Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sexta-feira, Abril 30, 2004

Só naquele mês, Maria do Carmo comprara duas saias e dois vestidos: um vermelho, porque essa era a cor que o António mais gostava de ver sobre o corpo leitoso dela, outro preto com bolas brancas e de cintura marcada, pois o visual "retro" agradava ao Guilherme. Quanto às saias, uma era comprida, em forma de sino, marcando-lhe bem as ancas, tão elogiadas pelo Artur, e outra um bom palmo acima do joelho: o Carlos gostava de ser acompanhado por 'um bom naco'. Quando Maria do Carmo chegou a casa e abriu as portas do armário, não encontrou espaço para pendurar o vestido novo. Deixou-o em cima da cama e sentou-se na cadeira em frente. Adormeceu de imediato. Despertou-a o beijo na boca que o marido lhe deu. Caminharam os dois abraçados para a sala, onde o jantar lhes foi servido pela empregada. Naquela noite não saíram. Deitaram-se cedo. Como era habitual, Maria do Carmo aceitou o marido. Amanhã compraria outro vestido. IR

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7

Estas ruínas reservadas ao enforcamento, cumprimentam-me como espinhos cravando-se na carne. No Coliseu, vagueiam algumas sombras indolentes. Restos da História. Aperto o mundo entre os braços como se o mundo fosse uma mulher. Nua. Mas nesta latrina já não existem mulheres. Culpo os pássaros pela minha solidão, enquanto as sombras se cruzam e atropelam turistas desatentos. Culpo os pássaros que debandaram para outras vidas, outros lugares. Os pés suplicam a aventura dos dedos entre as pernas, numa sublime comunhão de imagens desfeitas à luz das cavernas. Subo a escadaria da Praça de Espanha, mergulho numa lata de cerveja e aguardo que a sede te aperte. Por hoje serei teu amigo, mas prometo trair-te amanhã. Nem que seja ao espelho.
(h)

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6

Dentro das casas há um vácuo de estrelas (sobressaem as nódoas no balcão). Vingas os dedos enquanto fumas (abanas-te tipo espanador). Violas a Gloria Gaynor com um trautear desafinado (é o álcool que te dança). Indispões o silêncio enquanto vomitas no W.C. (ninguém deu pela tua ausência). Regressas com ar de herói de guerra (és um efeito sem causa). Adoptas um estilo mais bacalhau com todos (cá para mim mijaste no tapete). Colas os olhos a uma ruga e afinas-te numa olheira (a família não te foi compensadora). Sais de mãos dadas com a sombra e consolas-te com um lugar comum (mais vale só que mal acompanhado).
(h)

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Quinta-feira, Abril 29, 2004

você gosta de música?

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Começou a subir as escadas. Movimentos simples, como aquele de levantar um pé para um degrau e assentar o outro no seguinte, tornavam-se complicados em dias assim. Os objectos rebelavam-se. A correia da mala prendera-se à maçaneta da porta da rua. Demorou a perceber porque não conseguia sair do mesmo sítio. Lançou-se com violência para a frente e logrou libertar-se. As pegas de um dos sacos do supermercado enredavam-se no mostrador minúsculo do relógio, ameaçando fazê-lo saltar da braceleta. Dias assim eram de luta desesperada. Ela recusava facilidades - entendidas como cedências -, pelo que não admitira sequer a hipótese de parar e desenlear pacientemente a correia. Tão pouco pousara o saco do supermercado a fim de libertar o relógio. Mesmo que lhe doesse o pulso. Doía-lhe. A dor era vermelha.
Ainda faltava um lanço de escadas quando pisou um atacador solto, sentindo a iminência da queda. Aproveitou o balanço para, numa corrida, vencer mais três degraus.
Cuidando de afastar bem as pernas, para não pisar o atacador outra vez, continuou a subir, até alcançar o patamar. Vencera, mesmo que a água se lhe acumulasse nos cantos exteriores dos olhos. Nessa altura ouviu um restolhar do lado de fora da janela, muito estreita, oposta à porta de entrada da sua casa. Virou a cabeça e, do outro lado do vidro, viu sombras em movimento apressado e fácil. Só então pousou os sacos do supermercado. Libertou-se também da mala.
Quando levantou o gancho que prendia o caixilho verde, o frenesim de asas cessou, ou melhor, afastou-se. Ela abriu a janela. No parapeito largo viu uma série de raminhos, depositados sem ordem aparente. Pôs-se em bicos de pés para espreitar melhor e encontrou um ovo pequeno. A casca era madrepérola. Não sabe bem quanto tempo ali esteve, como se quisesse decorá-lo. IR

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Palavras acendem a boca
Não conseguindo apagá-las
Engoles vocábulos de um trago
E letra a letra vais compondo o verbo

mp

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Quarta-feira, Abril 28, 2004

"A paixão não é, como o amor, uma experiência interior, uma experiência profunda do sujeito, mas o ponto em que o sujeito nasce da sua própria destruição, em que se apaga como substância, perante a dádiva. Na paixão, como de resto no amor (com a diferença que, no amor, o pormenor remete para uma totalidade), o pormenor desempenha um papel essencial. A paixão só se manifesta sob a forma de pormenor, só nele encontra a possibilidade de subsistir. (...)
Algo que escapa ao domínio do poder, algo que se insinua, algo sem origem. Na paixão não há distância nem sensação de ausência de distância; não porque os sujeitos estejam tão próximos que a não observam, mas porque a distância só existe entre objectos que conhecem a sua lei e entre sujeitos que se regem pela lei dos objectos (ou de outros sujeitos). (...) A paixão vive à margem da significação, à margem do combate contra qualquer espécie de caos ou de cosmos. Vive na dádiva. É a sua pura vivência. Daí que seja o exacto contrário da "relação". Uma relação entre sujeitos é um fruto do aleatório, das convenções ou da particular situação de um ou de ambos os sujeitos da relação. Não há naturalidade na relação porque é necessário mantê-la e justificá-la. A relação está sujeita à moral e, sobretudo, aos juízos morais de cada um dos elementos. Eis porque a paixão não pode ser alimentada nem construída, mas simplesmente vivida, sempre na mais absoluta plenitude, sem esforço ou cansaço.
A grande característica da situação de paixão pode, pois, ser a caracterizada como naturalidade. Porque a naturalidade é o exacto contrário da representação. Mas esta naturalidade não é, evidentemente, conquistada nem construída; não é uma outra representação nem o desprezo pelas representações, o cansaço que a representação provoca nos sujeitos (...) É a pura vivência da dádiva."
(Rui Magalhães, "Paixões e Singularidades", Angelus Novus)

mp (gosto especialmente da "ideia de paixão" de Rui Magalhães, um por-menor por-maior)

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Era uma pedra, bruta

A
Vistou
a
Voltou
a
Lapidou
a
Facetou
a
Poliu
a
Descobriu
a
Escutou
a
Lançou
a

Lançou
se

mp (não deixem de se dirigir ao ponto de encontro!)


PONTO DE ENCONTRO
25 anos de joalharia no Ar.Co
26 de Fevereiro a 30 de Maio 2004
CAMJAP: piso 1

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Terça-feira, Abril 27, 2004

achava que uma morte trágica daria sentido a uma vida monótona e rotineira. mas como ser trágico sem um palco para o ser? sem público ou palmas, olhares que a acompanhassem quando levasse a mão ao punhal? como e quando manifestar a sua tragicidade, a sua infame singularidade. ao sair do emprego, olhou a montra de um restaurante "branché" e imaginou os clientes virarem-se em uníssono à sua passagem. não aconteceu. era o que ela imaginava. para se ser trágico era preciso um certo treino. entrar a matar num restaurante e sair com a blusa salpicada de sangue não chegava. era necessário sentir-se fatal. a vida não era um filme.
miss portugal

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Segunda-feira, Abril 26, 2004


Pedro Proença

Era
um
monólogo
da
menina
que
menina
se
fazia
no
monologar
desse
lugar.
Era
uma
menina
que
entrava
na
meninice
de
ser
outra
menina,
em
guiza
de
palavra
que
se
vai
fazendo
espelho
no
ecoar
silencioso
do
estar
queda
em
sua
desditada &
desabitada
mudez.
Essa
desabitação
desabituara-nos.
E
as
causas
faziam-se
tomadas
de
inclinações
contrárias.
Deixavam-nos
encostados
a
desventuras
alheias.
Estava
com
todos
os
bens
numa
calma
florida.
Uma
calma
bem
pequena,
e
os
astros
sabiam-no
na
sua
gravidez
celeste.

mp (um amigo enviou-me em tempos este poema, e eu envio-lhe este post no ricochete de um bilhete)

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sabem o que fazem as pessoas que vivem sem sol durante quase todo o ano? quando aparece celebram-no com uma exuberância de crianças pobres à volta de um presente. desde as oito da manhã marcam lugar nas esplanadas e erguem os rostos adoradores para cima, lábios entreabertos a beber a luz, o calor. é belo celebrar o primeiro sol da primavera, como se pertencessemos aos céus cinzentos e à luz molhada dos aguaceiros.
miss portugal na estranja

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Sábado, Abril 24, 2004

Por vezes é preciso alguém fazer anos para voltarmos a estar com os amigos
Por vezes é preciso falar alto e reaprender o riso
Por vezes é preciso partilhar a petinga, o arroz de grelos, o vinho
Por vezes é preciso admirar a t-shirt verde alface florida da amiga
Por vezes é preciso alguém dizer alto "meu cabrão" como se dissesse um mimo
Por vezes é preciso ver o cabelo solto e revolto da amiga que nos habituou ao carrapito
Por vezes é preciso um almoço com a tribo!

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:14 AM - Comments:


Sexta-feira, Abril 23, 2004


um dia disse à mulher séria que umas aulas de circo lhe fariam bem. ela não me levou a sério. hoje essa mesma mulher faz anos e eu queria dar-lhe umas asas. se alguém encontrar umas à venda reserve-as para mim, independentemente do preço. MUITOS PARABÊNS IR!!!!!! A tribo espera-te para almoçar, não te atrases!

mp

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Quinta-feira, Abril 22, 2004


Cristina Lamas, pano e linha

...de noite, quando estou irrequieta, ele borda-me as margens no lençol até que sossegue.

mp

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eu tive um pai que era só bom. para o irritar apenas coisas pequenas. mexer-lhe no cabelo, mexer-lhe nos pés, ou dizer-lhe que no boletim meteorológico davam chuva para amanhã. no dia em que morreu uma ferida abriu-se-me nos olhos e desde aí nunca mais parei de chorar. cada lágrima uma palavra de falta.
mp (a imagem que se segue é para ele)

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Quarta-feira, Abril 21, 2004

sobre a revolução que se tornou evolução. de como a palavra pode mudar a história. de como uma simples letra pode desvirtuar o mundo aos olhos dos que nunca a viveram. para nós, os que éramos jovens, muito jovens na revolução ela foi alegria. espreitar pela janela e ver soldados de arma ao ombro estranhamente descontraídos. foi ver os cravos de uma beleza e força inusitadas. foi ver as gentes rirem e gritarem como pela primeira vez. a minha revolução foi correr pelas ruas como em dia de procissão e acenar aos desconhecidos, sorrir aos que nos falavam como amigos evadidos de um destino trágico. e em poucos dias soube tudo o que se passara para trás. percebi a razão dos resmungos e das injustiças que o meu pai rangia entre dentes. percebi tudo sem saber absolutamente nada. éramos alegres. no liceu abandonámos os gestos reverenciais para com os professores. nesse tempo éramos crescidos e infantis.e aprendíamos canções ferozes. canções da revolução. que cantavam feitos heróicos e nos incentivavam a denunciar,a conquistar, a sermos coisas estranhas e nunca ouvidas. foi uma revolução. não uma evolução.
miss portugal

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a caminho do alentejo, numa tarde de sol, com um campo carregado de flores, só a Geni para me encher os olhos de lágrimas. BENDITA GENI!!!!


Geni e o Zepelim
Chico Buarque

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir
Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir

Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

mp

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Segunda-feira, Abril 19, 2004

Sermos um desenho habitado
Quando via gráficos da música, pensava muitas vezes que gostaria de ouvir-ver os meus desenhos. Gravei então alguns, como é o caso desta cassete que incluí numa serie de 7 desenhos, executados com o material que utilizo habitualmente. Ao fazê-lo não tive quaisquer intenções rítmicas ou musicais, mas acolhi surpreendida a sua respiração e o seu ritmo. Foi minha intenção não fazer uma gravação descritiva de uma acção, mas sim dar a sentir o espaço em movimento entrando e estando dentro das zonas vibrantes do desenho, diluindo-nos nele e com ele formarmos um espaço físico, manipulado, dividido, cortado, vazio e cheio.

Helena Almeida

mp (para o hmbf)

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Marta Wengorovius, Conversation Piece, 2002
Impressão Digital S/papel

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a epidemia do entusiasmo
Por vezes andamos entusiasmados com certas coisas e queremos que todos à nossa volta sintam e partilhem desse entusiasmo. Queremos infectá-los com ele. E falamos alto e falamos muito, abrimos bem a boca para que os milhões de vírus e bactérias do entusiasmo se espalhem pelo ambiente. E ficamos tristes quando percebemos que isso não acontece. Que a nossa doença não é contagiosa. Sentimos uma espécie de abandono. Porque queremos morrer da doença. Mas não queremos morrer sozinhos. Até que um dia, passado muito tempo, aparece alguém, de onde menos esperávamos, e esse alguém tem a mesma expressão no olhar, o mesmo andar, a mesma boca, aberta. Os mesmos sintomas.
Afinal tínhamo-nos enganado, o vírus era muito mais resistente e obstinado do que imaginávamos. Ganhara vontade própria. Já não precisava de nós. A revolução epidémica estava a caminho. E nem fora preciso trocarmos sequer uma ideia sobre o assunto.
mp

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Sexta-feira, Abril 16, 2004

acontecia alguém segui-la no jardim. acontecia ela deixar-se seguir nesse jardim. existiam razões imensas e ponderosas para não repetir o horário dos passeios. seria mais sensato esquecer a fantasia e perder o som dos passos um pouco incertos, que a seguiam como um filho perdido. seria mais próprio da sua imagem olhar para trás com frieza e dispersar o vulto com um virar de cabeça e ondear de cabelos. seria bem melhor que ela não pensasse dia e noite no homem dos passos incertos e da voz desconhecida. desenhara-lhe o rosto, adivinhara-lhe o toque. seria bom não o confundir com o aleijado que a cumprimentava no gradeamento com um sorriso de primorosa fealdade, sussurrando: "olá, amor". seria bom que o vulto não a magoasse ao encontrá-la sozinha na alameda mais funda do jardim. as folhas da gigantesca tília lembravam-lhe a calma. tomar um chá quando chegar a casa. esquecer a medonha desilusão do vulto não se aproximar nunca. no jardim onde o bem e o mal não se misturam.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:47 PM - Comments:


espia só

idiota
E se trocássemos um ou outro elogio de vez em quando?

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:00 AM - Comments:



Cristina Lamas, azulejo

inclina, enfia, espera, apalpa, espalha, esfrega, escorre,

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:39 AM - Comments:


Quinta-feira, Abril 15, 2004

Sentou-se no banco. Exausta. Deixou escorregar as costas. O corpo dela compunha metade de um rectângulo, com os pés assentes no chão. Depois ergueu-os. Pô-los também no banco. Os joelhos formavam o pico da montanha. Desviou a cara, para que ficasse à sombra de um arbusto. Deixou as pernas ao sol. O calor parecia intensificar-se desde os tornozelos, em ondas escaldantes. A seguir dobrou as pernas e virou o rosto. Sentia o sono aproximar-se. Que bom seria poder dormir ali, à hora de almoço. Até que sentiu uma mão pequena enfiar-se na dela, entre o indicador e o polegar. Assustou-se, antes de abrir os olhos. Quando o fez viu que os olhos de quem lhe apertara a mão choravam. Aquele era um jardim. A mulher apresentou-se e disse-lhe: "Estive a tomar conta de si. Todos os que passaram a olharam. Não quis que lhe fizessem mal." A mulher disse que era timorense e estava em Portugal desde os cinco anos, agora tinha 51, "mas não pareço". Adiantou a morada do local de trabalho. "Se quiser alguma coisa, já sabe." Ela pensou: "Tanta indiferença e, ao mesmo tempo, tanto cuidado." A seguir preocupou-se: "Será assim tão evidente que estou à mercê?" Ou era a mulher que pedia ajuda e ela, sonolenta, nem reparou? IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:45 AM - Comments:


ontem fui visitar a Helena Almeida ao CCB. vi-a, ouvi-a, senti-a. e ela voou. ali. à minha frente.
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:09 AM - Comments:


Quarta-feira, Abril 14, 2004

ainda alguém se lembra de umas aulas de música na eterno retorno onde, entre outras coisas, um dos alunos se entretinha a desenhar perfis sobre pautas? Pois é, hoje recebi notícias do maestro Richard. Foi visto na catedral de Coventry a ensaiar o coro!
mp (a imagem que se segue é para o tchernignobyl)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:22 AM - Comments:


Terça-feira, Abril 13, 2004

andava uma bala perdida à procura de um corpo quando encontrou um vulto carnudo e cinzento na esquina de uma casa. Curiosa a reacção da bala. esgueirou-se , passou-lhe rente à nuca e seguiu apressadamente caminho. artur estancou entre aliviado e humilhado. pois não seria ele um corpo suficientemente bom para uma bala se cravar? andava deprimido ultimamente e esta desfeita do projéctil não lhe assentava bem. a bala queria era um cadáver por certo, dissera eu mais tarde a artur. podes estar descansado que não foi por te achar mal empregado. mas um cadáver dá mais impacto. sabes, a lividez do rosto, o fedor. sempre é outra coisa. ele não se convenceu. no dia seguinte voltou a fixar-se na mesma esquina e ela nada. não é costume as balas cruzarem duas vezes o destino de um homem. como o amor.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:40 AM - Comments:


Segunda-feira, Abril 12, 2004

Ontem, voltava de uma tarde passada com três emigrantes búlgaros, de leste como lhes chamamos. Como se todos os sotaques fossem um só e o leste ele próprio um país. A mulher deve andar na casa dos cinquentas; o homem faz cinquenta no dia de Portugal e de Camões; o rapaz ainda é novo, vinte e muito poucos. Comemos gelados e bolachas (tudo por um euro e pouco, no minipreço dos segredos), houve quem fumasse e bebesse cafés feitos numa cafeteira improvisada. Conversámos e rimos a três vozes, búlgaro, português e inglês. No riso, o sotaque encontrava-se. Para se perder de novo nas palavras. Pouco a pouco, o português começa a desabrochar. Pouco a pouco, dizem-me os três. A mulher é empregada doméstica. O homem e o rapaz estão desempregados. Um vive num albergue e o outro na rua, por opção. Gosta da farra da noite e no albergue tem horas rígidas para entrar. Mas nada disto é motivo para choros, queixumes ou azedumes. Pelo contrário, a disposição é boa. Muito boa. Deixo-os, e no regresso a casa passo pela livraria à procura de uns livros. Trago o último Manuel de Freitas para casa. Alguns blues mais tarde percebo-lhe um dos versos:
página a página nos matamos
- portugueses, suaves, tão concretos.

Bem vindos a Portugal P., D. e E.! ensinem-nos de novo a navegar. Mais felizes. Mais vivos. Embora e sempre à mercê de um verso, que é nosso fado.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:00 PM - Comments:


"espia só"
ela mesma no blogue branco

mp (um blog onde um daltónico não erra a cor, :))

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:18 PM - Comments:


cometi amor e outros crimes

(está escrito num pedaço de papel que alguém deixou esquecido em minha casa. eu trocava tudo o que escrevi até hoje por esta frase. ela comporta tudo. o fundo informulado de uma vida.)
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:48 AM - Comments:


OFICINAS CAIS
EXPOSIÇÃO DE TRABALHOS E
LANÇAMENTO DA REVISTA CAIS DE ABRIL




DIA 18 DE ABRIL
Domingo, das 10 às 18
Livraria Ler Devagar, ao Bairro Alto


O que irá acontecer durante o dia de Domingo na Ler Devagar:
10:00 - 11:00 - Yoga
11:00 - 13:00 - Dança
13:00 - 14:00 - (intervalo)
14:00 - 16:00 - Dar Vida às Sombras (pintura)
16:00 - 16:30 - Lançamento da Revista
16:30 - 18:30 - Códigos de Linguagem
(entre as 10:00 e as 18:30 o MEF, Movimento de Expressão Fotográfica, irá dar uma oficina de Fotografia Digital, à descoberta do que se passa dentro e fora da livraria)

As Oficinas são gratuitas e abertas a todo o público que queira experimentar estas actividades, independentemente da idade. Crianças, adultos, contamos com todos!


postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:52 AM - Comments:


Domingo, Abril 11, 2004


Rui Moreira

- Às vezes penso que somos linhas rectas, paralelas, quanto muito chegadas, mas paralelas. Mas depois penso que terá de haver uma razão para o símbolo do amor ser a cruz.

mp (para o companheiro secreto Tolentino)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:28 PM - Comments:


Quinta-feira, Abril 08, 2004

A TRIBO PARIU UM OVO e foi de férias (anda a monte, ...)

UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS, da mp, ib, ir, (h), pc, miss portugal, ...

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:00 AM - Comments:



João Queiroz

5
Crianças feitas de madrugada numa praça de estátuas vivas. Junkies deitados em bancos de jardim, marcados por facas esquecidas no coração da pedra. «A cidade seguir-te-á.» Tatuagens sem alma, obrigando as veias a uma última inspiração. Campos de terra recortam às postas a distância que vai das pálpebras ao incêndio das arcádias. «A cidade seguir-te-á.» Prédios bravos percorrem as últimas conquistas com os braços abertos à concepção. Suportam o peso da guerra. O tempo das pedras é diferente do nosso, constatas. Todas as pedras possuem uma canção por dentro que aguarda uma voz. «A cidade seguir-te-á.» Como uma sombra. Até que chegues ao campo. Para aí montares a tua tenda e fazeres da noite um banho de luz. Para aí rasgares a terra com os braços. E transformares os dedos em pequenas raízes que te ligarão para sempre à respiração do mundo.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:30 AM - Comments:


Quarta-feira, Abril 07, 2004

sempre desconfiei das pessoas que não sonham.ou mentem. ou não mentem e são coitadas. coitadas das pessoas que não sonham às cores e que descobrem nos sonhos que a luz não está nas coisas, mas no mar. sonhei que caía no fundo do mar. gritei, abri muita a boca, sem som. mas estava a urrar, eu sei, porque doía o estômago e a garganta de tanto rasgar a voz. e fiquei a cair durante muito tempo. sentia que tinha parado a cair. eu era a queda. e como por encanto comecei a gostar de ir para o abismo. e dentro de mim ouvia a certeza de que o fundo do mar era confortável e dava prazer. estava quase a lá chegar e perdera o medo. o líquido rodeava-me e eu rolava sobre mim e sobre o mar, dentro de mim e dentro do mar. e éramos só um e o fundo do mar era a minha casa. estava quase a chegar, quando soube que não podia respirar dentro de água. se ao menos não soubesse isso. e esse conhecimento deu-me medo. aterrorrizada subi rapidamente, fugindo do fundo do mar. afastei os lençóis e saltei da cama. respirei fundo. tinha fugido de mim. tinha virado as costas ao fundo do mar.
miss portugal

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:39 AM - Comments:


- Outro dia, no cinema, presenciei um encontro aquático. A beleza toda estava no silêncio que os rodeava e não só. Na luz e não só. Na rarefacção do ar e não só. E escrevi no meu pequeno bloco de notas. A água é o céu que Deus nos deu para voar. mp


Bruno Pacheco

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:15 AM - Comments:


Pensar o espaço de leitura como um ventre de insecto fêmea.

Um pequeno saco. Aquecido. Confortável. Despojado.

Para não quebrar a atenção.

De quem lê.

Pensar o leitor como um ente vivo.

Pensar quem lê e quem escreve como receptáculos vazios.

Prontos a receberem.

O fim último.

A fecundação.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:10 AM - Comments:


Terça-feira, Abril 06, 2004



para o meu irmão, o construtor de experiências

quando atacaste o piano. assustei-me. nunca te tinha ouvido tocar. tenho sempre medo quando te assisto. porque sei que tudo será diferente. que experimentarás o novo. que rasgarás o esperado. ao encontro do inesperado. e tenho medo que falhes nesse inesperado. então tu ensinaste-me que o importante são as experiências. mesmo que falhadas. que hoje destruimos a experiência, como começa por dizer o filósofo num dos seus livros. e eu experimentei escrever-te estas palavras. falhadas.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:35 AM - Comments:


Segunda-feira, Abril 05, 2004

- E eu que ia jurar que tínhamos visto o mesmo filme!

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:15 PM - Comments:


Domingo, Abril 04, 2004


Bruno Pacheco

- Outro dia, no cinema, presenciei um encontro terrestre. Uma estreita e comprida alameda de plátanos com as folhas queimadas pelo sol de verão. Era Outono, e ela percorria-a. Descalça. Com a naturalidade de quem não sabe que é vigiado. Os braços soltos acompanhavam os movimentos do corpo criando uma cadência precisa. Iria jurar que com a ponta dos dedos lhe enviava mensagens através do ar. Às quais ele respondia iniciando a sua caminhada. Cruzaram-se no centro da Alameda. E nem um olhar foi preciso para ficarem unidos para sempre.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:59 PM - Comments:


não te aproximes. pode apetecer aos meus braços e às minhas mãos a tua pele. posso querê-la no espaço que criarei entre as minhas unhas e a carne dos meus dedos.
fugitivo

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:28 AM - Comments:



Hugo Canoilas

há um círculo de luz sobre os escombros.
Aquele que abriu a porta e caminhou diante de nós sabe-o.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:23 AM - Comments:


- Ainda não percebi se é a escrita que me leva ou se sou eu que levo a escrita. Mas preferia ser enganada do que enganar.
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:51 AM - Comments:


Sábado, Abril 03, 2004


Nuno Martinho

- Onde, afinal, o sítio sossegado do verão? Pergunto aos teus olhos perdidos no mar porque só eles esbarram de frente contra a cameleira cheia de cheiro e flor. Leio Ternstroemiacease e tento perceber como é que a ternura foi ali parar. Arranco uma camélia e dou-ta.

- Entrei na tua cor amarela e o verão todo entrou por mim adentro. E sosseguei. Pela primeira vez soube da cor e da forma do sossego.

- Não sabia dentro de mim a estação do sossego. Se não fosses tu nunca a teria descoberto. Porque o teu sossego é o meu. Era isto que te queria dizer.

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:15 AM - Comments:


Sexta-feira, Abril 02, 2004

não foi propriamente a teatro que assisti ontem. deram-me a ver qualquer outra coisa. ainda não sei bem o quê. sei apenas que nos aproxima. é centrípeda. não me interessa nada romantizar a perturbação psíquica. creio que o sofrimento - seja de que tipo for - nada tem de interessante. existe. melhor seria que não. adiante. certo é que preparar uma peça faz bem aos elementos do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos. disseram eles. cada um desconhece a patologia do outro. também desconheço as dos que me rodeiam. começo a preferir que seja assim. dou por mim, às vezes, a procurar pessoas que sejam lugares de descanso. nenhuma é. não há lugares de descanso. menos ainda dentro nós próprios. malucos ou não. capazes de decorar o texto ou com necessidade absoluta de um ponto. "just say me the words and I will repeat them". tordos à deriva. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:51 AM - Comments:


Há estigmas difíceis de apagar. O estigma do Júlio de Matos é um deles. Hospital de malucos. Ouvimos o nome e imediatamente a palavra maluco surge. Como se fossem inseparáveis, e temos de ser nós, a posteriori, a repudiá-la. Ainda ontem, enquanto assistia a uma peça do Grupo de Teatro Terapêutico deste Hospital, uma estudante universitária atrás de mim comentava com outra: "então, quando é que aparecem os malucos?". Primeiro fiquei chocada, mas, depois de pensar melhor, o que ela disse é o que todos nós calamos. Por isso é urgente ir ao Hospital Júlio de Matos. É urgente olharmos os "malucos" olhos nos olhos para deixarmos de pensar nestas pessoas como tal. É urgente abandonarmos este estigma. Este e todos os outros. Que desviam pessoas do caminho. Como dizia Zorzo, um dos personagens, "os meus pais são gigantones, até a sombra deles me oprime" e, mais à frente, "temos de compreender que ninguém é maior ou menor do que nós".
Se puderem, não percam a peça "Tordos à Deriva" (Salão Nobre do Hospital Júlio de Matos, 5ªs e 6ªs feiras às 21:30, até 30 de Abril). Há muito tempo que não experienciava algo tão forte e tão tocante.
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:45 AM - Comments:


4
O verão instalou-se na cidade. Na Praça de São Marcos, as pessoas passeiam com a alegria das novas estações estampada no rosto. Algumas, exibem-se nas montras recuperando o segredo de um sorriso. Outras, dissimulam uma tristeza conformada, de carteiras vazias. Vestem-se de roupas há muito lavadas a naftalina. É verdade que oito vidas perecem para que uma resista. Mas que importância dar às estatísticas perante o olhar indulgente do gondoleiro? Ademais, as ramelas nos olhos dos pombos com abrigo incerto lucilam como estrelas dependuradas num rosto de breu. Há também raparigas vestindo esgares de pluma e calçando botas de borracha preta. Um xaile da cor dos cabelos e uma olheira a sorrir. Corto a Praça fustigando imagens. De braços abertos, como se voasse, olvido por instantes esta infeliz condenação do tempo. O verão instalou-se na cidade. Venha o outono.
(h)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:50 AM - Comments:


Quinta-feira, Abril 01, 2004

Perdendo o meu latim

O quid pro quo do existir
É o sine qua non do ser
O quo vadis da vida
É o alea jacta est do amor

Tudo isto me faz rir
Quando penso em renascer
Mas se o decidir, querida,
Vem comigo por favor

pc

PS: Atenção, que já estão à venda os bilhetes para a Festa da Música.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:22 PM - Comments:


ainda faz sentido pintar murais em 2004? nikias skapinakis acha que sim. ao chiado entre a certeza das paredes de uma companhia de seguros transvestida em galeria, há murais onde nos podemos enrolar. murais que são maiores do que as pessoas e melhores, e mais belos. e nos fazem querer revirar o mundo.
ib

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:34 AM - Comments:



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