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Palavras da Tribo
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As primeiras, as segundas e todas as palavras Terça-feira, Dezembro 30, 2003 olhou o seu filho. era perfeito. era belo e quente. era mole e fazia barulhos bem audíveis. aquecia-lhe os braços. deixou de ter frio de noite. agarrava-o para se aquecer. ensina-me a amar-te, dizia-lhe ao ouvido. ensina-me a amar-te. ib, fim postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:12 PM - Comments: a criança crescia dentro dela. como um bolo com fermento. crescia no forno e nada a faria parar. ela tomava comprimidos, mais e mais comprimidos para não ouvir a música lá fora, os anúncios com as caras felizes de desconhecidos que tinham tudo. porra, e ela nada.sentiu dores, por dentro por fora. gritou de medo e de raiva porque era fraca e estava sozinha e a criança crescia. e ela não a sabia ter.porra. ensina-me a ter-te, gritava e agarrava o ventre com as mãos em garra. ensina-me a ter-te. ib, conto de natal 2 postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:06 PM - Comments: Sexta-feira, Dezembro 26, 2003 Eu também quero ir de burro. Mesmo se não sei como se ajaeza à andaluza. Sequer como se há-de equilibrar o esquife na albarda. Mas no fim gostava que um me levasse. Porque no princípio havia a burra Bonita. Era castanha. Não me lembro se era esta a única cor dela ou se no espaço entre os olhos - aquele onde eu mais gostava de dar festinhas e só chegava em bicos de pés - haveria uma mancha branca. A Bonita carregava as crianças, às três e às quatro, até à ribeira nos dias de muito calor. Balançava-as. Os cascos faziam barulho sobre as pedras irregulares da calçada. Eu deitava-me sobre o pescoço dela e abraçava-o. Não era medo. Era amor pela Bonita. Quando chegávamos, que me importavam os banhos, os peixinhos transparentes em volta dos tornozelos, as correrias dos primos e primas, 'não me apanhas, não me apanhas'? Que me importavam, se era tão bom espreitar o mundo a partir de uma burra Bonita. E tê-la só para mim. IR
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:50 PM - Comments: Fim Mário de Sá Carneiro "Quando eu morrer batam em latas, Rompam aos saltos e aos pinotes, Façam estalar no ar chicotes, Chamem palhaços e acrobatas! Que o meu caixão vá sobre um burro Ajaezado à andaluza... A um morto nada se recusa, Eu quero por força ir de burro." postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:52 PM - Comments:
Elephant - Gus Van Sant Não há explicação. Não há critério. Não podem sê-lo a beleza natural nem a limpeza dos corredores, a perder de vista, calcorreados por adolescentes de bom aspecto. Qual é a explicação? Não há-de ser a música de Beethoven, nem o documentário sobre Hitler que passa na tv sem que lhe prestem muita atenção. Como se explica um filme assim? Não se explica? Como não se explica, embora se pressinta, um acto assim (?) O Duarte perguntava-me: "Reparaste que só aqueles que exprimem as emoções sobrevivem?" IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:56 PM - Comments: Estendeu a massa em cima do balcão e deu-lhe três cortes com a faca. O som do aço sobre o mármore fez com que encolhesse a cabeça entre os ombros. Não tinha sido um arrepio, porque não sentira frio. Antes repulsa. Há muito que repetia os gestos de arrancar bolas imperfeitas à massa de ovos e farinha, aplaná-las com a ajuda do rolo de madeira, retalhá-las, descolá-las do balcão e deitá-las com cuidado maternal no óleo ardente. Virava a massa esticada com um garfo e também com ele deixava-a pendurada, a escorrer - sólida, num tom quase castanho - sobre a frigideira. Atirava-a então para o alguidar das já feitas. Estava ali desde manhã bem cedo. Escurecera. A família chegou dava ela o terceiro golpe na massa estendida. Àquela já não a pôde deitar na frigideira. Sentiu que alguém lhe lavava demoradamente as mãos. Mas mantinham-se resquícios de farinha entre os dedos dela. Sentiu que a sentavam. Que lhe tinham reservado o lugar da cabeceira. Quando a aproximaram da mesa, empurraram com o pé um entre muitos alguidares de filhós que cobriam o chão da sala. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:35 AM - Comments: Terça-feira, Dezembro 23, 2003 Era. Uma. Estrela. Miriógona. Colonizada por minúsculos losangos espelhados. Surgia durante o Advento e. Arrefecia o resto do ano aconchegada em papel de jornal. Só ela parecia reparar naquele receptáculo. Estava à sua altura. No pico de um Abeto. Olhava-lhe nos olhos e o que sugava projectava radiosamente naqueles que alcançava. Um raio de luz ardente. Perfurava a fronte de cada um dos pequenos habitantes daquele lar. De abandonados. Do Líquido. Miúdas caixas cranianas. Que se lhe abriam. E um caleidoscópio de cores, sons, cheiros e formas preenchia então o sono daqueles sôfregos infantes. - Escorregar nos teus acordes melódicos, baloiçar nos teus tenros braços, deter-te em bombom no céu da boca, beijar-te nos beijos que me dás afagando-nos. Se soubesses quanto gosto de ti. Mãe. Queria-te sempre. Sempre. Por isso as noites eram melhores do que os seus dias. Era. Uma. Lâmpada. Eléctrica. Apaixonada. A quem o Astro Rei dava o lugar antes de se deitar e. Arrefecia com o despertar da luz do dia. da mp, um Santo e silencioso Natal para todas e todos postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:12 AM - Comments: Domingo, Dezembro 21, 2003 estava a crescer dentro dela. não se lembrava de porquê crescia assim. não se lembrava mesmo do dia em que se deitara com o pai da criança. afinal quem era ele? lembrava-se sim de noites em que se ria demasiado, em que conhecia demasiadas pessoas, sem querer. e depois de manhã acordava a estranhar tudo: pessoas, corpos, copos, piadas. mas dentro dela, como uma companhia sempiterna asegurar-lhe a mão e a tirar-lhe o medo, estava ele. a crescer e a fazer-se maior e mais capaz de a proteger. ib, conto de natal, parte I postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:22 AM - Comments: Sexta-feira, Dezembro 19, 2003 CONXERTO PÓS NATALÍCIO MÚSICA DE PEDRO PROENÇA NOVE XANGAS 11-12-2003 gostámos muito do que ouvimos!!! que pena não sabermos colocar música no blog! segundo apurámos junto do compositor, brevemente teremos disponível todo um alpha-beto de xangas! mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:00 AM - Comments:
Rui Patacho postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:45 AM - Comments: Quinta-feira, Dezembro 18, 2003 - tinha medo de morrer a minha avó - a minha acho que não, as últimas imagens que tenho dela eram bastante sorridentes, mesmo que envolta em tubos que lhe entravam pela boca, pelo nariz, cobrindo partes da face. Tenho uma fotografia dela assim mesmo. desfigurada pelos tubos. mas a sorrir. - e foi, sem o saber, a minha «musa distraída». - e a minha também. Quem tem mãe tem tudo, dizem, e quem tem avó? Dia 26 de Dezembro faria 95 anos, ainda festejámos os 90. Está num pequeno cemitério em Sintra, junto ao meu avô. no alto de uma colina. Deixámo-la à janela. a olhar por nós. como sempre o fez. (à conversa com Manuel de Freitas "Beau Séjour") mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:22 PM - Comments: O Menino em palhas deitado trouxe-me à memória outro Menino, o do Bairro Negro, cantado por José Afonso: "Olha o sol que vai nascendo Anda ver o mar Os meninos vão correndo Ver o sol chegar Menino sem condição Irmão de todos os nus Tira os olhos do chão Vem ver a luz Menino do mal trajar Um novo dia lá vem Só quem souber cantar Vira também Negro bairro negro Bairro negro Onde não há pão Não há sossego Menino pobre o teu lar Queira ou não queira o papão Há-de um dia cantar Esta canção" postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:11 PM - Comments: NA MORTE DE MARILYN Morreu a mais bela mulher do mundo tão bela que não só era assim bela como mais que chamar-lhe Marilyn devíamos mas era reservar apenas para ela o seco sóbrio nome de mulher em vez de Marilyn dizer mulher Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher mas ingeriu demasiado barbitúricos uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha ou suspeitou que tinha errado a vida ela de quem a vida a bem dizer não era digna e que exibia vida mesmo quando a suprimia Não havia no mundo uma mulher mais bela mas essa mulher um dia dispôs do direito ao uso e ao abuso de ser bela e decidiu de vez não mais o ser nem doravante ser sequer mulher O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor um rosto sem regresso mais que rosto mar e toda a confusão e convulsão que nele possa caber e toda a violência e voz que num restrito rosto possa o máximo mar imensamente condensar Tomou todos os tubos que tinha e não tinha e disse à governanta não me acorde amanhã estou cansada e necessito de dormir estou cansada e é preciso eu descansar Nunca ninguém foi tão amado como ela nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão Era mulher era a mulher mais bela mas não há coisa alguma que fazer se certo dia a mão da solidão é pedra em nosso peito Perto de Marylin havia aqueles comprimidos seriam solução sentiu na mão a mãe estava tão sozinha que pensou que não a amavam que todos afinal a utilizavam que viam por trás dela a mais comum imagem dela a cara o corpo de mulher que urge adjectivar mesmo que seja bela o adjectivo a empregar que em vez de ser um todo se decida dissecar analisar partir multiplicar em partes Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha julgou que a não amavam todo o tempo como que parou quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva um segundo bastou foi só estender a mão e então o tempo sim foi coisa que passou (Ruy Belo solidário com o companheiro secreto joão) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:09 AM - Comments: Quarta-feira, Dezembro 17, 2003 "The best things happen while we dance", mas o cenário não é hollywoodesco. O meu corpo passa sem música quando lhe dá a vontade de autonomia. Afinal, porque estão os meus pés a desenhar parece-me que sucessivas letras "V" sobre o rectângulo de sol que atravessa a janela? E porque acabo de pegar na saia e me atrevo a girar em torno de mim própria? Agora são os braços que decidem afastar-se do tronco e a mão dança sozinha, a rodar pelo pulso. Os dedos esticam-se e dobram-se sobre a palma - ignoram a mão, que não faz caso do braço. A mão está e não está ligada a ele. Não te assustes, penso. A dança não é harmonia. Nada é e mesmo assim "the best things happen..." IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:59 PM - Comments: apetecia-me dançar e cantar. e escrever um conto de natal. agora vou-me embora durante uns tempos e volto de conto às costas. prometo. ib, a que promete postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:03 PM - Comments:
Ainda hoje - e foi ontem a experiência - me volteia em frente dos olhos aquela gente irrequieta que permanentemente cruza, faz, desfaz e refaz o "hall" do Hotel Confidence, em "O Bobo e a sua mullher esta noite na Pancomedia", em cena no Teatro Aberto. As personagens movimentam-se tanto com tão pouco propósito que, como suspeita uma delas, talvez sejam, elas e nós, criações de Aristófanes incapazes de abandonar a comédia. Acompanham-nas em tais trejeitos as transformações de cenário e, enquanto decorrem estas, uma música rapidamente martelada. Quantas pessoas passam pelo "hall" do hotel? Pois não saberei dizer. Apenas que, por muitas que sejam, o "shuttle" que as põe em contacto já não funciona. Esta do "shuttle", deixem-me dizer-vos, é parte da teoria de um dos artistas das "novas/velhas" variedades, para quem o dito veículo funciona três vez por dia - quando se diz ao outro "bom dia", "boa tarde" e "boa noite". E qual é a história? A de uma jovem escritora e do seu (ou não seu) editor, que sente a falta da boa literatura às costas, mau grado a falta de jeito para o negócio. Transporta-la, à literatura, numa mochila e quando se vê forçado a abandonar a dita, sente a falta do peso. Um dos artistas de variedades, no género clownesco, afirma que, antes de se conhecerem os dois, de chapelinho de coco na cabeça, já não gostavam um do outro. Cá para mim, dizem-no só para se irritarem. Penso até que, entre eles, o "shuttle" ainda não se imobilizou totalmente. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:26 AM - Comments: para a IB uma canção de natal bem portuguesa (portuguesas portuguesas não conheço muitas mais!) NATAL DE ELVAS Olhei para o céu, estava estrelado Vi o Deus-Menino em palhas deitado Em palhas deitado, em palhas esquecido Filho de uma rosa, de um cravo nascido Estas as palavras disse a virgem Ai quando nasceu o menino Ai vinde cá meu anjo loiro Meu sacramento divino Eu hei-de dar ao Menino Uma fitinha p`ró chapéu E ele também me há-de dar Um lugarzinho no céu postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:52 AM - Comments: Mais um baile e, desta vez, Mirandês
VI Rezoza Animaçon cun gueiteiros pula nuite drento Fonte da Aldeia, Miranda do Douro, 21 de Dezembro de 2003 Pelo 6º ano consecutivo realiza-se o Rezoza, em Fonte da Aldeia, Miranda do Douro - este ano especialmente dedicado ao baile Mirandês. A não perder, no dia 21 de Dezembro, durante toda a tarde e pela noite dentro. (ler mais informações aqui) mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:17 AM - Comments: Terça-feira, Dezembro 16, 2003
há discos memoráveis, este é um deles para além do disco, o grupo At tambur tem uma das melhores páginas portuguesas de música na net (aqui) e ainda anima bailes! o próximo baile em Lisboa é dia 22 de Dezembro às 22:00, no espaço Santiago Alquimista (eu e o ruivo vamos já procurar no mapa onde fica, diz a nina, bailes é connosco>! Ah!, aqui está, junto ao Miradouro de Stª Luzia, Rua de Santiago 19). mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:33 PM - Comments: para a IR
the_nannish_one enquanto a dona se esfalfava a ganhar o pão nosso ..., a nina abria a janela e deixava o amigo ruivo entrar. em cima da bancada, debruçados sobre o mapa da cidade, planeam a próxima investida aos telhados do bairro. quem não gostaria de ser gato e gata nas alturas! mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:00 PM - Comments: vamos lá deixar de tapar o sol com a peneira. primeiro, há pouco sol e depois. depois, o que é uma peneira? temos de ser corajosos, vamos lá falar sobre o Natal, do natal. ou melhor. vamos falar com o natal. estou sim? digo eu. quem fala? responde -me um voz grave muito ao longe.percebi logo que era ele. era o vermelho na voz. inconfundível. não vos vou contar o que se passou. o natal ainda ficou um tempo a ouvir-me. depois desligou. ib, dlim dlom postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:36 PM - Comments: ![]()
Anya Gallaccio "because I could not stop", 2000 um dia ela forrou uma montra com milhares de gerberas, um dia ela fez uma instalação com rosas um dia ela cobriu as paredes de um espaço com chocolate um dia ela construiu um cubo de gelo de trinta e quatro toneladas numa antiga bomba de gasolina um dia ela copiou o motivo de um tapete encontrado no arquivo de uma fábrica e recriou-o com folhas no chão de uma casa um dia as gerberas e as rosas murcharam, o chocolate apodreceu, o gelo derreteu, as folhas perderam o viço e encarquilharam, ... because she could not stop mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:52 AM - Comments: Segunda-feira, Dezembro 15, 2003 um grupo é um grupo. pois. e com um grupo não se brinca. pois.um grupo não é uma soma de pessoas. simpáticas e prestáveis. não é não. as pessoas boas, simpáticas e prestáveis dissolvem-se no grupo. pois é. então qual é a piada do grupo. perguntava-se ao sair do duche, com vapor de água a cobri-la como um nevoeiro de dúvidas. limpou-se rapidamente. é perigoso tirarem-se conclusões molhadas. ib, pois postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:45 AM - Comments: Sexta-feira, Dezembro 12, 2003 Comia depressa e ainda com a maçã por mastigar na boca ia jogar ao elástico esticado nos ladrilhos da cozinha. O elástico era o fio de argamassa entre eles. Ela começava com um pé fora e outro dentro do rectângulo, depois os dois dentro e de novo um dentro e outro fora, antes de os juntar aí. Recomeçava, ofegante... "e um e dois e três." Se acontecia cansar-se do elástico, puxava uma perna para trás e, ao pé coxinho, simulava atirar uma pedrinha para o quadrado a desenhar-se onde acabava a ponta do sapato. Saltava para o quadrado seguinte, para o seguinte e depois abria as pernas em tesoura. Voltava a saltar num só pé, repetia a tesoura, voltava para trás, sempre sem pisar o risco. Mesmo que ninguém lhe chamasse a atenção, agarrava a pedrinha com o cuidado de que a mão esquerda não tocasse os ladrilhos. "Já está. Agora... atirar para o outro quadrado." Quando o telejornal acabou, o homem foi buscar um copo de água à cozinha e viu-a - à mulher encorpada com uma bata às florinhas azuis sobre uns collants de malha, equilibrada num só pé, o chinelo quase a cair-lhe do outro. Toda ela tremia com o esforço de inclinar-se até ao chão, como se quisesse apanhar o que o ele não via. "Que raio estás a fazer?", deve ter-lhe perguntado, ignorante como era dos jogos do elástico e da macaca. O som da voz dele desconcertou-a. Olhou para o homem. O movimento da cabeça obrigou-a a tocar o chão com os dedos e, a seguir, como que levado por eles, caiu-lhe o corpo. Arastou-se até aos armários pintados de amarelo e deu um encontrão ao homem quando ele tentou levantá-la. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:44 PM - Comments: Um dia entro-lhe em casa - tenho a chave -, apanho-o a dormir e abraço-o. Ando a gizar o plano há tempos. Conclui que tem mesmo de ser assim - de surpresa. Se tentarmos conversar antes, e já não o fazemos há tanto tempo que as palavras hão-de recusar-se, ele pode mexer-se e afastar-se. Havia de sentir-me ridícula a persegui-lo com os braços estendidos, como ele fazia quando eu era miúda endiabrada e queria castigar-me. Mas eu não quero correr atrás dele à volta da mesa da cozinha. Tão pouco castigá-lo. Por isso, um dia abro a porta com muito cuidado, caminho sobre as pontas dos pés, para que o barulho dos tacões o não acorde, ponho um joelho na cama onde dormirá e agarro-o. Assim. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:04 AM - Comments:
Catarina Tavares postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:05 AM - Comments: Quinta-feira, Dezembro 11, 2003 Para o companheiro secreto jtm Por uma questão de falta de tempo, tive de reaprender a posição de leitura. Das tradicionais posturas sentada e deitada, fui, aos poucos, habituando o corpo à leitura em pé, a andar, enquanto percorro a cidade, de casa para o trabalho e vice-versa. Até que um dia, estava de tal forma embrenhada na leitura do último livro de poesia de José Tolentino Mendonça, que me aventurei a atravessar a rua sem o parar e olhar para um lado, para o outro. Por respeito à leitura, desrespeitei as regras de trânsito de todo o peão que se preza e, por um triz, ia sendo abalroada por um veículo leve. De imediato fechei o livro e mentalmente desenhei o verso: Morrer atropelada com um livro de poesia na mão aberto numa página ao acaso que seja toda a minha vida que seja de igual para igual mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:30 PM - Comments: de como os estúpidos e molengões podem exercer domínio sobre os mais sérios e sabedores. de como esse domínio não tem de ser (quase nunca é) directo. de como pode exercer-se com palmadinhas nas costas e promessas de amizade e promoções atiradas a quem delas precisa desesperadamente. (ou nem tanto) e de como quem domina é, afinal, tão digno de dó. porque, tratando-se de uma peça de teatro - "Audiência", seguida de "Vernissage", no Teatro Nacional D. Maria II -, o chefe cervejeiro diz, no final, a verdade sobre si. os chefes seus irmãos do dia-a-dia calar-se-iam. manteriam as máscaras. o humano trágico e cómico em frente dos olhos, a girar, a encenação assim o permite, em frente dos olhos. quanto a "Vernissage", meus muito amigos "eu sei que vocês não gostam de ouvir isto", mas nós só queremos ajudar-vos. por isso dizemos: a vossa vida corre mal. não presta. para que o constatem, basta que olhem para a nossa, tão organizada, tão perfeita. vejam como a nossa casa está bem arranjada. como a minha esposa é bonita e o meu marido um excelente pai. e vejam como é fantástico o amor que fazemos. todos os dias! como o nosso uísque é maravilhoso. e que dizer dos nossos discos da Suíça e do descascador automático de amêndoas? mas onde ides, meus amigos? não partais já. não partais! ficai por favor! porque não existimos sem espectadores e vós, na vossa maneira tão desinteressante de existir, sois presença mais do que necessária. calados assim, sem disposição para argumentar, sois insubstituíveis termos de comparação! voltai! não nos deixeis aqui, sem nada. ou com isto tudo. "Audiência/Vernissage", de Vaclav Havel. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:56 PM - Comments:
Miguel Branco postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:45 AM - Comments: I Perguntas porque escrevo Digo que te escrevo Perguntas porque desenho Digo que te desenho Perguntas por quem espero Digo que te espero e dizer-te isto é dizer que te amo querendo dizer que te minto II « Au-delà des mots il n´y a que bête » Como se transcrevesse um celebrado autor francês (que se calhar faço sem saber aquele que não li) III Não te aproximes IV Confesso V Não tenho nada para te oferecer VI Nem mesmo um corpo VII Houve um tempo VIII Houve um espaço IX Houvesse um nome X Ouvisse o-poeta-mal-dito postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:29 AM - Comments: Quarta-feira, Dezembro 10, 2003 e ao sétimo dia ele não bateu à porta. havia um cheirinho a queimado na escada. ela achou que seria o apocalipse. ou a criação do mundo. ou ambos. talvez o fim do mundo. sem ele. ib, a sentada postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:11 AM - Comments: Terça-feira, Dezembro 09, 2003 era alguém à porta. levantou-se com custo. dirigiu-se para a porta.perguntou"quem é" sabendo de antemão que ninguém lhe iria responder.ninguém lhe respondeu. as portas não estão feitas para se falar através delas. devem ser abertas como bocas a comer pedaços de castanha quentes, bem abertas para não escaldar. abriu então a porta e ele lá estava a fitá-la. o que lhe pareceu estranho a ela não era o seu olhar fixo e inexpressivo. era a coincidência de há três dias lhe bater à porta, ela abrir, ele fitá-la e ela fechar de novo, depois de dizer cerimoniosamente com licença. ib, a sentada postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:44 PM - Comments: LIVROS PARA O NATAL "As Primeiras Palavras da Tribo" (stock limitado) "As Segundas Palavras da Tribo" (à venda nas melhores livrarias do país) há há há (estas não são gargalhadas irónicas!!!! mas o bafo quente do pai natal) postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:06 AM - Comments: Segunda-feira, Dezembro 08, 2003 O sapato da Bela adormeSilva
Bela Silva S/ Título 2000 Cerâmica 16cm x 38cm x 15cm postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:48 PM - Comments: Sexta-feira, Dezembro 05, 2003 "Tenho a estranha memória de atravessar a rua e ouvir dois cegos dizer: 'É belo, este filme.' Depois, um outro cego disse-me: 'Vi tudo vermelho esta manhã". As palavras são, de novo, (desculpem lá) de Sophie Calle, que, no trabalho "Les Aveugles", fotografou cegos e aquilo a que associam a beleza visual. "O cabelo da minha mãe", disse-lhe uma criança. "O meu filho", respondeu-lhe um pai, afirmando tê-lo visto caminhar na sua direcção, certa noite, num sonho. "O verde", escolheu outro, creio que também menino ainda, justificando: "Tudo aquilo de que gosto parece ser verde. A minha camisola preferida, as árvores..." "O mar", "os trabalhos de Rodin", "o dia do meu casamento, quando os meus amigos uniram as bengalas brancas para que eu e a minha mulher passássemos" - responderam-lhe também. A cada rosto cego, ela associou a imagem de beleza descrita. Há uma excepção. Em vez de duas, uma única fotografia. De uma cara com os olhos fechados. O homem justifica-se: "Não tenho acesso à beleza. Por isso prefiro não pensar nisso". É a última peça da exposição "Les Aveugles". IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:00 PM - Comments: a sala era também o quarto, a cozinha e a casa-de-banho, reduzida a um chuveiro. ela nunca tinha visto uma casa tão dostoievskiana, tão parecida com os apartamentos de "Crime e Castigo". pensou nisso mesmo antes de ver o segundo volume d' "O Idiota" sobre um conjunto de folhas aparadas sem cuidado. pareciam um bolo de bolacha em que cada uma tivesse decidido enviesar-se a seu modo. um homem pálido de olhar vago estava enclausurado na capa. "o príncipe!", acudiu-lhe e depois invectivou-se em voz baixa por não o ter reconhecido logo. por ter sido apenas um homem pálido de olhar vago e um tanto despenteado. à altura do livro apresentava-se o gargalo de uma garrafa enfiada num saco de plástico verde. tinha azeite. ao lado, sobre um tabuleiro, misturavam-se os talheres, na vizinhança das panelas, as mais pequenas enfiadas nas maiores. havia também uma garrafa de uísque com pouco uísque, dois dedos a cobrir o fundo, e muitas canetas, em feixe vertical ou desarrumação horizontal. a mesa, tal como a casa, concentrava todas as funções, até a de aguentar os cotovelos, para que as mãos apoiassem a cabeça, pesada por causa do álcool, do cansaço provocado pela leitura ou escrita ininterruptas. era sítio de leitura, escrita, alimentação, bebida, pensamento, talvez desesperado, mas sem niilismo. um desespero resultante da constatação de ser incapaz de tudo concentrar intensamente. porque quem ali morava era irmão gémeo da mesa e da casa. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:33 AM - Comments:
Joana Salvador S/Título 2002 Técnica Mista s/ papel 36cm x 48cm postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:12 AM - Comments: Quinta-feira, Dezembro 04, 2003 pedimos desculpa ao extravaganza, agora universos desfeitos, e ao epiderme pela troca de moradas. desfeito o uni-verso, ficámos à flor da pele! obrigada ao hmbf por nos ter posto na ordem! mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:14 AM - Comments: Estava aninhada, de olhos bem abertos, numa clareira rodeada de plantas com o caule anguloso e folhas carnudas cobertas de espinhos. A escuridão que a envolvia contrastava com a luz daquele sol do meio-dia que ofuscava a vista dos que se descobriam na areia ali perto. Esconder-se é desencontrar-se do mundo pensava ela mais velha, naquela idade em que as imediatas intuições da infância surgem como soluções de equações complicadas finalmente resolvidas pela razão. Como se a razão resolvesse alguma coisa! De que não, na infância, ela não tinha qualquer dúvida. Onde as conquistas são o resultado claro de impulsos irracionais. Enquanto o polícia contava, 1,2,3,4, ... pouco era o tempo que o ladrão tinha para se esconder. Por isso não havia cá hesitações, as pernas, antecipando-se à lógica pensante, ditaram o local. No qual iria passar bastante tempo. Aninhada, com os olhos bem abertos, numa clareira rodeada de plantas com o caule anguloso e folhas carnudas cobertas de espinhos. Ao longe, ela ia começando a ouvir vozes. Lá vou eu. 1,2,3, Vera. 1,2,3, Duarte. Aos poucos e poucos todos iam sendo apanhados menos ela. Começavam então os gritos de fúria. Aparece, Aparece, acabou o jogo. Podes aparecer. Ó apareces ou nunca mais jogamos contigo. Até que as vozes gastas deixavam-se de ouvir e ela ficava então de novo feliz. Assim, esquecida. Uma das vezes deixou-se ficar até ao momento exacto em que a luz de fora se encontrou com a luz de dentro confundindo-se. Ficou a pensar se seria essa a manifestação mais próxima do amor na natureza. Mas naquela idade ainda tinha medo do escuro total, e com a aflição a entrar-lhe pelo esqueleto apendicular, aproveitou a descarga brusca de energia para abandonar o esconderijo e regressar a casa. Na fuga, a roupa que trazia acabou por ser vítima da natureza desrespeitada. Os espinhos entranharam-se pelos panos, rasgando tecido sobre tecido ao encontro da seiva vermelha. A franqueza da natureza deixava-a irritada. Mas, afinal, quem tinha ido contra a ordem do mundo fora ela. Quando temos medo de alguém, quando alguém nos assusta, estamos a ir contra a ordem natural dessa pessoa? Perguntava-se ela mais velha. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:50 AM - Comments: Quarta-feira, Dezembro 03, 2003 e então percebeu que se tinha de levantar um dia. a ideia pareceu-lhe má. em pé andava toda a gente. a andar, a correr, como se a felicidade estivesse sempre noutro sítio. acontecia que se estivesse sentada, tinha pensado, e se a felicidade passasse ali seria tanto mais fácil agarrá-la quanto mais imóvel estivesse. Centrada no seu lugar, que ocupava de maxilares fechados e joelhos juntos.sabia que algures um matemático deveria ter descoberto uma lei que explicasse esta probabilidade. gente esperta e atinada os matemáticos. seguros das coisas que diziam. previsíveis, para já não falar da sua posição de sentados.levantou-se. alguém tocara à porta. ib postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:26 PM - Comments: Sobre o que sentiu ao saber da decisão de Adrian Leverkuhn de dedicar-se aos estudos musicais, descreve, com a mão tremente, o narrador participante de "Dr. Fausto", de Thomas Mann: "Só posso comparar o meu sentimento com aquela contracção do corpo que nos ocorre na infância, quando estamos num baloiço, que voa muito alto, e sentimos uma mistura de júblio e opressão." IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:29 PM - Comments:
Henri Landier - La Lectrice de Imperia www.artlepic.org postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:04 AM - Comments: Logo à noite, às 22h, na SIC Mulher, o António Poppe vai estar à conversa com Laurinda Alves.
postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:11 AM - Comments: Terça-feira, Dezembro 02, 2003 temos sido uns vizinhos um bocadinho malcriados e, não fora o technorati.com (que há pouco tempo descobrimos), continuariamos a sê-lo. Bastante atrasados, mas aqui vai um obrigada à Janela Indiscreta (obrigada Cristina!), ao udigrundi (da nossa querida Ana), à montanha mágica, ao emigrado pc e ao seu blogica da batata ao extravaganza, ao janela a duas e a todos os que vão dando conta de que as palavrasdatribo existem, mesmo que num qualquer vão de escada deste arranha-céus interminável que parece ser a blogosfera. mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:07 PM - Comments: o crucifixo era de ferro. pesava-lhe entre as mãos apertadas. as reentrâncias e protuberâncias do corpo de Jesus deixavam-lhe marcas vermelhas na pele. manuel não ia deitar-se sem ele. queria acreditar que o crucifixo - parecia gasto na zona das axilas - havia de defendê-lo contra o medo. que o terror não se atreveria e o sono chegaria logo, brando e branco. para negra bastava a noite quando se extinguia a luz do candeeiro. se ao menos fosse absolutamente escura... mas havia pontos fosforescentes. bem os via dançar se abria os olhos. e bem os via dentro dos olhos quando os fechava. dançavam. ligavam-se e formavam serpentes luminosas. apertava com mais força o crucifixo. como se quisesse dissolvê-lo. o medo vinha aí. manuel abriu os olhos e dirigiu-os aos cantos superiores do quarto. de cada um saía uma gárgula. ele tinha chegado. IR postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:07 AM - Comments: cada vez mais me imagino sentada. a tribo começou sentada. e agora sinto essa vontade de me imaginar sentada. um ser sentado, se é que isso existe. o ser sentado é um ser que combate a dispersão. que quer manter guardado no seu corpo a essência das coisas que se fazem sentadas e que nasceram sentadas. a tribo a comer sentada. a escrita sentada. eu guardo as coisas sentadas. assim não as perco. tive os filhos deitada. mas há quem os tenha tido sentada. a cadeira de ter filhos, a parideira. a tribo continua à mesa sentando-se sobre as ideias. pensando no caminho a seguir. ib, a que pensa sentada postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:13 AM - Comments: quando editámos "As Primeiras Palavras da Tribo" escrevemos um pequeno texto a 3 mãos para lermos no dia do lançamento. era um texto que pretendia mostrar a forma como tudo começou, como a escrita nos aproximou, como eram os nossos encontros semanais, um lento e saboreado almoço num recatado restaurante alfacinha onde a comida portuguesa é rainha, como dos encontros chegámos ao livro. chamámos-lhe: "TRÊS MULHERES EM HABITAÇÃO "Aqui merecia um ponto, se me permite a sugestão" disse o homem alto. A primeira achava que não e a segunda logo assentiu. A terceira nesse dia não tinha ido. O trabalho a tempo inteiro não era amável para as discussões sobre pontos. Pensando bem, de pontos e vírgulas estava o mundo cheio e a existência de mais uma unidade, por muito pertinente que fosse, não podia fazer frente ao trabalho certo, remunerado. A primeira e a segunda tinham a remuneração em muito má conta. O trabalho perseguia-as de lábios cerrados. A primeira encolhia-o para caber nas horas pequenas do dia e a segunda evitava-o, fingia desconhecê-lo, às vezes sucumbia, outras não. Mas o merecimento de um ponto tornou-se subitamente importante e logo a primeira convocou suavemente um encontro. Para desbravar o terreno anunciou: "Saiu-me o texto, assim, inteiro, nasceu com corpo, braços e pernas, mas sem ponto. Sinto-o como uma criança. E raramente uma criança nasce com ponto final. Com três pontos ou um ponto de interrogação, quando muito." A segunda e a terceira concordaram em silêncio. A segunda abriu a boca em oh, como um peixe a vir à tona. A terceira inclinou a cabeça para a frente e mil caracóis menearam a sua concordância. Estava justificada a ausência do ponto. Ausência por ausência que seja a dele. Porque eu cá, disse a primeira, gosto é de casalinhos e aí, a presença, é muito importante. Ao que a segunda anuiu. Aliás tinha sido ela que dias antes trouxera para a mesa aquela sentença que agora lhe remoía o juízo (à primeira): tu só sabes escrever histórias de casalinhos! Histórias de casalinhos. Histórias de casalinhos. Repetia para dentro o alvo da ofensa. Até que lhe saiu e tu: Histórias de mulheres que podem tudo, até dar à língua sem parar, onde já se viu! A terceira, aí, foi mais comedida. concordou com a primeira, mas em silêncio. Mas também não foi por isso que os olhares das outras duas deixaram de se atirar de imediato a ela. E as tuas mulheres andam muito sérias. E clássicas. Tens de lhes ensinar a fazer o pino, ou outra macacada qualquer. Experimenta uma temporada no Chapitô. A Leontina daria uma perfeita ilusionista e a Helena uma excelente trapezista. Ouvi dizer, acrescentou a segunda, que as mulheres sem olfacto não têm vertigens. Como último recurso sugeriram ainda a leitura dos contos de um tal rapaz de Monchique, onde não faltam macacadas. E o preço de um livro sempre é mais barato do que uma mensalidade. A terceira, desta vez, nem concordou nem o demonstrou em silêncio. Esticou o peito, pescoço de girafa em riste, narinas bem abertas, caracóis apontados a Marte (ou qualquer outro planeta do nosso sistema solar). VOCÊS ESTÃO DOIDAS. VOCÊS ESTÃO DOIDAS. Qualquer dia troco-vos por elas. As personagens. Talvez assim amansem. MAS QUE IDEIA EXTRAORDINÁRIA. Aceitamos. Desde que não nos ponhas a fazer croché. ...a fazer croché. Camisolas aracnídeas para proteger do frio uma certa personagem protésica que a segunda tinha deixado de molho. Pullovers tricotados com fios de plástico para suster a mulher líquida da primeira. Protésico e sereia capazes, por sua vez, de levar a Penélope suburbana à verdadeira transgressão. Podiam entender-se melhor as personagens do que aquelas a quem aqui chamamos primeira - à hora do almoço tinha os olhos ainda inchados das letras nocturnas - , segunda - punha o casaco verde pelos ombros para acalmar aquela gente desestabilizada e desestabilizadora que trazia dentro - e terceira, a dos caracóis marcianos ? Na mesa ao lado, eu fingia nem ter reparado nelas, dos dedos da primeira nasciam bolinhas de pão, talvez amassasse assim as palavras, mas bem as ouvia rir, se um Quarto, que aparecia de vez em quando, trazia anedotas no bolso do sobretudo a condizer com o cachecol, e bem as via dobrarem-se com dores nos músculos do estômago por causa de um certo sentimento lilás na literatura que diziam repudiar. Traziam os livros que andavam a ler e faziam-nos sentar à mesa com elas, apresentavam-se umas aos outros, vocês conhecem este? é muito bom. leiam-no, vale a pena. Tanta digressão, detonava o sentido de auto-disciplina da segunda, que punha ordem na mesa, então e projectos, textos, críticas, tem de ser, tem mesmo de ser , trabalhar, escrever, nada de desculpas, e se fizéssemos um livro? Ficaram a olhar para o ponto de interrogação, um livro?, e juntaram-lhe outro, porque não? Naquele dia acabaram mais cedo o repasto. Saíram à pressa num frufru de gabardinas e guarda-chuvas. Falavam de construir a história, de abrir janelas nas que tinham edificado antes ou de demolir por inteiro o edifício, não, não gosto disto, apetece-me é começar tudo de novo, ouvi-as queixar-se nas semanas a seguir. Dos carapaus ficaram só as espinhas e as cabeças, não me apetecem os restos dos brócolos. Estou à espera delas. Não tarda muito entra a segunda e lança um olhar pela sala para saber das outras, que hão-de chegar de seguida, uma de cada vez. Terão conseguido? postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:11 AM - Comments: Segunda-feira, Dezembro 01, 2003 No início eram três três mulheres em habitação e todas conheciam bem o caminho para casa, nunca se perdiam Mas havia agora esse risco dos muitos outros caminhos E, cada uma a seu tempo, procurava regressar a esse lugar inicial Reencontrar o seu lugar na mesa Reaprender a mestria da colher a entrar na sopa e a trazer de lá muito verde e pouco caldo, como quando tudo começou mp postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:58 AM - Comments:
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