "ele tem muito jeito para ....". São expressões absolutamente castradoras para os demais. A ironia do assunto é que quem descobriu isso mais depressa do que ninguém foram os mais "jeitosos" de todos. Artistas que se rebelaram contra o "jeito", contra esse fazer acertadinho, bonitinho, jeitosinho! Ouve mesmo quem propositadamente abandonasse a segurança da mão direita para recuperar a liberdade da esquerda, como Gaëtan. A originalidade do ingénuo traço é algo que alguns artistas buscam avidamente. E que muitos de nós, quase todos, continuamos a esconder envergonhadamente. Não estou a defender que todos deveriamos ser artistas, como dizia Agostinho da Silva, mas que todos deveriamos arriscar esse "traço, palavra, som, movimento, ....." como caminho para nos conhecermos melhor, para podermos ser mais nós. Mais cada um. Surpreendendo-nos. Porque esse ser que calamos, que não queremos mostrar porque julgamos sem interesse, desajeitado, é a nossa maior riqueza. Ele é a própria pureza enxuta. (mp)
Gaëtan postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:36 PM - Comments: Segunda-feira, Maio 24, 2004 como querem que eu seja sã? passei duas horas a falar de uma escolha de termos. aceitável, tolerável ou satisfatório. a discutir os respectivos méritos e fraquezas. depois um polaco sorridente fala-me de umas aulas de portugês na distante Varsóvia, com uma professora de duvidosas qualificações. só sabe dizer adeus. pois então adeus, para si também. o segundo polaco, em tom intimista, declara-me que trabalha para o millenium. e anuncia-me que millenium era o nome do BCP na Polónia. Teve tanto êxito que decidiram que alastrasse ao país de origem. ah, sim, disse eu, com a cabeça às voltas e um sorriso descolorido. que interessante. é verdade, disse ele. sorria muito. antes que a conversa passasse para as companhias de seguros, fiz o meu ar mais atarefado, pseudo-stressado e atirei um até amanhã. miss portugal, no alargamento postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:33 PM - Comments: Uns meses depois de publicarmos o segundo volume de contos da tribo, recebemos um telefonema de uma livraria que nos pedia para urgentemente renovarmos o stock de livros lá deixados porque uns alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa estavam a fazer um trabalho sobre o livro da tribo no âmbito da cadeira de Literatura e outras Artes. Um desses alunos estabeleceu um diálogo connosco via e-mail e, de vez em quando, envia-nos poemas seus. Pedi-lhe se podia mostrar um deles aqui no blog como forma de agradecimento a ele, a todos os alunos daquela cadeira e à respectiva professora. Estes estudantes-leitores foram das melhores surpresas que tivemos! Obrigada a todos e aqui fica então o poema do Manuel: "Na margem eu busquei o Outono quando me acordou a Primavera como o primeiro homem em terra estranha os teus cabelos queimavam-me o rosto na flor semente do sol bebi-te a sombra os dias azuis na tuas veias, onde me afogaste. Beijaste-me mesmo ao virar da esquina a um ritmo social contemporâneo nem foste deserto nem foste prado o teu vestido..... ciclo incógnito da via que bem lhe batiam as ondas da praia! na prisão imbecil do meu corpo deixaste-me na outra margem fizeste secar-me as palavras molhadas nos meus lábios.... deste-me a comer o teu coração maçã fria!" Manuel Luís Feliciano mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:10 PM - Comments:
Para a Zazie, pelos Parapluies "-Zazie, déclare Gabriel en prenant un air majestueux trouvé sans peine dans son répertoire, si ça te plait de voir vraiment les Invalides et le tombeau véritable du vrai Napoléon, je t´y conduirait. -Napoléon mon cul, réplique Zazie. Il m´intéresse pas du tout, cet enflé, avec son chapeau à la con. -Qu´est-ce qui t´intéresse alors? Zazie ne répond pas. -Oui, avec une gentillesse inattendue, qu´est-ce qui t´intéresse? -Le métro." (de "Zazie dans le métro", de Raymond Queneau) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:57 AM - Comments: Domingo, Maio 23, 2004 IV - LUGARES QUE SÃO COMO HOMENS QUE SÃO COMO OLHARES QUE SÃO COMO CRIANÇAS. SAGRADOS
Tactos sutiles, 1936, Nicolás de Lekuona (Ordizia, Guipúzcoa, 1913- Frúniz, Vizcaya, 1937) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:45 PM - Comments: III - CRIANÇAS QUE SÃO COMO LUGARES. Agora tu leitor esperas que fale de Mariana. Eu também espero, mas nada me ocorre. Nada. Nada que não banalize a imagem que ficara impressa na retina de Luís, no seu dia. De anos. E que apenas um banho de olhos na matriz poderá revelar. Depois de ter encontrado o farrapo de trapo encarnado. Nesse dia que por um acaso também era o dia dos meus. Anos. Desatei o nó com muito cuidado e coloquei-o no meu cabelo solto que ficou então preso. Só há bem pouco tempo pude usar o cabelo apanhado. Minha mãe, desde cedo, se opôs ao crescimento do meu cabelo, dizendo que assim, curto, ele cresceria mais forte. Assim, curto, ele crescerá mais forte. E a verdade é que eu habituei-me ao assim curto e só agora, quando ele começou a cair, é que passei a deixá-lo pelos ombros. Agora será até cair de vez. Desde o dia em que encontrei o farrapo de pano encarnado, sento-me debaixo desta árvore todos os dias. Num banco de metal verde com tábuas de madeira, como se esperasse alguém. O filho. Imagino que ele ainda nem terá idade e já saberá todos os segredos do. Ele será O. E eu gostava de O conhecer. Não pedia tanto. Bastaria poder olhá-lo. Uma só vez. Um dia, enquanto esperava e quase dormitava, fui acordada por uma voz muito suave ao fundo; uma voz mais próxima sorria; a outra era doce como um chupa-chupa de morangoebaunilha. Abri os olhos de repente e prendi-os. Aos três. Ela, de vestido de alças branco, trazia a descoberto a franqueza da cintura escapular que orgulhosamente expunha as suas clavículas, mais preciosas do que qualquer pérola de colar. Onde o vestido terminava começava a aparecer o que de frágil e bonito podem ser esses membros que nos levam e, nos pés, umas botas pretas que não pareciam pertencer-lhe. Ele, de calças cinzentas e camisa preta de mangas arregaçadas, trazia no dorso um saco de pano preso por uns ferros, de onde surgia uma nuca de criança e um corpo que se adivinhava quase nu. Era um dia muito quente de Agosto. Um dia em que as roupas sobravam sempre, por muito pouco que fossem. Um dia em que O. Passeava por um parque de Lisboa. Levantei-me, caminhei na sua direcção. Retirei do meu cabelo agora outra vez solto o farrapo de trapo encarnado e, sem pronunciar uma palavra, coloquei-o no pulso do. Dando três voltas. Três voltas. E dois nós. Os meus olhos nos seus. Por uma só vez. O meu olhar sobre. continua ... mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:05 AM - Comments: Sábado, Maio 22, 2004 (roubei este post à cristina à janela porque sempre quis ter esta música no blog. foi impossível resistir ao crime de furto! mp) It's four in the morning, the end of december I'm writing you now just to see if you're better New york is cold, but I like where I'm living There's music on clinton street all through the evening. I hear that you're building your little house deep in the desert You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record. [...] Tori Amos |Famous Blue Raincoat postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:57 AM - Comments: (para ler muito baixinho) permanecermos crianças até tarde é vivermos a proximidade do abismo
Rui Moreira um bocadinho mais de balanço e .....
Rui Moreira mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:46 AM - Comments: Sexta-feira, Maio 21, 2004 mais um bocadinho de fábula para o Daniel Faria, II - OLHARES QUE SÃO COMO HOMENS. Luís acabara de nascer. Era de manhã muito cedo. A mãe relembrava-lhe sempre da hora porque nunca mais a manhã fora tão cedo para ele. Hoje acordei eram 17:03. Todos os dias registo no meu diário a hora em que abro os olhos e todos os dias sei que será um minuto mais tarde seis horas depois da hora em que os fechei. A escolaridade obrigatória fora um desastre. As professoras já não sabiam o que fazer dele. Dormia nas aulas. As primeiras da manhã e, de repente, acordava. Às vezes a meio de um teste, uma explicação, uma oral. Mas a verdade é que ele sabia sempre e melhor que todos do que se tratava, como se a dormir vivesse mais acordado. Os testes, se acordava a tempo, acabava-os no tempo que lhe restava. Vinte valores. Mas a maioria. Passava-os a dormir. Profundamente. Um dia a professora de português. Iluminada após a leitura de Rimbaud. Lembrou-se de lhe colocar uma caneta na sua mão esquerda, enquanto dormia. Vinte e um valores. VINTE E UM VALORES gritaram os restantes professores. Onde é que foi buscar tal nota. Ele sabe aquilo que eu não sei por isso não acho justo dar-lhe uma nota que eu saiba. A professora de português sempre muito correcta. A sua casa com as janelas sempre muito limpas de quem não tem nada a esconder no seu interior. Mas aí é que vocês se enganam. Dona Manuela, gritava a professora de física. A senhora livre-se de colocar tal enormidade na pauta que vai para o mi(ni)stério. Já coloquei, respondeu Dona Manuela muito calmamente. Já coloquei e já enviei a pauta. Com as mãos na cabeça os professores circulavam em redor de Dona Manuela balbuciando vinte e um vinte e um vinte e um vinte e um. Vinte e um anos. Luís fizera vinte e um anos. A dormir. Registou a hora. 17:03. Levantou-se de um salto porque nesse dia prometera a sua mãe que iria visitar a avó ao lar. A hora da visita estava quase a fechar por isso tinha de se despachar. Ao contrário do que a mãe julgava Luís gostava de visitar a avó. Sentava-se à sua frente, com as mãos no colo. Por vezes dormitavam. Por vezes conversavam. Do passado dela. De quando ela e o avô eram ainda dois. Luís não conhecera o avô. Mas nos seus sonhos ele era ele. E ela ao seu lado tão nova. A pele tão branca e lisa e macia. Os olhos ternos muito brilhantes e tímidos, pálpebras quase sempre descidas. Tocava-lhe na mão e dizia-lhe aquilo que o avô nunca lhe dissera em vida. Aquilo que a avó contava que ele lhe dizia mas que Luís sabia não ser verdade. E a avó sonhava com o avô nessas noites. A avó desconfiava que as visitas do neto tinham qualquer coisa a ver com esses sonhos. Mas não sabia o quê. E preferia não saber com medo que eles acabassem, e então escondia-lhe tais pensamentos. Quantas vezes também Luís não fazia o mesmo. Para deixar as coisas como estão. Para não roubar a felicidade que o desconhecido sempre possui. E Luís sabia que na sua vida muito pouco tinha uma explicação. Que não fosse divina. Acrescentou alguém que já não ele nem eu. Nesse dia, a avó tinha um presente para lhe dar. Um presente embrulhado em folhas de plátano cozidas uma a uma pelas suas mãos sempre tão quedas para as agulhas. Folhas de plátano que durante uma semana recolhera do chão do jardim que envolve o lar. Ela e a sua amiga Gabriela. Como o anjo? Perguntara a avó no dia em que se conheceram e desde aí a amiga descia sempre ao seu encontro quando ela precisava. Tens aqui Luís, pelos teus vinte e um anos. Toda a minha vida. Todo o meu saber. Um dia pode-te ser útil. Luís desfolhou o embrulho cuidadosamente e leu em alto o título quase a desaparecer ¿A Arte de Trazer à Luz¿ por ..... Ao acabar de ler o título levantou o olhar e. Prendeu-o. LuÍÍÍS, já quase gritava a avó. LUUUUUUÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍS, gritava agora a avó para o chamar a si. E ele então desprendeu-o. Que foi avó. Desculpa filho mas é que me assustei. Via-te tão quieto, quase sem vida. Como se dormisses. Mas os teus olhos todos abertos tinham como que a tua vida toda dentro. Desculpa, nunca te vi assim e assustei-me. Mas Luís já não ouvia nada. Tinha outra vez o olhar preso fixo e repleto de vida. A avó seguiu o seu olhar e encontrou o de Gabriela que olhava na sua direcção. À sua frente aquela que ela sabia ser a única neta desta olhava Luís. Também ela presa, com um olhar fixo e a transbordar de vida. Nessa noite as duas amigas tiveram o mesmo sonho sem o saberem. Nesse sonho Luís e Mariana eram personagens de um filme a que ambas assistiam numa velha sala de cinema. Eram as únicas sentadas na plateia. A sessão devia ser a primeira da tarde. Na penumbra, o projeccionista só distinguia dois tufos de fios brancos e cinzentos entrelaçados a meio da sala. Mas eu, que consigo olhá-las de frente, aproximando-me sem ser vista, vejo estas duas mulheres com os olhares presos, fixos e. Olhares que só se têm. Uma vez. Na vida. continua ... mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:24 PM - Comments: 9 Um café, pela tarde, depois de quilómetros percorridos à procura do retrato perfeito. Não mais direi amor, palavra opressiva. Apago a memória dos instantes que foram. Sabes quem escreveu um dia que it`s so easy to be a poet and so hard to be a man? Adormeço por baixo dessas palavras, sobre o tampo da mesa. Acordo. Vou ao W.C.. Sento-me, assento-me, refestelado e, enquanto defeco, leio inscrições cravadas na porta. Esta: cada galo com sua galinha. De regresso, tenho uma cerveja a aguardar-me o vazio da boca. Acendo um cigarro, porque acendo mesmo. Agarro as imagens com as pontas dos dedos e vejo-te sentada ao balcão. Abraço-te, beijo-te, desintegro-me. Previno-te de que continuo burguês, que a aventura não me socializou. Afago-te as mamas, enquanto me apertas os colhões. Por detrás do balcão, há quem nos olhe. Pomos os pés à frente do destino e abrigamo-nos um no outro. Apanhamos um taxi: zona i de Chelas, se faz favor. (FIM) (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:07 PM - Comments: para o Daniel Faria I - LUGARES QUE SÃO COMO HOMENS. Mariana e Luís tinham em comum o facto de se amarem. O amor jorrava-lhes pelas mãos, pelos pés, pelos cabelos encharcados de carícias. Tinham que dar vida a esse amor, transformá-lo num corpo de criança. Dar-lhe pés para andar, olhos para se encantar e voz para (n)os salvar. Eram ainda estudantes. Ninguém deveria saber. Tinham-se conhecido há instantes. Ninguém iria compreender. Primeiro havia que achar o sítio para conceber. Depois. O sítio para nascer. Depois. Luís aprendia a arte de trazer à luz por um manual antigo que pertencera à avó materna. Professora primária e Parteira da terra. Professora de dia, Parteira de noite. Porque naquela terra as crianças escolhiam sempre a noite para surgir. Para se ver melhor a luz de quem dá, gostava de repetir a avó. Enquanto Mariana encarregava-se de achar os sítios. Percorreu o país de lés a lés. Tomou o comboio em Santa-Apolónia rumo ao Norte. O Correio, para poder sair em todos os apeadeiros. Dirigia-se sempre no sentido oposto ao sinal que indicava o centro da vila. A passo largo. O barulho das botas que em tempos fizeram a tropa do Pai no asfalto, na terra seca, nas folhas que as árvores traziam esquecidas pelo chão. Debaixo de um sol tórrido ou de lágrimas (felizes), de chuva. Lá ia ela, riscando no mapa quase a desintegrar-se os locais outrora virgens de si. No meio de um pinhal, de um dos muitos que calcorreara, descobriu uma clareira, uma pequena clareira de erva verde e firme. Ei-lo, pensou para si enquanto o marcava para sempre com a fita encarnada que trazia presa ao cabelo. Faltava-lhe ainda um. O sítio para nascer, nove meses depois. Voltou a Santa-Apolónia, tomou o Correio, agora em direcção ao Sul e recomeçou a sua busca. No cimo de um monte, não avistando casa nem homem nem estrada até à linha do horizonte, encontrou um objecto estranho feito de troncos de madeira e pele de animal curtida. Quatro troncos verticais colocados à medida de um corpo humano de braços e pernas estendidos. Cada tronco a tocar a extremidade de cada membro. No centro uma plataforma de troncos cruzados forrada a pele de animal. Mariana subiu para a plataforma por uma pequena escada lateral. Um metro e meio do chão ao topo. Deitou-se de barriga para cima. Alongou as pernas. Experimentou os dois encaixes para os pés que se erguiam diante dela, e pensou. Ei-lo. O lugar para nascer. Retirou os pés, desceu a escada lateral, desatou a fita encarnada que trazia presa ao seu cabelo e colocou-a num dos troncos verticais para sempre. Tinham combinado encontrar-se num domingo, depois da missa, junto a uma velha árvore, a única que ainda resiste no jardim de bairro perto de sua casa. Mariana mostrou-lhe o mapa, Luís mostrou-lhe o manual. E mapa e manual beijaram-se longa e ternamente compreendendo a conquista de quem os sustinha. Num dos troncos altos dessa mesma árvore avistei há bem pouco tempo um farrapo de trapo encarnado preso por um pequeno nó. continua .... mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:31 AM - Comments: Quinta-feira, Maio 20, 2004
Francisco Tropa postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:53 AM - Comments: Clarice, sempre Clarice "Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo." mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:02 AM - Comments: Cantemos mesmo que a nossa voz seja rouca e desafinada! Na mesma medida em que precisamos dos outros precisamos de nós próprios. Quando vivemos apenas daquilo que os outros nos dão vivemos insaciados. Nunca o que nos dão é suficiente ou surge quando mais precisamos, Vivemos insatisfeitos. Ansiosos. Para vencer essa insatisfação é preciso aprendermos a saciarmo-nos com o nosso próprio corpo. Desenhar, por exemplo, é uma excelente forma de viver essa infinitude da vida. Dar voz ao traço único sempre renovado. Escrever, indo ao encontro das palavras que nos pertencem, que são nossas e que nunca findam, é outra. É importante que exploremos todos os meios de expressão ao nosso alcance, que não nos fiquemos pela fala ou pela escrita do exmº senhor. É importante experimentarmos o lápis, a caneta, o pincel, a trincha, a espátula, a tesoura, ..... Os trabalhos manuais, vocais, musicais não podem acabar na escola. Só assim nos encontraremos. Só assim despertaremos. Se eu sou desajeitada a falar que não me cale, que ninguém me mande calar. Se eu me pusesse a falar ageitadinho é que estava mal, estaria a aldrabar-me, a aldrabar-te. E, acima de tudo, é preciso não ter medo de errar. Errar o alvo é acertar em qualquer coisa que não contavamos! eu, pelo menos, acredito mais no puro acaso do que no caso! mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:42 AM - Comments: Quarta-feira, Maio 19, 2004 CALDAS LATE NIGHT na próxima sexta-feira, dia 21 de Maio, a nossa Robalinho (Cristina Robalo de seu nome) vai participar no Caldas Late Night com uma intervenção numa montra do centro da cidade. NÃO PERCAM: O Caldas Late Night (CLN) é um evento de âmbito artístico e cultural, sem fins lucrativos realizado em Caldas da Rainha por alunos da ESAD (Escola Superior de Arte e Design) sendo a presente a oitava edição deste evento. A criação deste evento remonta a 1997, quando um grupo de alunos desta Instituição sentiu a necessidade da existência de um espaço de expressão que fomentasse intervenções e manifestações artísticas de carácter livre e experimental. Desde esse ano o CLN tem sido realizado anualmente e tem assistido a um aumento tanto de participantes como de público. Este evento recebe participações vários alunos, mas também de alunos de outras escolas, ex-alunos, estando também aberta a participação à população em geral. postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:44 PM - Comments: é possível dizer mais alguma coisa sobre o assunto?
AMOR E SEXO (Rita Lee / Roberto de Carvalho / Arnaldo Jabor) Amor é um livro - Sexo é esporte Sexo é escolha - Amor é sorte Amor é pensamento, teorema Amor é novela - Sexo é cinema Sexo é imaginação, fantasia Amor é prosa - Sexo é poesia O amor nos torna patéticos Sexo é uma selva de epiléticos Amor é cristão - Sexo é pagão Amor é latifúndio - Sexo é invasão Amor é divino - Sexo é animal Amor é bossa nova - Sexo é carnaval Amor é para sempre - Sexo também Sexo é do bom - Amor é do bem Amor sem sexo é amizade Sexo sem amor é vontade Amor é um - Sexo é dois Sexo antes - Amor depois Sexo vem dos outros e vai embora Amor vem de nós e demora mp (eu estava tentada a dizer que sexo é o meu pipi e amor as palavras da tribo, hé hé hé) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:01 PM - Comments: Terça-feira, Maio 18, 2004 Serge : "Je me suis rendu à son hôtel et quand j'ai aperçu cette fille descendant l'escalier dans une minijupe pour fillette de dix ans, je me suis dit "Mais qu'est-ce que c'est cette provoc' ?". Fallait oser. Ça m'a intrigué."
Jane : "J'avais raté mon mariage, la chose la plus importante dans ma vie; ma carrière n'avait pas commencé et je n'avais aucune ambition sur ce plan, je ne rêvais que d'un amour sublime... Après le dîner chez Maxim's Serge m'emmène au New Jimmy's, chez Régine. Toujours en frimant un peu, il me propose de danser, mais pas autre chose que des slows... Et quand le disc-jockey a finalement programmé un slow et qu'il m'a emmenée sur la piste, il s'est mis à me marcher sur les pieds. J'ai compris qu'il ne savait pas danser, et j'ai été complètement ravie, je suis tombée amoureuse de lui pour sa timidité, sa maladresse. [...] Je lui ai demandé pourquoi, la première fois qu'on s'était vus, il ne m'avait pas demandé : "Comment ça va ?" et il m'a répondu : "C'est parce que je m'en foutais"... Je me suis aperçue que toutes ces choses que j'avais prises comme des agressions étaient finalement des protections de quelqu'un d'infiniment trop sensible, de terriblement romantique, avec une tendresse et une sentimentalité qu'on ne devine pas. Un jour il a dit qu'il était un "faux méchant" et c'est vrai."
Un journaliste de "Noir et Blanc" demande à Serge si Jane correspond à son type de femme. Il répond : "Je n'ai pas de type précis. Je suis éclectique en la matière et j'ai connu des femmes très différentes. Jane correspond plutôt à un idéal pictural. Quand j'étais peintre, je ne peignais que des femmes un peu androgynes, menues, avec peu de poitrine. Tous mes tableaux ressemblaient à Jane. Je l'ai peinte avant de la connaître."
mp (http://sergegainsbourg.artistes.universalmusic.fr/800/push/index.html) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:03 PM - Comments: Segunda-feira, Maio 17, 2004 8 Rasguei mais uma página do livro que me ofereceste antes de partir. Devo confessar que me arderam as unhas enquanto a rasgava. Antes, porém, molhei as pontas dos dedos com cuspo, calei o estômago com um pêssego roubado no mercado, dobrei bem os lençóis e estendi as pernas para descansar os músculos. Depois, afoguei-me em álcool até os sonhos se transformarem em pó, deixei que me fodessem e pus a nossa música preferida: je t¿aime... moi non plus. Uma mulher, confesso, veio agarrada ao pêssego do mercado. Podes ficar descansada, não era mais bonita nem fodia tão gentilmente como tu. Tinha até uma silhueta um pouco desconsolada, se te interessa sabê-lo. Porém, não resisti a ler-lhe o nosso poema: o amor em visita. Foi precisamente essa página que rasguei. Não sem antes dizer entredentes, claro, que a amava. E trincar a mentira como quem mastiga a língua. (h) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:33 PM - Comments: Domingo, Maio 16, 2004 who am I? postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:43 PM - Comments: Sábado, Maio 15, 2004
Entre 76 e 79 vivi no Rio de Janeiro com os meus pais e 3 irmãos. Vivíamos entre Copacabana e Ipanema, na esquina da Av. Nossa Senhora de Copacabana com a Joaquim Nabuco. Para tomar conta de nós, que ainda éramos pequenos, a minha mãe contratou uma rapariga da Rocinha chamada Rosália. Uma rapariga franzina, mulata e cheia de pelo na venta. Lembro-me que o sangue dela aquecia bem depressa quando se irritava! Mas também era uma grande brincalhona e amiga, sempre pronta a meter-se em sarilhos por nossa e por sua causa. Algumas vezes fui passar o fim de semana com ela à favela. A minha mãe, ao contrário da maioria das mães, sempre me deixou ir (obrigada mãe!). Lembro-me que apanhávamos um taxi e que este, mesmo com a insistência da Rosália, nos deixava no sopé do morro. Recusava-se a entrar no bairro. Já naquela altura a Rocinha não tinha grande fama. Pagávamos a bandeirada e lá íamos nós a pé ladeira acima. Ruelas estreitas ladeadas de barracas, de gente e de bicho. Galinha e homem eram vizinhos por ali, partilhavam o mesmo espaço. A casa da Rosália, um barraco de tábuas de madeira e placas de zinco, era bem no alto. O trajecto era longo. Pelo caminho íamos encontrando amigos e conhecidos. Ali não há portas fechadas e é na rua que se faz sala, como ainda nas nossas aldeias. Uma senhora mais velha passa por nós carregada de baldes de água e aproveita para me convidar para os anos da filha no dia seguinte, ao qual não faltamos. Mais à frente encontramos a Zéfinha, que durante o dia ia a minha casa cozinhar. Era uma figura muito engraçada. Gordinha e baixinha e sempre bem disposta. Olá Zéfinha, vai um prato de batatas-fritas com língua de vaca como só tu sabes fazer? Em casa da Rosália comemos arroz e feijão preto, nunca o feijão me voltou a saber tão bem! Para dormir, a Rosália e a irmã apertam-se na cama para caber mais uma. Cabe sempre mais alguém! Dormimos as três numa cama de casal. Partilhar cama é coisa normal, estranho é ter colchão só para si. Mas não me lembro de estranhar, o bom de se ser criança é que não se é cínico, ou nos importamos com as coisas e dizemo-lo alto e bom som, ou está tudo bem e não dizemos nada porque nem pensamos nisso. Quando a Rocinha aquece e é motivo de cobertura jornalística, como aconteceu recentemente, penso nas duas, Rosália e Zefinha. Onde estarão agora? Será que ainda vivem por lá? Como têm sobrevivido naquela que se tornou hoje um dos locais eleitos pela mafia do crime organizado do Rio? Mas o site da rocinha na internet que hoje descobri deixa-me mais descansada. Dá-nos a ver o outro lado, aquele que eu tive a sorte de ter conhecido. E quando digo sorte digo mesmo sorte. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:44 PM - Comments:
e, quando você pensava que eu já tinha desistido, ainda mais Adoniran, agora para todas nós, mulheres "Quando Deus fez o homem quis fazer um vagolino que nunca tinha fome e que tinha no destino nunca pegar no batente e viver folgadamente. O homem era feliz enquanto Deus assim o quis, mas depois pegou Adão, tirou uma costela e fez a mulher. Desde então o homem trabalha pra ela. Vai dai, homem reza todo o dia uma oração: Se quiser tirar de mim alguma coisa de bom que tire o trabalho, a mulher não." postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:31 PM - Comments:
mais Adoniran, agora para duas cristinas, uma algures em são paulo e outra na travessa do fala só ... (Iracema, fartavam 20 dias Pra o nosso casamento Que nóis ia se casa Você atravessô a São João Vem um carro te pega E te pincha no chão Você foi pra assistência, Iracema O chofer não teve curpa, Iracema Paciência, Iracema, paciência!) E hoje ela vive lá no céu (...) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:56 PM - Comments:
Tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles) De tanto levar frechada do teu olhar Meu peito até parece, sabe o que? Táubua de tiro ao álvaro, não tem mais onde furar Teu olhar mata mais do que bala de carabina Que veneno estriquinina Que peixeira de baiano Teu olhar mata mais Que atropelamento de automóver Mata mais que bala de revórver mp (finalmente ele chegou nas minhas mãos. Adoniran Barbosa em todos os seus momentos. depois de andar por muitas mãos zeca, lamas, robalinho. finalmente o cd está comigo e n devolvo tão cedo! Álvaro, nosso comentador mais assíduo, esta é direitinha prá ocê!) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:31 AM - Comments: Sexta-feira, Maio 14, 2004
a zazie está imparável! vamos todos dar-lhe as mãos e deixar tudo para trás ... mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:44 PM - Comments: CAMA UMA X HOMEM UMA X MULHER 3 X CRIANÇA no início uma mulher ocupava um só lugar depois a cama cresceu e um homem entrou passaram a ser 2 lugares depois a cama cresceu e uma criança entrou passaram a ser 3 lugares depois a cama cresceu e cresceu mais ainda e duas crianças entraram passaram a ser 5 lugares o homem e a mulher defendiam as extremas da cama com os seus corpos de gigantes as crianças brincavam no seu interior sonhando escorregas, baloiços, bonbons ("tu m`a apportés des bonbons"), árvores com troncos infinitos se aquela cama voasse .... poderia ser a nau catrineta que tem muito que contar ... a armada invencível ... as q4 naus de cabral .... a ilha de crusoe .... o planeta do príncipezinho ..... uma clareira verde de sonho no interior da cabeça de um gaiato aquela cama deveria chegar para nos salvar. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:13 PM - Comments: ´
fotografia do infante César Monteiro em memória do que sempre se riu de tudo isto rindo-se, em primeiro lugar, de si próprio. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:36 AM - Comments: Quinta-feira, Maio 13, 2004 MULHERES A MEIO TEMPO NECESSÁRIO Queria uma mulher. A mulher. Eu que vivo só, com o meu pai. A minha mãe deixou-nos depois de me ter. Nada de extraordinário naquele ramo da família. Onde as mulheres permaneciam o tempo necessário ao coito, gestação, nascimento e amamentação. Assim, na meninice, só convivi com trisavôs, avôs, tios e pai, no singular. Fôramos eleitos. Família cobaia. Para isso recebíamos de vários governos e nações. Passado o tempo dos robertos, namoradas foram muitas, mas sempre tudo tão rápido que nem dava tempo para as conhecer para além dos nomes. E mesmo esses só os próprios. O tempo era curto para apelidos. Necessário mas curto (como as mini-saias da primeira, a pedir olhares desviados rumo aos membros inferiores). Afinal, pensando melhor, as necessidades são sempre fáceis e imediatas de satisfazer. Daí talvez este meu insistente apego ao inútil. Àquilo que parece não servir para nada: uma camisa de verão perdida num guarda-fato de inverno; uma chave mesmo assim guardada depois de mudada a fechadura; um embrulho que permaneceu comigo depois de passado o dia de anos do aniversariante; uma meia sem par. Enfim, um sem fim de coisas que pululam o meu interior e das quais não me consigo desfazer sempre que me proponho a arrumá-lo. Daí a escrita. Palavras arrumadas umas contra as outras em cima por baixo e ao lado. Daí não gostar de parágrafos, o imenso espaço por preencher aflige-me. Lembra-me tudo aquilo que não fiz, de que fugi ficando, permanecendo. Tive sempre medo do passo em falso. Desbravar florestas virgens não me assusta. Assusta-me o que fazer com elas, depois da penetração. Assusta-me a brutalidade. Da palavra. Tenho medo de não ser senão isso. De não ser senão palavras, sem sentimento. Como vêem já me perdi do meu texto. Onde ia eu? Palavras desnecessárias pensarão vocês. Mas a desnecessidade das palavras é o que me atrai. Palavras contra prazos, palavras contra compromissos, palavras adiáveis inadiáveis dentro de mim. Como um encontro. Sim, como um encontro. Hoje, na rua, cruzei-me com uma mulher. Hesitámos os dois no sinal verde e quando nos decidimos já ele mudara de cor e carros percorriam o espaço em volta deixando-nos entregues um ao outro. Agarrámo-nos. Fechámos os olhos e esperámos o esvaziamento. Por momentos houve quem pensasse em suicídio conjunto. Começar um encontro pelo fim? Seria bonito. Imaginem tudo aquilo que se evitaria? O deslumbramento, a euforia, o medo. Seria como se tudo fizesse sentido desde o início. Mas ela e eu seguimos em frente sentidos opostos. Fiz algumas tentativas depois desta mas nunca mais resultou. O sinal, a hesitação, ela, cada um com o seu tempo, fora do meu. Mais uma vez verifico que a minha interferência no curso do mundo é sempre desastrosa. Tudo se volta contra mim como um cão a quem uma festa é entendida como um sinal de perigo e responde com a dentadura ao em vez da língua. E deixei-me de interferências. Deixei-me de sinais, de hesitações, de ... Fazer o que temos a fazer sem pre visões. Visionar o que de facto está. No nosso ângulo, de visão. E um silêncio, uma soturnidade passaram a habitar-me. Era assim a solidão. Li. Sempre me disse que era um caso perdido. Como exigir de uma mulher que seja duas, três, quatro. Mulher-mulher, mulher-mãe, mulher-avó .... completando assim o espaço por preencher nos galhos em que me colocaram? Assim distraía-me com várias sem trepar por nenhuma. Lançando-me sempre do galho inferior. Daquele em que ainda nem sequer é preciso usar corda ou escadote porque está ao alcance de uma perna, esticada. E pernas para que .... Ela aproximou-se. Segurou-me a mão e perguntou-me a hora. Respondi-lhe 12:45. Desculpem, mas agora tenho de me despedir, já é tarde. A mulher espera-me no altar e não tenho ninguém que me componha o nó, da gravata. Amanhã tudo será diferente. Será para todo o tempo. Desnecessário. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:45 PM - Comments: Há coisa melhor do que viver num bairro popular e de manhã cedo, ao bater da porta, ouvir do fundo da rua um "Bom dia Maria" carregado de decibéis e boa disposição! Bom dia Célia!!! É impossível andar mal disposto com esta vizinhança! mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:09 PM - Comments: Quarta-feira, Maio 12, 2004 A IMAGEM QUE CONDUZ AO CORPO A mão dispersa na folhagem a mão perdida a boca já exausta onde tocar a pedra as sílabas da pedra? Aqui uma sombra branca Não inicial Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro Como alcançar o coração de alguma coisa a substância o centro ou a terra do poema Começo sem amor sempre demasiado cedo Interrogo não um insecto nem uma pedra Percorro um muro com um olhar cego Estou tão longe da realidade como do poema A distância é infinita Tu não estás aqui E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos e de mais A mão toca não um silêncio não as sílabas de um corpo longo e fresco mas uma corrente congelada uma parede árida calcinada Como encontrar a imagem que conduz ao corpo como percorrer as veias vivas do silêncio e fazer-te estremecer os leves lábios? Como estar sendo ser estando junto à boca unida e firme e trémula do poema? Se soubesse desenhar as linhas negras que abrem a brancura completa do corpo que deixam entrever a espuma nos cabelos no sulco que divide as amorosas pernas onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos escreveria as linhas intensas do poema? As mãos completar-se-iam no perfil ardente O presente seria o instante do abrigo imenso A luz dos teus olhos banharia as palavras e tu serias o corpo luminoso com os membros libertos sob a água viva Escrever seria amar-te? Seria interromper este deserto limpar a ferida aberta? Seria entrar no interior do centro fresco percorrer essa praia que ninguém ainda pisou beijar os teus sinais e a sede límpida que desenha toda a chama alta do teu corpo? Escrever seria estar contigo no interior da chama beber o orvalho das palavras nos teus lábios? No interior de um barco de folhagem verde animado de um braço intensamente vivo ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo? Estou já tão perto de ti que uma sobra soluça Estou tão perto de ti que o poema principia Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo A minha língua arde sobre o teu ombro frágil O perdão do teu olhar é o amor da luz. (in António Ramos Rosa, Boca Incompleta, Arcádia, Lisboa, 1977, pp. 51-52) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:52 PM - Comments: Terça-feira, Maio 11, 2004 ai meu amor se bastasse! mas basta, basta ouvir a Aldina Duarte
mp (durante os próximos tempos não ouvirei mais nada, este disco basta-me) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:57 PM - Comments: Segunda-feira, Maio 10, 2004 um vestido de estação para a menina robalinho!
ps. impossível ficar indiferente às matinés da zazie à janela dans le metro. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:04 PM - Comments: A ARTE DOS MANIFESTOS (1) (vamos tentar colocar aqui alguns dos "manifestos" que fomos encontrando, embora quase apetecesse criar um novo blog só para isso. alguns estão ainda quentes, acabados de sair do forno, como este primeiro de Pedro Proença, outros têm mais tempo, mas não é por isso que deixam de ser actuais, todas as sugestões e manifestações são bem-vindas, mp) ORDERS FROM NOISES 1. Cultura é o que fazemos e desfazemos. A arte é uma pindériquice dos diabos. 2. A pintura parece-se com uma linguagem mas é o menos importante nela. 3. Desde há muito tempo que quer a vida quer a morte são completamente artísticas. 4. A diferença entre paisagem e reprodução esbateu-se de tal modo que confundimos as reproduções com as paisagens e as paisagens com as reproduções... com a diferença do cheiro. 5. O campo é menos a paisagem do que o modo como se respira e caminha. 6. Estas questões são já arte. A arte questionou-se tanto que todas as questões se tornaram artísticas. Aliás, todo o mundo (mesmo a parte do universo mais inacessível), há já muito tempo que é assumidamente arte, embora de um modo pouco deliberado. A dificuldade está em algo não ser involuntariamente arte. 7. Do mesmo modo os especialistas, aqueles nabos que decidem o que pode passar ou não por arte, estão quase todos de acordo: não só consideram que tudo pode ser arte, como estão de acordo quanto ao facto de que tudo já é definitivamente, e há algum tempo arte. 8. Para uns o que conta em arte são as intenções, a pastilha intelectual, com o seu fundo pequeno-burguês. Para outros o que interessa é o não-intencional. Nem a atitude faz a diferença. A pintura dos macacos e das crianças é tão boa ou melhor quanto as instalações pretensiosas de Kosuth. 9. O nosso passado, mesmo o mais soberbamente clássico, tem um ar cada vez mais pop. Sócrates foi um filósofo ou um futebolista? 10. Toda a expressão artística provoca afectos. Não sei se esses afectos afectam significativamente. 11. Quando documentamos sistematicamente as nossas actividades mais desconcertantes elas ganham uma patina museológica. 12. Já não vale a pena questionar a natureza da percepção. O que é certo é que ela até pode ser construída mas os seus mecanismos biológicos continuam-se a agitar e a focar e a redefinir. O que podemos mudar na percepção são os preconceitos, que se poderão tornar, eventualmente, noutros preconceitos. Qualquer processo revolucionário é apenas uma ligeira mudança na forma como se gerem os preconceitos. Deste modo não passam de modas aceleradas, sob a forma de irónicos produtos de consumo. 13. As revoluções acontecem quando a coisa se torna muito normal e repetitiva. As revoluções são violentas, tão violentas quanto mais duradouro o período da «normalidade». 14. Há a possibilidade de trotskisticamente estarmos há já muito tempo em revolução permanente. Haverá sempre acontecimentos que põe em causa as nossas sociedades pretensamente democratas. O capitalismo será abanado. Mas quem sofre as consequências são sempre os mais miseráveis (quem se fode realmente são os gajos do terceiro-mundo). 15. Há, no entanto, uma tendência para o aumento de complexidade que consiste em dois factos muito simples; o aumento do ruído e o aumento de informação, a que correspondem, como todos sabem, aumentos significativos de organização, desorganização, caos, ordem, desordem, etc. 16. George Steiner observou que há na história da música uma progressão crescente no uso do ruído. A versão é simplificadora. Mesmo alguns dos compositores mais ruidosos produziram algumas das peças musicais mais silenciosas. O que aumentou no mundo foi o ruído de fundo. Mas por vezes os ruídos naturais são mais perturbantes que os ruídos ditos artificiais. 17. As obras de arte não se tornaram, historicamente, nem mais interessantes nem mais complexas. O que não serve para julgar o passado ou o presente como melhor ou pior. 18. Há uma tendência crescente para a humorização no prática artística, mesmo das coisas mais trágicas ou políticas. 19. A quantidade de informação torna qualquer selecção canónica um empreendimento desmesurado. A memória individual é demasiado pequena para açambarcar e digerir adequadamente os grandes clássicos de todas as culturas que estão à nossa disposição. Por outro lado o nosso cérebro também tem um apetite frequente pelos não-clássicos, pelas pequenas extravagâncias e até mesmo pelas abomináveis diferenças. 20. A «alta cultura» é preferível à «baixa cultura», mas a baixa cultura consegue atingir momentos de intensidade, êxtase, exaltação, etc, que a alta cultura parece impotente de produzir. 21. Porque é que há hoje tão poucas obras-primas? Perguntou já há algumas décadas um artista. Outro, da mesma época, respondeu-nos que os processos são mais importantes que as obras-primas. Será que alguém se dá ao luxo de «fabricar» obras-primas? Será que os processos não estão subjacentes às obras-primas? Será que a arte não se questiona desde o início? 22. Que questões é que a arte se põe? É mera representação? Desejo domesticado? Ilusão? Alienação? Desmistificação? Incitadora ao êxtase? Acto gratuito? Comichão? Prostituição? Veneração? Dedicação? Tédio? Mentira? Puro jogo? Perpetuação? Medo da morte? Análise dos seus mecanismos? etc. 23. Uma arte contra a sensibilidade, a expressão, ou a individualidade é uma arte contra a inteligência, pelo totalitarismo, e pela morte. A insistência clássica no mínimo de expressividade, biografia, etc., é um sintoma do desejo de mumificação. 24. Na cultura tecnológica há algo de mastabismo, de espelhismo para cadáveres vivos. No mundo da cultura tecnológica também há uma fresca efervescência. 25. As verdades ditas místicas (todas as verdades terão um fundo místico?) apaziguam os artistas da sua impotência comunicacional. 26. Uma boa mentira artística consola mais do que a melhor das verdades místicas. 27. Richter, tal como outros (Stockauhsen), viu nos atentados do 11 de Setembro uma obra-prima artística, o que à luz da arte, tal como nela vivemos, é não só legítimo como recomendável. A partir deste reconhecimento, todos os massacres, inclusive o famoso holocausto, podem ser entendidos como obras-primas artísticas. Aliás, duvido que Hitler não tenha concebido o holocausto como uma meticulosamente encenada obra-prima de arte. Hitler seria mais facilmente um artista conceptual do que um degenerado pintor expressionista. O Mein Kampf dá conta da sua sofisticada intencionalidade, o que o distingue da maioria dos tiranos acéfalos e há nele tanto uma estétização da política quanto uma politização da arte. A frase de Benjamin de que os marxistas fazem uma coisa e os nazis fizeram outra também é uma mistificação. Uma implica a outra ¿ a politização da arte é, de um ponto de vista conceptual, já uma estetização da política, e vice-versa. 28. A valorização da arte como assassinato ou suicídio é desprezível. Do mesmo modo um escritor, artista ou filósofo que matam ou se suicidam (a não ser em casos extremos de uma morte para breve que se adivinha dolorosa) não me parecem, à partida recomendáveis. No suicídio a questão de autoria é relevante. 29. Mesmo apesar destas observações sempre foi obvio que a arte, tal como tudo, é política. A minha militância é pela delicadeza, a post-paradoxalidade, o entusiasmo. A de Hitler e dos terroristas, assim como tudo o que apela à radicalização, é pela violência, pelas opiniões contundentes (dogmas), pelo fanatismo. Prefiro uma obra delicodoce, como um quadro foleiro de Boucher às obras de Bacon, Richter ou dos seus sucedâneos no domínio do cinema, vídeo, instalação, etc. 30. Ad Reinhardt fez as últimas pinturas que qualquer pessoa poderia (do seu ponto de vista) fazer. Também já foram escritas as questões mais relevantes que poderiam ter sido escritas, assim como as mais perfeitas instalações, site-specifics, fotografias, performances, etc. Há no entanto um sentimento dominante que sobra a tudo isto que é a vontade singular de resposta. Cada ser humano não se deve deixar aniquilar pelo carácter monumental destas encenações ou pela perfeição destes momentos. Todos nós temos o dever, e a necessidade, de continuar a responder, ainda que de um modo mais imperfeito (mas mais rico) às solicitações mundanas e canónicas das artes e das vidas. 31. Já não há a necessidade de fazer o que quer que seja de último ou de definitivo. Todos os materiais podem ser invocados para expressar um desejo de vivência mais rica. Jonh Cage citava alguém assim: «o que necessitamos é de um ecletismo radical» (o que é um paradoxo). Eu penso exactamente assim. 32. Uma experiência inter-pessoal, em rede, de diálogo ou discórdia, é mais rica do que a afirmação estetizante de uma personalidade. A prática de arte só cumpre as suas utopias sociais no momento em que há sociabilização artística e que se diluem as fronteiras entre os diversos agentes especializados da arte. Na comunidade da arte todos devem ser artistas-críticos-museólogos-curators, etc. Esta asserção não é nova, mas põe a claro que o acto de delegação das competências é uma traição na atitude. A partir do momento em que a arte se pode fazer com meras atitudes ou com/pela escrita, toda a crítica que não seja obra de arte é no mínimo suspeita. Desde há muito que vejo com desconfiança os curators e críticos supostamente radicais que não devêm artistas, assim como os artistas radicais que continuam as suas caminhadas com as muletas dos críticos. Não há, à luz da arte actual, argumentos significativos para tais panhonhices. A única justificação para tal persistência de práticas é o prazer do poder (o crítico torna-se, pela sua posição mais menos vulnerável), a incapacidade de ser autenticamente criativo, e a autocomplacência no parasitismo. Ou a perguiça... 33. Compreendo que um artista delegue num agente ou num galerista a repugnante actividade da venda e divulgação do seu trabalho, coisa com a qual ele não deve perder tempo. Mas perturba-me mais a ideia de que alguém mistifique verbalmente a intencionalidade de uma obra. Será que a obra se torna mais clara? Mais importante? Será que o artista não tem os instrumentos adequados para exprimir as implicações que espera do seu trabalho? Será que o artista quer ser surpreendido através de um exercício de retórica? Ou trata-se de mera legitimação, isto é, poder e aldrabice? 34. É importante que se escreva e se problematize as artes alheias, mas isso deve corresponder mais a uma necessidade pessoal de interrelacionamento e meditação (ou mesmo a uma replicação por admiração ou simpatia) do que a mero mercenarismo e gestão de interesses duvidosos. 35. Ad Reinhardt dizia, com um esplendor hegueliano: «fine art can only be defined as exclusive, negative, absolute and timeless». Eu diria precisamente o contrário: a grande arte é inclusiva, positiva, relativa e contemporânea. A grande arte pede que estejamos com ela, em processo, em acto. A grande arte é um meio de construção e em construção. A grande arte faz-se em função do desejo de absolutos, mas não é um absoluto, tal como a filosofia não é a sabedoria. Pode jogar com a designação dos absolutos, mas é sempre uma teia de relativos, de relações, de hipóteses figuradas. A grande arte é a do instante (embora o «instante e a eternidade sejam a mesma coisa» - Agostinho), a que está para os contemporâneos a cada momento e não apenas (mas também) no momento em que ela foi feita. Por isso escrevi algures que nenhuma arte é do passado. Toda a arte que neste momento é acessível, por mais sentidos que tenha perdida (ou intenções simbólicas que se tenham degradado) é contemporânea, fazendo parte de uma imensa teia de possibilidades que nos apelam a fazermos grande arte. Pedro Proença postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:06 PM - Comments: quase ... disse aprisionemos o amor no que foi e no que será para sermos livres no agora já mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:33 AM - Comments: quase ... li escrever-te em caracteres que não são meus é adiar-te a minha singularidade mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:28 AM - Comments: quase ... um anagrama constela-me cose-me na tela costela constelação estrela mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:12 AM - Comments: Sexta-feira, Maio 07, 2004 de viagem marcada?
AMG
Meninas! Venham todas, que terei o maior prazer em mostrar Minas para vocês. Tanto, que faço o convite público, e no calor da hora. Viram que até vim aqui publicar? ;-) Bem, não sei até onde sabem sobre a minha terra (e mesmo eu, que estive tanto tempo afastada daqui, não sabia muita coisa, é saber vasto...). É território montanhoso, de horizontes recortados, e apesar disso, o mineiro Carlos Drummond de Andrade disse muito bem: A palavra Minas Minas não é palavra montanhosa É palavra abissal Minas é dentro e fundo As montanhas escondem o que é Minas. No alto mais celeste, subterrânea, é galeria vertical varando o ferro para chegar ninguém sabe onde. Ninguém sabe Minas. A pedra o buriti a carranca o nevoeiro o raio selam a verdade primeira, sepultada em eras geológicas de sonho. Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas. Colo aí abaixo mais uma amostrinha disso, reles e minha, do tipo de fatos e relatos que tenho tido vontade de escrever. E... Antes que eu me esqueça: é para quando a viagem? Tribo no Brasil? Por ora, se quiserem, vale visitar o site: Descubra Minas , de onde tirei as fotos abaixo. *******
Mas o mundo não é consumição (passa-tempo) de Deus? Pois então, Ele é que obra a história da gente. Com o perdão da heresia: assistiu Ele com condolência (mudar)? Qual o quê! Eu vivia e gemia, conjuntamente, caladamente, nas duradouras vontades. No breve, só mesmo o diário, como o galo chamar o dia e o sapo se ocupar da noite. Faço anos vesperando, quando quero. Nem fosse possível diferente, em querendo. Do que vale chorar? O senhor ouça, depois o senhor pense e fale. Mas as cidades estão lá, para amparar o que conto. Sortitudes. Nem peço mérito do que não fiz de pensamento firme. Pergunte aos antigos, que não nomeio por costume, por segredo. Ofícios. Sempre primei, podia ser homem de alguém. Mas de iguais para igual eles se acusam, prazerosos, o senhor assunteie. De meu mesmo, no antes, de enxoval, tinha eram suspiros e duas mudas do de vestir. Afirmo, reafirmo e confirmo que o senhor nunca ouviu falar: Caminho de Fora. Sei se existe mais não, que no meu viver já era perdido no que tinha sido. Em menino, o pai rememorava placa, vozerio, movimento, serventia daquele lugar de meudeus. Depois foi só pasto de aluguel, o pai vigiava boiada de noite, descansando a comitiva. Mais tarde, ficou só esperando a boiada que parou de aparecer, mudados caminhos, mudados destinos. A vida foi ficando nos entremeios. Buscou a mãe, teve os meus irmão, teve eu. Nunca que apareceu mais ninguém, a gente vivia das providências, do que fazer. Dos irmão, três já tinham se ido antes de eu me ir, que homem tem as vantagens de escolher destino. Damião apareceu de perdido, pegou as rotas com o pai e se foi, mais três junto com ele. Antes, colocou os olhos em mim, eu menina, interessada no diferente. A mãe serviu café, nem pôs muito caso de eu servir, temia pelos meus fins, mais que eu, sem saber da vida um nada que fosse. Nem sabia do mundo ter tantos caminhos. Nos entendemos os dois, eu e Damião, eu sem saber do que queria nele, pois que a gente acerta também nas ignorâncias, ele sabendo muito bem do que querer em mim. Combinou de se perder na volta e perguntou se eu seguia com ele. Encabecei no afirmativo, sem pensar em nada, sem tomar conhecimento do que podia e não podia. A mãe viu tudo, eu amarrar a trouxa, mas nem se disse ali, para não ter que entrar em perguntação, alheia, bem-querente de mim. Três noites com sues dias vagamos, eu engarupada, muito em mim mesma, não sabente de destino e pouseio. O Damião. Aquele propunha prendas e rendas, só com as pupilas; jaboticabais. Eu, mel, serenava, mesmo a palmo e de transverso, na lombeira. Sem saber como o quê, o amor só me pegando, à revelia. Para quem é feio de sorte, a vida se acerta é no revés? Damião tinha que seguir viagem, depois de me deixar tutelada com a Maria dos Ventos. A fama, o coração tão grande quanto. Fez promessa, disse que voltava brevemente, com dias de poder ficar mais tempo, para consumar comigo. Eu era inocente e desassuntada, desconhecente das regras do lugar. Maria dos Ventos defendia de tudo, explicava, me punha a par das artes, nomeava o amor, o de vender. Eu, alheia, só fazia lavar, passar, varrer, cozer, misturar bebida. Nem servir eu podia, para não atentar os juízos. Tivesse o senhor sabido da minha beleza, entendia. Ouviu falar não? Eu, dita Açucena? Vezesmente ainda pego o meu nome, em rabos de conversa.
Nunca que eu tendesse, mas o Damião demorando, a vida pedindo urgências, o coração nunca que aquietava. Eu nem sabia, mas tinha minha mulheridade. Fui aprendendo lição de ter juízo, regendo de alisar a vida por fora, querendo não querendo, misturadamente. Era casa de meio se escutar e dobro se entender. Fazia quase ano desde o Damião e sem nem recado mandado. Desfiz compromisso de espera, por minha conta e satisfação, mesmo com eias e pois. Maria dos Ventos gostando, freguesia apalavrada da minha inocência, uma dinheirama. Mas ela nunca que querendo forçar, tomar decisão da minha vida. Eu pensava, repensava, tripensava, e a Maria dos Ventos negociando, prestimosa. Todo dia era véspera. Aconteceu que relanceei um, fui eu mesma: "O senhor se agrada?". Agradei eu e empacotei o coração, que daquelas coisas ele não deve saber. Era fila que formava, e eu só lá, anfitrioa, negociável, apreciativa, pernas pra lá e dinheiro pra cá, tendo do senhor o perdão do gesto. Sem ofensa, é para o que eu digo. Mas digo para que o senhor ponha comparação, para contar que gostava, aprimorava, sabente de mim, do meu valor. O Damião ficasse sabendo o que tinha perdido, fosse o caso. Mas não só. Verdadeiro? No fio da faca? Riscadinho mesmo? E de novo, sem a ofensa dos propósitos, que o senhor releve o termo mas não o sentido, ai de mim se eu não fosse eu. Deu-se então o impensável, que de inveja até já perdeu o trono um anjo. Morro Alto de Cima era o nome do lugar, e ainda o é, copiado em tudo pelos de Morro Alto de Baixo. Fio que o senhor já ouviu falar dos Louzeiro? É fama que corre as gerais e os sertões, bem pra lá de léguas do São Francisco. Apois! O Almino era o de Cima, o Alcebíades, de Baixo, pomposos, mandantes, Louzeiros, dos de Trás-os-Ventos, se não sabe. Importantes, de colherem ontem o que plantaram hoje. No dito e no feito. No mandado e no pedido. No visto e no nem. Governa cada um, nem quinhentas almas, mas capacidade têm para mais, separadamente, competindo, brigados que estão. Estiveram, estarão. Tem igreja para os decimenses, tem catedral para os debaixanos. E no inverso, rua calçada em uma, chama duas calçadas na outra uma. Aumentou ou diminuiu alma vivente para governo de um, por cargas do destino, também acontece o mesmo para o outro, os Louzeiros. Só no querer, só no jogo ganho. Nunca tem fim de conta, o senhor saiba.
Mereci preferência dos das tropas, dos passantes, dos curiosos, dos homens que sabiam de mim, nas gerais toda. Não alheie o senhor de saber que o Alcebíades não deixou por menos - soube depois, o Damião, só no olheiro, só no recrutador, de um e de outro, no meio da competição. Não fui a primeira nem a última, e só hoje sarado o dó da lembrança. Mas Deus não governa é no remexer do mundo? De correr o tempo, levando a Maria dos Ventos, governo eu, testamentada, a merecer confiança do Almino. Tem menina nova servindo os debaixanos, beldade, como poucas. Pudesse eu, soubesse voltar o tempo, fazia par. Mas não se aprende dessas artes, e por isso, vim. Venho de longe, o senhor tranquilize o pensar. O roto protege o rasgado, dou palavra, como dou fé que longe se fala nessa menina, essa da sua custódia. Vitimada, tenho a certeza do pensar. Alivio a consciência do senhor levando escondida comigo, tenho os meios. Veja bem o senhor, quem é que te rege a vida, se não a vontade? A mulher nem tinha que tomar satisfação, que soubesse de encantos para prender o homem dela. Ir tirar satisfação com a menina? Deu satisfação pro mal destino. Não pensa assim, o senhor, mais instruído do que infeliz? A menina só se defendeu, uma fatalidade. O cabo da faca não conhece o dono. Séria lá, centrada, conduzida, no bem fazer de sua profissão. A outra se deu ao ousio. Responseio dela, da menina, para o caso de o senhor fazer vistas. Problemas assim, a barbante frouxo é que se ata, pois. Pois? postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:33 AM - Comments: Quinta-feira, Maio 06, 2004 ela engomava os lenços. eram lenços de pano. o ferro deslizava neles abertos e depois dobrados. diante dos meus olhos, que, naquela altura, rasavam a tábua de engomar, o lenço transformava-se, por artes mágicas, num quadradinho. ela trazia o lenço dela entre a camisola e o punho. às vezes, o leite deixava-me bigodes brancos por cima do lábio. outras levava as mãos sujas do lápis de carvão à cara. ficavam lá impressões digitais. então ela tirava o lenço do aconchego, humedecia-o com a ponta da língua e esfregava-me a cara com ele. ter-se-á perdido o gesto, extintos que estão os lenços de pano? IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:33 PM - Comments: La chanson des vieux amants, Jacques Brel Bien sûr nous eûmes des orages Vingt ans d'amour c'est l'amour fol Mille fois tu pris ton bagage Mille fois je pris mon envol Et chaque meuble se souvient Dans cette chambre sans berceau Des éclats des vieilles tempêtes Plus rien ne ressemblait à rien Tu avais perdu le goût de l'eau Et moi celui de la conquête Mais mon amour Mon doux mon tendre mon merveilleux amour De l'aube claire jusqu'à la fin du jour Je t'aime encore tu sais je t'aime Moi je sais tous les sortilèges Tu sais tous mes envoûtements Tu m'as gardé de piège en piège Je t'ai perdue de temps en temps Bien sûr tu pris quelques amants Il fallait bien passer le temps Il faut bien que le corps exulte Finalement finalement Il nous fallut bien du talent Pour être vieux sans être adultes Oh mon amour Mon doux mon tendre mon merveilleux amour De l'aube claire jusqu'à la fin du jour Je t'aime encore tu sais je t'aime Et plus le temps nous fait cortège Et plus le temps nous fait tourment Mais n'est-ce pas le pire piège Que vivre en paix pour des amants Bien sûr tu pleures un peux moins tôt Je me déchire un peu plus tard Nous protégeons moins nos mystères On laisse moins faire le hasard On se méfie du fil de l'eau Mais c'est toujours la tendre guerre Oh mon amour Mon doux mon tendre mon merveilleux amour De l'aube claire jusqu'à la fin du jour Je t'aime encore tu sais je t'aime IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:22 PM - Comments: A coisa passa-se da seguinte maneira. vai-se lá tira-se um ticket e fica-se à espera. Espera-se mais um pouco, olha-se para aquela coisa digital lá em cima, que marca os números, calcula-se a posssibilidade de ir tomar um café. vai-se e volta-se. espera-se ainda. vêem-se entrar velhos e novos, mais feios que bonitos. tenta-se não olhar demasiado. lê-se o jornal. é-se espiado pelo vizinho do lado que finca as mãos com veemência nos impressos. oha-se o relógio não digital da moda. atende-se o telemóvel e tenta-se ser discreto. é-se chamado. fica-se nervoso e esconde-se a irritação. a menina pública faz-nos perguntas que não sabemos responder. disfarça-se. é-se corrido dali para fora, porque não temos todos os impressos. sai-se daquela coisa a desejar fumar um cigarro, que já não é fumado há anos. pensa-se no que nunca mais se fez. pensa-se em quando éramos jovens, eu e tu e corríamos pela noite e experimentávamos todas as camas. pensa-se que já passou. vai-se comprar os impressos. volta-se atrás, tira-se um ticket. miss portugal postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:04 PM - Comments:
a arte dos e-mails (a ana, nossa tribal brasuca, escreveu-nos este delicioso e-mail que não resisto a colocar aqui) Oi, Maria! Ando sumida, né? Pois é, gostei de definição de pousio, e pode ficar por essa mesmo. Acho que não é só o blog que está de pousio; eu também. Acabei o catatau do segundo livro há mais ou menos dois meses, levei para a editora e estou esperando as considerações. (...) Enquanto isso, estou escrevendo outro, de contos, tentando fazer uma homenagem ao Guimarães Rosa, que eu adoro demais. Acontece que fiquei mais de um mês andando pelos sertões de Minas Gerais, parando de cidadezinha em cidadezinha, conhecendo as gentes simples, os costumes antigos e interioranos, as crenças, o linguajar, as festas populares... Tão bom! Vontade de repetir a experiência, o que pretendo fazer logo, ainda durante a escrita destes contos. Aliás... posso te mostrar um deles? Queria muito saber a opinião das pessoas, e confio bastante na sua. Colo-o abaixo, e, quando tiver um tempinho... Ainda não reescrevi, tenho apenas colocado no papel as histórias que ouvi ou imaginei, durante as andanças. Tenho viajado bastante, que era um dos meus planos para este ano, principalmente pelas cidades aqui do interior de Minas, que tenho aprendido a admirar e ver com outros olhos, gostando cada vez mais, e algumas temporadas em São Paulo e Rio, para não virar totalmente um bicho do mato (...). Menina! Tenho aprendido coisas fantásticas, como pescar, ajuntar gado no pasto, laçar boi, montar fogo de chão e cozinhar, usar tear para fazer tapetes, tingir algodão, reconhecer planta que pode e não pode comer, e atrair pássaros e mais alguns animais, imitando os sons que fazem. Tem quem me ache louca, mas estou adorando aprender tudo isso. Vivenciar e poder contar. É mágico! Pena eu ainda não conseguir escrever tão bem quanto consigo sentir. Mas quem sabe um dia... E você, o que tem feito? Como vão as escritas? A Tribo? Prometo estar mais presente e a qualquer momento colocar alguma coisa no blog. Beijinhos a todos os tribais e um especial para você, Ana ********* ----- Original Message ----- From: "Maria Poppe" To: ana_maria_goncalves@yahoo.com.br Sent: Tuesday, May 04, 2004 6:03 AM Subject: aninha a nossa tribal brasuca! aninha, que se passa contigo mulher? onte te meteste? conta-nos os teus planos actuais, os livros que estás a escrever/rever, o que já escreveste. escreve-nos para o blog portuga já que o teu está de pousio (= interrupção da cultura por um ou mais anos para descanso da terra; terreno cuja cultura se suspendeu)! diz-nos qualquer coisa brevemente!!! beijinhos grandes grande! maria postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:31 AM - Comments: Quarta-feira, Maio 05, 2004 manifestem-se!
26.02.04, 3 mbots, tinta sobre tela, 190 x 130 cm (retrato do artista quando jovem!)
Há quem fale na morte da arte Há quem fale numa arte sem mãos, sem manufactura Há quem fale na criação de artistas e já não na criação de arte Há quem fale cheio de certezas de uma nova era, a era da "arte simbiótica" Quem fala assim é Leonel Moura Eu discordo completamente deste "manifesto" de Leonel Moura. Não me convence, porque penso-sinto exactamente o contrário. E depois, como é que se pode falar na morte da arte e continuar a falar em arte simbiótica e em artista simbiótico? Qualquer coisa não bate certo! Se nos vêm dizer que a arte acabou então viremo-nos definitivamente para os formigueiros, apreciemos a sua arte in loco, não numa qualquer tela pintada por robots que se fazem passar por verdadeiras formigas.
mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:28 PM - Comments: Terça-feira, Maio 04, 2004
Bruno Pacheco A Lisboa 20 Arte Contemporânea inaugura, no próximo dia 8 de Maio, às 16 horas, a mais recente exposição individual de Bruno Pacheco, intitulada Whatever Yuri the Hyena e outras pinturas postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:42 PM - Comments: voltus "No rosto humano, os olhos afectam-nos, não pela sua transparência expressiva, mas precisamente pelo contrário, pela sua obstinada resistência à expressão, a sua perturbação." "Olho alguém nos olhos: estes põem-se no chão (por pudor, um pudor que vem precisamente desse vazio atrás do olhar), ou então olham-me também. E eles podem olhar-me despudoradamente, exibindo o seu vazio como se por trás deles existisse um outro olho abissal que conhece esse vazio e o usa como refúgio impenetrável; ou então com um sem-pudor casto e sem reservas, permitindo que no vazio dos nossos olhares se instalem amor e palavra." (Giorgio Agamben, "A ideia de Prosa") mp ps. foi amor à primeira e à última ideia e à última ideia foi amor à primeira à primeira foi ideia e à última amor a(o) amor à ideia foi última e primeira postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:21 AM - Comments: Segunda-feira, Maio 03, 2004 Maria, Maria, et si tu n'éxistais pas... Enquanto te ris, tento escrever um poema começado por "Um pássaro levou o dedo aos lábios para que cantasses", frase que me ribomba na cabeça desde a última vez que fui a Óbidos. Vá, podes rir mais. Espero encontros tribais para breve,já que faltei ao almoço da IR por estar em Londres. A propósito, quem é que adivinha (menos o próprio) que tribal é que encontrei ontem em Alvalade? Pista: saiu triste do estádio. Besos y abrazos PC postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:32 PM - Comments: hoje estou assim, só me apetece ouvir Joe dassin, e rir, rir completamente, despreocupadamente, mesmo com tudo o que tenho por fazer, que se lixe, ... C´est la vie, Lily, ... lalalalalalarala, mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:56 PM - Comments: Domingo, Maio 02, 2004 Devo estar aqui por alguma razão, mas não me lembro qual. Tenho o porta-moedas aberto e uma nota na mão. Passam pessoas. Olham para mim enquanto andam. Vi o rapaz dos auscultadores rir-se. Hei-de parecer-lhes estranha. Sou estranha a mim própria. Não posso manter-me aqui durante muito mais tempo. Pensarão que sou louca. Eu não sou louca. Só me esqueci do motivo pelo qual estou aqui com uma nota na mão. Remexo dentro do saco que pende do meu braço esquerdo. Faço tempo. Que expressão estranha esta. Tê-la-ei inventado? Faço tempo. Como se ele me saísse das mãos. Mas acho que é assim que se costuma dizer: faço tempo, à espera que me acuda a razão de estar aqui com a nota. Nada. A minha cabeça está vazia. Oca. Como um ovo de chocolate. Ainda faço tempo. Finjo que estou à procura de moedas pequenas. Ajeito o cabelo. Passo a mão pela saia. Uma mulher pára atrás de mim. Olho para ela. Sorrio-lhe e, como ela me retribui simpaticamente, quase lhe pergunto: "Sabe porque é que eu estou aqui?" Lembro-me a tempo de que seria uma pergunta típica de um maluco. Calo-me. Outra pessoa - não sei se homem ou mulher - pára atrás da mulher que está atrás de mim. Tenho a camisa colada às costas. Tenho vergonha de suar assim. O que é que eles esperam que eu faça? Se calhar enlouqueci mesmo e sou como os bebêdos que garantem que o álcool não os afecta. "Então, isso anda ou não anda?", gritam-me. Atrás de mim devem estar agora cinco ou seis pessoas. "Se não tem trocos, saia da frente", sugerem-me. Alívio. Claro! Saio da frente. Dobro a nota e enfio-a no porta-moedas. Vou sentar-me um bocadinho naquele banco. Porque não terei pensado nisso antes? Sentei-me. A mulher simpática a quem estive para fazer a pergunta mete moedas na ranhura de uma máquina azul. Traz um bilhete na mão. Avança com decisão para uma espécie de torniquete. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:19 PM - Comments:
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