Palavras da Tribo

As primeiras, as segundas e todas as palavras



Sexta-feira, Outubro 31, 2003



Exagerado
Leoni/ Cazuza/ Ezequiel

Amor da minha vida
Daqui até a eternidade
Nossos destinos foram traçados
Na maternidade

Paixão cruel, desenfreada
Te trago mil rosas roubadas
Pra desculpar minhas mentiras
Minhas mancadas

Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado

Eu nunca mais vou respirar
Se você não me notar
Eu posso até morrer de fome
Se você não me amar

Por você eu largo tudo
Vou mendigar, roubar, matar
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais

Exagerado
Jogado aos teus pés
Eu sou mesmo exagerado
Adoro um amor inventado

Que por você eu largo tudo
Carreira, dinheiro, canudo
Até nas coisas mais banais
Pra mim é tudo ou nunca mais
Gatinha de rua"
(Gravação: Cazuza - "Cazuza - Exagerado" 1985: # 01)

eu adoro o exagero de cazuza!!!!
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:04 PM - Comments:


Quinta-feira, Outubro 30, 2003

Houve um tempo em que, nos livros, quase só me interessava a acção, mas agora pergunto quantas imagens valem estas palavras. IR

"... entretanto, diante dos olhos dos viajantes, desenrolava-se uma larga e infinita planície, cercada por uma cadeia de suaves colinas. Acumuladas, e parecendo olhar umas por cima das outras, as colinas juntavam-se num planalto que se prolongava, à direita da estrada, até ao horizonte e desaparecia no lilás da distância. Avança-se sempre, sempre e nunca se consegue saber onde o planalto começa nem onde acaba... O Sol, por detrás da cidade, já se atreveu a deitar uma olhadela, e devagarinho, sem mostrar a menor pressa, realiza a sua tarefa. Ao princípio, longe, muito longe, no sítio onde o céu se junta à terra, perto das pequenas colinas e dos moinhos de vento que, à distância, parecem homúnculos agitando os braços, espalha-se sobre a terra uma faixa amarela de uma luz muito viva. Um minuto depois, outra faixa semelhante brilha mais perto, desliza para a direita e atinge as colinas. Qualquer coisa quente tocou as costas de Iegoruchka. Uns feixes de luz, nascendo furtivamente pela rectaguarda da carruagem, correm por cima dela e por cima dos cavalos, partem imediatamente ao encontro doutros feixes e, de repente, toda a vasta estepe, repelindo a penumbra matutina, sorri e exibe o brilho do orvalho." in "A Estepe" Anton Tchekov

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:32 PM - Comments:


PC ao pc. obrigada por aquela do sentimento sem ressentimento. é que é mesmo isso. a distância dá para ver nitidamente.
a outra

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:20 AM - Comments:


Terça-feira, Outubro 28, 2003


Going Forth By Day (2002)
The Path (Panel 2)
Video/sound installation

por vezes é preciso um amigo voltar para nos lembrarmos do nosso lugar no mundo.
por vezes o lugar estava lá mas nós já não sabíamos o caminho sem a ajuda desse amigo.
por vezes o caminho era estreito demais para uma pessoa e suficientemente largo para duas, três, quatro,
por vezes ficamos quietos à espera da inquietude do amigo.
por vezes é quando o amigo chega que tudo acontece,
a tosta, a música, a dança, o livro.
quando sabemos que o amigo irá chegar dizemos - Desculpe, mas agora não posso, tenho de ir arranjar-me para o amigo.
por vezes já nem nos arranjávamos
por vezes o amigo não volta
por vezes ele esteve sempre ao nosso lado e nós não o víamos
por vezes é bom escrever ao amigo

(para o pc com um beijinho da mp)

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:42 AM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 27, 2003

Depois veio aquele que já não postava há uma data de tempo, e teve medo de que lhe ralhassem por isso mesmo. Para fugir com o rabo à seringa, decidiu-se por um gesto amigo, ou apenas desesperado. Resolveu lembrar aos outros os laços por que sentia a eles unido. Para lhes dizer - suponho - que esse vínculo durava sempre, até durante o mês e picos em que estivera calado, por motivos que se repartem entre o trabalho e o desleixo e que se absteve, como calculam, de aprofundar. Cá vai disto:

SENTIDOS E SENTIMENTOS DESTA TRIBO

A tribo é uma tosta de atum numa tarde quente ou um semi-frio de bolacha num dia de chuva. Se levar vinho, deve ser tinto. Se não levar, levo eu. Uns croissanzinhos também não vinham nada mal...

A tribo é uma canção a muitas vozes ou uma morna dançada no B.Leza. Podem aparecer uns espontâneos a trautear em francês. Quem preferir pode assobiar ou bater o pé. É permitido gostar de happenings. Ou não.

A tribo é um livro verde-seco e outro vermelho-escarlate. Apontamentos à margem, caligrafias escorreitas e "monos¿ na parede. Uma fotografia quando menos se espera. Um desenho. Um filme para mais tarde recordar.

A tribo pode ter cheiro a maresia, mesmo que ninguém faça surf. Tem perfumes de outras terras, um toque de rotativas, muitos cafés e um ou outro cinzeiro por despejar. Agora fala-se de aromas campestres.

A tribo gosta de pegar nas palavras, sentir-lhes a textura, testar a solidez de cada forma. Se é bom, agarra-se com força; se não, fica-se com pele de galinha... mas tudo se resolve com um beijinho, um abraço ou um safanão.

A tribo tem sentimentos, às vezes pressentimentos, mas nunca ressentimentos. É uma brincadeira muito séria, um compromisso com muita liberdade, uma luta contínua, uma guerra feita em paz. Tem estes sentidos todos. Ou outros. Ou nenhum.

pc-ao-PC

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:13 PM - Comments:


Um dia vou olhar-te e não sentir nada, senão indiferença. Nem ternura nem violência: os dois sentimentos de que sou capaz. Passo por ti, olho-te e não sinto o que seja. Repara que não se trata de fingimento, mas de sincera ausência. Hei-de sustentar o teu olhar sem dificuldade e sem procurar - para que a vontade de dissolução me não traia - outros motivos de observação à volta da tua cabeça. Hei-de olhar para ti como para quem me intercepta, querendo saber onde é a rua x. Mas vou poupar-te ao sorriso. Sou simpático para os que não sabem onde ficam as ruas, sabias? Ou talvez nem precise de reprimi-lo: a indiferença tolera bem os sorrisos. Aconteceu-me antes. Só não me lembro se fiquei surpreendido no dia em que dei por isso. No dia em que em vez da imensa ternura, encontrei o nada. É verdade, sabias? Um dia, acorda-se de manhã, à tarde ou à noite, e não se sente. Será motivo de satisfação ou de tristeza. Será sempre estranho. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:16 PM - Comments:


Sábado, Outubro 25, 2003


Nicolai Gogol

Akakey Akakeyvitch viu-se obrigado a encomendar um capote. O que ele queria mesmo era remender o antigo, mas, disse-lhe o alfaiate, isso era impossível: de tão coçado o tecido, não havia parte onde deitar a linha para remendá-lo. Akakey, funcionário triste, resignou-se, porque o Inverno lhe tomava o corpo todo. Sacrificou-se para arranjar os oitenta rublos necessários. Quando lhe entregaram o capote, Akakey, a quem a morte poderia surpreender sem que alguém desse por isso, é tomado de alegria. Suspeita-se mesmo que, sob o efeito do belo capote, possa Akakey livrar-se do tolhimento e da insignificância que o aprisionam. Mas eis que lhe roubam tão miraculosa peça de vestuário. Fará o que puder para recuperá-lo, como se fosse a honra perdida. Vale a pena ler "O Capote", de Nicolai Gogol. No final, faz-se justiça. A "alta personalidade" - conheço algumas e este não é o séc. XIX, nem Portugal a Rússia de então -, que bate com o pé e grita "mas sabe com quem é que está a falar?" a um homem desesperado, há-de ficar tiritar. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:25 PM - Comments:



Françoise Mallet-Joris
© John Foley / Opale

Descobri na estante há poucos dias uma das minhas leituras da adolescência, presente da minha mãe. É um livro de fundo azul com uma fotografia a preto e branco de uma mãe e uma filha com a cabeça apoiada sobre o seu colo, por detrás vêem-se partes de alguns trabalhos manuais, pinturas, esculturas, o que nos leva a pensar que estão num atelier. Mais tarde ficamos a saber que o pai é pintor.
Este livro, em português, "A Casa de Papel", no original, "La Maison de Papier" é de Françoise Mallet-Joris. E de uma casa de papel para uma casa de pedra e cal vai muito pouco. Poderia ter sido escrito em casa, por uma mãe, talvez depois de toda a família estar a dormir, rememorizando o que se passara durante o dia. É um livro diário de uma família francesa dos anos setenta. Um livro que nos restitui a família, o diálogo, as férias de verão, a avó, a fé, .... Um livro onde todas essas mini-séries portuguesas que fingem trazer a família para o écran como "Super-Pai", "Ana e os sete" (versão "hard-core" de "Música no Coração"), "Morangos com Açucar", se deveriam ter inspirado.
Durante alguns dias irei trazer para o blog algumas divisões da casa de Mallet-Jorris, em jeito de homenagem de mãe:
"Duas pequenas frases muito repetidas
Quem é Vincent? Tem agora catorze anos, mas para mim é ainda um menino. O meu menino. O meu segundo filho. O mais velho é Daniel, faz vinte anos este ano. Há também Alberte, onze anos e Pauline, nove anos. Os meus filhos.
A pequena frase que me dizem frequentemente é esta: «Como consegue escrever?» ou «Admiro-a por conseguir escrever, com quatro filhos.» Aqueles que me fazem esta pergunta são em geral os mesmos que, logo a seguir, me pedem para fazer uma conferência em Angoulême, ler o manuscrito de um primo, redigir um artigo «que me toma só um instante» sobre a Madame de La Fayette ou sobre a vida de Flaubert.
Nem sei o que responder. Digo simplesmente: «É uma questão de organização». Que querem que diga? A segunda frase, por vezes colorida de uma certa admiração desportiva, é: «Deve ser cómodo ter fé» ou «Admiro-a por ter ...» ou «Tem sorte por ter ...».
Não sei o que responder. Digo simplesmente: «Não é assim tão cómodo». Depois, tomada de remorso: «Sim, cómodo de certa maneira.»
Não sei responder a perguntas. Ou melhor, só sei responder a perguntas por imagens. Observo os meus filhos, o meu trabalho, a minha fé. Digo a mim própria: «Ei-los», como dizemos diante de um espelho: «Eis o meu rosto». Os outros que o definam. Para mim as definições..."
mp
p.s. é engraçado pensar que a minha primeira leitura deste livro foi uma "leitura-filha" e que agora é uma "leitura-mãe"!

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:13 AM - Comments:



É terrível quando alguém desaparece não deixando sequer as velhas fotografias como recordação. Hoje, ao tentar abrir osintrusos: "The following Blog*Spot page was not found: /servlet/BlogSpot=intrusos". Como nos diz a montanha, a mágica, o inverno já veio para ficar e, no guarda-fato, vejo um sobretudo a menos para nos aquecer.
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:44 AM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 24, 2003

Romance de um dia na estrada - letra e música de Sérgio Godinho

Andava há já vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
a voltar-se d'impaciente
me fez parar de repente
era noite e o casarão
não tinha lados nem frente
dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-m'a porta
fiz as luzes se apagarem
cheguei-me mais à janela
vi acender-se uma vela
passos de mulher andarem
e uma mulher muito bela
chegou-se mais à janela
chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
nem ódio nem espingardas
trago paz numa viola
quase que não fui à escola
mas aprendi nas estradas
o amor que te consola
Trago paz numa viola
Trago paz numa viola

Meu marido foi pra longe
tomar conta das herdades
ela disse "Companheiro"
eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
afundados num colchão
entre arcas e um reposteiro
descobrimos um vulcão
era o mês de Fevereiro
e o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
e só conhecia atalhos
e ela a mostrar-me caminhos
entre chaminés e orvalhos
pela manhã, sem agasalhos
voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
às escondidas da sorte
um dia fraco, outro forte
qu'o dia em que se não come
é um dia a menos pr'á morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:17 PM - Comments:


Ruy Belo escreveu: "Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão." De novo o pensamento excelente, a imagem precisa, a impressão de que é isso mesmo e de que estava cá dentro. Afinal, os poetas dizem-nos o que, ignorando-o, sabíamos. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:13 PM - Comments:


Quinta-feira, Outubro 23, 2003

O casaco era vermelho, acolchoado e com losangos pespontados a linha branca. Estava encostado ao lancil do passeio. Uma mulher de grandes óculos com grossas lentes pegou nele. Mirou-o de frente, cheirou-o atrás, tirou-lhe as medidas, sorriu... Que estava em bom estado, que nem era feio, deve ter pensado. Quis partilhar a alegria da descoberta, mas o homem adiantara-se e ela deixara de vê-lo. Gritou, sem saber para onde dirigia a voz: "Olha 'p'ráqui!" A ordem bateu no edifício em frente, fez ricochete, dobrou a esquina e alcançou os ouvidos do homem, que deu meia volta, contrariado. Viu então a mulher com o casaco entre as mãos, a segurá-lo pelos ombros. Viu-a sorrir. Faltavam-lhe dois ou três dentes e também os olhos, que, àquela distância, ele não vislumbrava atrás das lentes. Disse-lhe dali que preferia roupa nova. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:49 PM - Comments:



Ontem eu, a minha mãe, a patrícia e a ramos fomos ver a encenação do "Guerra e Paz", em russo Krieg und Frieden de Lev Tolstói, pela companhia russa "Teatro-Atelier de Piotr Formenko".
Depois de quase 4 horas de espectáculo percebi porque é que o tempo ali não passava, não pesava. Estava na presença de um exemplo vivo de como é possível subtrair peso, tirar peso ora às figuras humanas, ora aos objectos, ora às cidades, ora à estrutura do conto, neste caso, do romance, ora à linguagem, como Italo Calvino nos ensina na primeira das suas "Seis propostas para o próximo milénio". Retirar-lhes a força da gravidade, deixando-os a flutuar sobre as nossas cabeças, quais anjos. Porque eram anjos aqueles que habitaram o palco do grande auditório do CCB por estes dias. Anjos vindos do leste. Mas Anjos.
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:31 PM - Comments:


Quem não conheça a peça "Loucos por Amor" até se pode surpreender com o espectáculo que Ana Nave encenou e que Catarina Furtado e Marco Delgado interpretam no Teatro Nacional D. Maria II. Mas quem conheça tão bela peça (de Sam Shepard) sabe que o espectáculo poderia ter tido uma abordagem um pouco mais cuidada, sobretudo a nível da interpretação dos actores. É pouco subtil este espectáculo em que se grita e gesticula demais. Mais contenção seria desejável. AMR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:41 PM - Comments:


a ramos pensa que não consegue pensar sobre o filme. logo a seguir pensa em não pensar sobre o filme. apetece-lhe é vê-lo outra vez. e outra. e outra. até tornar-se familiar de Maria, Natalia, Ignat, Aliocha. ter a certeza de que sabe quem é quem e em que tempo o é.
a ramos lembra-se do vento a empurrar as ervas altas, que davam pelos joelhos ao médico. do vento a empurrá-las violentamente. e uma terceira vez, como se quisesse que o médico voltasse atrás. ao sítio onde estava Maria.
a ramos queria perceber para além da beleza. da beleza da mulher deitada um metro acima do colchão que pergunta ao amante porque se surpreende. para além da beleza da natureza a sussurrar por todo o lado. ora verdejante, ora branca de neve. das lágrimas congeladas do menino para quem "volver" significa uma volta de 360º graus. (do menino que perdeu os pais na guerra e, naturalmente, não podia saber das coisas da guerra. agrada à ramos que lhe pouse um passarito em cima do gorro. agrada-lhe que o recolha dentro da mão.) parece à ramos que o pai foi o filho. o pai é o filho. o pai é o seu próprio pai. para quem olho quando me vejo ao espelho? a ramos não percebe. e que se livre de pensar que entendeu. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:09 PM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 22, 2003

Ontem eu e a ramos fomos ver "O Espelho", em russo, "Zerkalo"



e a terra respondeu-nos ao ouvido: frágil como um pássaro acabado de nascer, uma criança de cabelo rapado.
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:32 AM - Comments:


não é por acaso que em muitas das fábulas do La Fontaine o "peixe" morre pela boca!


La Tortue et les deux Canards
Livre X, Fable 2

Une Tortue était, à la tête légère,
Qui, lasse de son trou, voulut voir le pays,
Volontiers on fait cas d'une terre étrangère :
Volontiers gens boiteux haïssent le logis.
Deux Canards à qui la commère
Communiqua ce beau dessein,
Lui dirent qu'ils avaient de quoi la satisfaire :
Voyez-vous ce large chemin ?
Nous vous voiturerons, par l'air, en Amérique,
Vous verrez mainte République,
Maint Royaume, maint peuple, et vous profiterez
Des différentes moeurs que vous remarquerez.
Ulysse en fit autant. On ne s'attendait guère
De voir Ulysse en cette affaire.
La Tortue écouta la proposition.
Marché fait, les oiseaux forgent une machine
Pour transporter la pèlerine.
Dans la gueule en travers on lui passe un bâton.
Serrez bien, dirent-ils ; gardez de lâcher prise.
Puis chaque Canard prend ce bâton par un bout.
La Tortue enlevée on s'étonne partout
De voir aller en cette guise
L'animal lent et sa maison,
Justement au milieu de l'un et l'autre Oison.
Miracle, criait-on. Venez voir dans les nues
Passer la Reine des Tortues.
- La Reine. Vraiment oui. Je la suis en effet ;
Ne vous en moquez point. Elle eût beaucoup mieux fait
De passer son chemin sans dire aucune chose ;
Car lâchant le bâton en desserrant les dents,
Elle tombe, elle crève aux pieds des regardants.
Son indiscrétion de sa perte fut cause.
Imprudence, babil, et sotte vanité,
Et vaine curiosité,
Ont ensemble étroit parentage.
Ce sont enfants tous d'un lignage.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:39 AM - Comments:


Terça-feira, Outubro 21, 2003

Há períodos em que ouço ininterruptamente Leonard Cohen. Normalmente de noite, depois da cidade e da casa sossegarem. É um convite às lágrimas. Um despejar do saco lacrimal. Porque eu preciso de chorar de vez em quando, para me sentir. Humana. Para me lembrar que o sofrimento faz parte de mim, tanto quanto a alegria. Somos filhos de um parto sem dor, o que nos pode levar ao engano. Nós, os privilegiados, nunca nos deveríamos esquecer disso. E há vozes que são mestres em nos fazer lembrar. A voz de Leonard Cohen é uma delas, mas também a de Jacques Brel, a de Piaf, a de Alfredo Marceneiro, a de Camané ... Li nos intrusos que: "nunca choraremos bastante quando vemos..." (um verso de Sophia de Mello Breyner), mas quando ouvimos, é como se esse choro calado metesse conversa com os olhos respondendo à desgarrada.
a-menina-piegas

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:16 AM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 20, 2003

por falar em camionetas... à espera de uma, um dia, numa estrada da Polónia, com pasto verde de um lado e de outro. ou, antes, à procura de uma paragem. porque, às camionetas, a gente vi-as passar, mas onde é que paravam? onde é que era a paragem? é que nem um poste, nem uma tabuleta. pois era, não havia paragens. era só levantar o braço. quando, finalmente, percebemos, lá parou uma. que importava se era desengonçada? os passageiros acharam graça àqueles estrangeiros malucos, no meio de nenhures, à procura de sítios de paragem. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:23 PM - Comments:


quando chegavam à paragem da camioneta - não estava assinalada, era só um sítio onde parava aquele veículo roncante e cor-de laranja - o ar tinha uma cor azulada. ficavam ali muito tempo. a ela, pelo menos, parecia-lhe que sim. ocupava-se a tapar qualquer entrada de frio: apertava a gola contra o pescoço, as mangas contra os pulsos e os tornozelos um contra o outro, na ilusão de que assim fechava o corpo. lembrava-se de olhar para baixo e ver as meias de lã branca dentro dos sapatos pretos de verniz. calçava-os nos dias de festa e eram de festa, planeados com antecedência, os dias inteiros de viagem em que iam visitar os avós. a mãe vestia-a, a ela e à irmã, de novo e de igual. quando regressavam, quando sentia que, na pressa, chegava a elevar-se sobre as pedras da quelha, levavam a mesma fatiota. sem tirar nem pôr uma peça de roupa que fosse. naquela madrugada gélida eram a mesma camisola branca de gola alta, as mesmas cuecas azuis, os mesmos "collants", a mesma saia vermelha aos quadrados, o mesmo alfinete dourado que pegava uma parte do tecido ao outro, o mesmo casaquinho preto de decote em bico. na espera, as duas saiazitas de xadrez inclinaram-se para o corpo dos pais. sonhavam, encostadas, cada uma, à perna mais próxima, ou deitadas sobre as bagagens. era tanto o sono. só o sono combatia o frio. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:52 PM - Comments:


Domingo, Outubro 19, 2003

um instante pode estar cheio. completamente cheio. pode prometer uma vida. é só preciso desenrolá-lo. e para isso, bem, para isso é preciso saber desatá-lo. como se desenrola o fio de crochet.por vezes desenovela-se cheio de facilidades. doutras a meada embaraça-se e pode levar uma vida inteira a destrinçar o fio enozado do bom. para isso é ter olho e paciência. e horas cheias de instantes.
a outra

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:47 AM - Comments:


Sábado, Outubro 18, 2003

a paragem da camioneta era logo a seguir à igreja matriz.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:04 PM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 17, 2003

saíam de casa quando o dia ainda se mantinha entre-portas. o frio apanhava-lhes logo as mãos. agarrava-se-lhes. não permitia que o sacudissem ou o enrolassem num cilindro como se fosse plasticina. colava-se depois à cara. primeiro ao nariz. era este que o transportava para dentro do corpo. a boca lá conseguia fechar-se, a proteger a garganta. os barretes desciam até às sobrancelhas e aqueciam a testa. (a lã grossa picava). mas não, não era verdade que o frio despertasse. elas as duas sentiam-no, sem que tivessem ainda acordado. puxadas uma pelo pai, outra pela mãe tropeçavam nas pedras irregulares das quelhas, que era como chamavam às ruas estreitas da aldeia. envolvia-as uma claridade excessivamente branca. quando chegavam à paragem da camioneta, o ar tinha uma cor diferente. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:32 PM - Comments:


"quem não pede perdão não é nunca perdoado." estes gajos fazem-me estremecer perante o óbvio. IR
Insensatez
Tom Jobim/Vinicius de Moraes
A insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor
O seu amor
Um amor tão delicado
Ah, porque você foi fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai meu coração ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração pede perdão
Perdão apaixonado
Vai porque quem não
Pede perdão
Não é nunca perdoado

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:57 PM - Comments:


roía as unhas, comia a pele das pontas dos dedos, como se lhes tirasse a casca. aplicava-se a morder as dos lábios. as que secam e ficam brancas. ia lá com os dentes. desgastava-as até se soltarem. trincava-as. andava sempre a mastigar-se. não lhe escapavam sequer os cotovelos. mas a estes atirava-se apenas quando estava em casa. sozinho. reconhecia que a figura não era lá muito dignificante. um dia, sentado na cama, ainda de pijama, vira-se ao espelho do guarda-fatos em frente. estava a roer o cotovelo. assustaram-no os dentes cavalares reflectidos. desviou o olhar. foi nessa altura que reparou nos joelhos. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:09 PM - Comments:


barulho diante dos olhos, pensamentos abolidos que insistem em ser vistos.poesia visual?
a outra

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 2:55 PM - Comments:


Quinta-feira, Outubro 16, 2003

muito barulho. há barulho até no silêncio. muito barulho dentro da cabeça. o barulho estilhaça os pensamentos frágeis. os que valem a pena. há tanto barulho. baralho. borralho. o gato ao borralho. fico calado. mas o barulho está dentro do silêncio que é apenas ausência de som. o barulho não acaba. franzo a testa. imagino que o barulho me sai pelas orelhas. uma espiral de cada lado. espirais de barulho expelem os pensamentos de que não preciso. aqueles que não quero. que desprezo. que me irritam. que me doem. as espirais trazem-nos para fora. rejubilo. vou livrar-me deles. hão-de restar-me apenas aqueles que quis e agora só me lembro de tê-los esquecido. mas... o que aconteceu? porque é que as espirais já não seguem uma para a direita e outra para a esquerda. estão a fazer a curva. inclinam-se. põem-me os pensamentos irrisórios diante dos olhos. barulho. baralho. barulho. visual.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:01 PM - Comments:


as varandas de ferro forjado vincam as pernas das mulheres, que lhes encostam os vestidos ligeiros. as mulheres de pernas vincadas recolhem-se em casa durante a hora da calma. os vestidos colam-se às pernas, os cabelos pegam-se ao pescoço. as mulheres do tempo quente sentem o coração vincado e preso. cola-se o coração à pele, o vestido às pernas, o ferro quente da varanda marca-as como gado. as mulheres com marcas nas pernas não fogem de casa. as casas com varandas prendem as mulheres suadas.
a outra é de quem a apanhar

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:37 PM - Comments:


as mulheres decentes andam de blusa abotoada, sem transparências, sem cores vibrantes. ouvia de longe, lá longe dos seus treze anos a professora de português, virgem muito ressentida e abnegada, dizer em tom de ameaça velada: as meninas não devem usar calças vermelhas. o vermelho excita os homens. assim era a sua educação. apanhava dicas preciosas das bocas mais insuspeitas. desde então usar calças vermelhas fazia ressoar longínquas advertências. a censura despertava ainda a curiosidade. e blusas vermelhas? e blusas brancas com calças pretas e cinto vermelho? e mala vermelha? as mulheres decentes pensam em blusas e calças vermelhas, que não usam. que lhes trazem sabores da infância, que as fazem desejar a simplicidade dum mundo onde o bem e o mal estava na cor das calças.
a outra é de quem a apanhar

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:25 PM - Comments:


casando o fado com o seu ofício de marceneiro, Alfredo Marceneiro deu azo à sua imaginação e engenho e criou uma casa da mariquinhas tridimensional. Uma casa portuguesa com certeza!







mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:50 AM - Comments:




BÊBADO PINTOR
Letra: Henrique Rego
Música: Alfredo Marceneiro

Encostado sem brio ao balcão da taberna
De nauseabunda cor e tábua carcomida
O bêbado pintor a lápis desenhou
O retrato fiel duma mulher perdida

Era noite invernosa e o vento desabrido
Num louco galopar ferozmente rugia,
Vergastando os pinhais, pelos campos corria,
Como um triste grilheta ao degredo fugido.
Num antro pestilento, infame e corrompido,
Imagem de bordel, cenário de caverna,
Vendia-se veneno à luz duma lanterna
À turba que se mata, ingerindo aguardente,
Estava um jovem pintor, atrofiando a mente,
Encostado sem brio ao balcão da taberna.


Rameiras das banais, num doido desafio,
Exploravam do artista a sua parca féria,
E ele na embriaguez do vinho e da miséria,
Cedia às tentações daquele mulherio.
Nem mesmo a própria luz nem mesmo o próprio frio,
Daquele vazadouro onde se queima a vida,
Faziam incutir à corja pervertida,
Um sentimento bom d´amor e compaixão,
P´lo ébrio que encostava a fronte ao vil balcão,
De nauseabunda cor e tábua carcomida.


Impudica mulher, perante o vil bulício
De copos tilintando e de boçais gracejos,
Agarrou-se ao rapaz, cobrindo-o de beijos,
Perguntando a sorrir, qual era o seu oficio,
Ele a cambalear, fazendo um sacrifício,
Lhe diz a profissão em que se iniciou,
Ela escutando tal, pedindo-lhe alcançou
Que então lhe desenhasse o rosto provocante,
E num sujo papel, o rosto da bacante
O bêbado pintor com um lápis desenhou.


Retocou o perfil e por baixo escreveu,
Numa legível letra o seu modesto nome,
Que um ébrio esfarrapado, com o rosto cheio de fome,
Com voz rascante e rouca à desgraçada leu,
Esta, louca de dor, para o jovem correu,
E beijando-lhe o rosto, abraço-o de seguida...
Era a mãe do pintor, e a turba comovida,
Pasma ante aquele quadro, original, estranho,
Enquanto o pobre artista amarfanha o desenho:
O retrato fiel duma mulher perdida."

(mais uma história de um filho e de uma mãe, esta agora num tom bem português)
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:59 AM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 15, 2003

o jovem Torless questiona-se sobre a existência de uma realidade sob aquela que conhecemos. procura-a debaixo da pele de um colega de escola. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:43 PM - Comments:


as cartas começavam com "queridos pais, esperamos que vos encontreis bem de saúde" e, a seguir, "nós por cá todos bem". "nós. por cá. todos. bem". o que se contava depois mostrava como eles iam bem. convencidos pela frase em epígrafe. mas nada era verdade nas cartas. ou quase nada. o formalismo do "nós por cá todos bem" salvava-os da vergonha do amor. era mais fácil, tal como o desfile de sucessos cuidadosamente seleccionados. mas seleccionados para não ferir não preocupar não levar carga dentro do envelope. nessa altura já cruzado no canto pelo luto. ao imaginar que leio aquelas cartas, penso até que ponto o formalismo escancara os sentimentos.
a espistolar

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:10 PM - Comments:


Só porque está a chover e eu preciso de uma gabardina, talvez azul, aqui fica

Blue raincoat, Leonard Cohen

It's four in the morning, the end of december
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all thru the evening.
I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now I hope you're keeping some kind of a record

Yes and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

The last time we saw you, you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
You came home alone without Lili Marlene.
And you treated my woman to flake of your life
And when she came back she was nobody's wife

Well, I see you there with a rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well, I see Jane's awake
She sends her regards.

And what can I tell you my brother, my killer
What can I possiby say
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.
If you ever come by here for Jane or for me
Well, your enemie is sleeping and your woman is free

Yes, and thanks for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And Jane came by with a lock of you hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Sincerely, L. Cohen.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:59 PM - Comments:


Olho pela janela. Não há pássaros nas árvores. Lembram-se do Ruy Belo? "Os pássaros fazem cantar as árvores... Os pássaros começam onde as árvores acabam". Sobressalto. O que prolonga as árvores agora, Ruy Belo? Os pingos da chuva, talvez... IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:58 AM - Comments:


Pousei a mão no ombro do Manuel e perguntei-lhe: "Então, o que é que se faz?" Ele respondeu: "Nada, compra-se tudo feito." IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:29 AM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 13, 2003


Um dia descobri no meu carro uma cassete perdida que dizia, misteriosamente, "in the dark", Joe Frank e, da parte de dentro, qualquer coisa em inglês como: "quem estragar esta cassete apanhará cancro". Achei aquilo muito estranho e arrepiante, mas, mesmo assim, resolvi arriscar e ouvir o que aquela fita tinha para me cantar. No início não percebi bem o que se estava a passar porque, ao em vez de música, apareceu uma voz poderosa a contar uma história, depois outra e mais outra. Eram três pequenas histórias intercaladas por uma escolha de excelentes músicas. As histórias eram originais do autor e homem da rádio Joe Frank, as músicas uma escolha dele. Assim que tive acesso à internet fui tentar saber mais alguma coisa sobre este homem e descobri no site da radio onde na altura trabalhava que era um autodidacta; que tinha sido uma criança doente durante grande parte da sua vida e que só tinha "acordado" para o mundo bastante tarde; que os seus programas eram semanais; que começava a pensar nas histórias para a semana seguinte quando acabava o programa da semana anterior; que escrever histórias e prepará-las radiofonicamente era toda a sua vida;... Com uma entrega assim é quase impossível algo sair mal. MP
Ps. O grave da questão é que eu acabei por estragar a dita cassete de tanto ouvi-la.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:50 PM - Comments:


Domingo, Outubro 12, 2003

Ainda com o livro aberto sobre os joelhos, Maria Rita suspirou.
Depois do ssssssss com que Agostinho cumprimentara o gato, tinha acenado com a cabeça ao vizinho do nº 34, sem acrescentar qualquer palavra ao gesto, também este mínimo. Naquela altura, ela ainda alimentava a esperança de ouvir-lhe a voz. Por isso arrastava as costas pela parede, varrendo a caliça, sem cuidar do aspecto ou integridade da blusa. O marido virara de novo à esquerda, para a rua de maior concentração de bares. Entrou num. Maria Rita esperou que o ponteiro dos segundos do relógio de pulso fizesse duas vezes a volta completa e entrou a seguir.
à espera...

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:47 PM - Comments:



Good Bye Lenin!, Wolfgang Becker

Mais uma história de amor de um filho pela mãe. Nada, nas imagens ou no discurso, lembra Sokurov, mas o amor está lá inteiro, Maria. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:31 PM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 10, 2003

Vejam lá se este não é um exemplo de "pensamento excelente" , ou será "excedente"?

"Há que reconhecer que a modéstia predestinada, o desejo de não pretender nada e de não levar a nada bastariam para fazer de muitos romances livros irrepreensíveis e do género romanesco o mais simpático dos géneros, aquele que se deu por tarefa, à custa de discrição e de alegre nulidade, esquecer aquilo que os outros degradam chamando-lhe o essencial. O divertimento é o seu canto profundo. Mudar incessantemente de direcção, ir como que ao acaso e para fugir de qualquer objectivo, num movimento de inquietação que se transforma em distracção feliz, tal foi a sua primeira e mais firme justificação. Fazer do tempo humano um jogo e do jogo uma ocupação livre, desprovida de todo o interesse imediato e de toda a utilidade, essencialmente superficial e no entanto capaz de, nesse movimento de superfície, absorver todo o ser não é coisa pouca. Mas é evidente que se o romance escapa hoje a este papel, é porque a técnica transformou o tempo dos homens e os seus meios de com ele se divertirem."
in "O Livro por vir", de Maurice Blanchot

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:36 AM - Comments:


Na noite anterior seguira-o, decidida a escutar-lhe a voz, desde que dirigida a outra pessoa que não ela. Acreditava que Agostinho saudaria algum conhecido que com ele se cruzasse antes de entrar no café ou num dos bares situados na rua paralela àquela onde viviam há 20 anos. Da varanda viu-o fechar a porta. Pegou no saco e desceu à pressa o único lanço de escadas.
Agostinho virara à esquerda. Um gato veio enrolar-se-lhe nas pernas, levando-o a baixar-se e a passar-lhe a mão sobre a cabeça. Encostada à parede de uma rua transversal, Maria Rita ouviu um simples "se" prolongado - ele limitara-se a expirar através dos dentes, sem lhe conceder um "bichaninho".
à-espera-de-continuação

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 11:17 AM - Comments:


Quinta-feira, Outubro 09, 2003

Maria Rita deixava-se estar à mesa do almoço sobre a qual ele sussurava argolas de fumo. Quando Agostinho levava os dedos à cabeça, massajando o couro cabeludo, ela ouvia, ampliado, o som das unhas dele. Tinha desenvolvido um apurado sentido de audição do corpo de Agostinho. O mais óbvio era ouvir-lhe os passos, antes da chave rodar na fechadura. Ouvia-lhe o corpo sozinho, independente, mas também em relação com o mundo, a esbarrar nos objectos, a pegar-lhes, a atirá-los.
à-espera-de-continuação

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:42 PM - Comments:


a fita roxa desatara-se. onde? porquê? desatara-se, essa é que era essa. Sentou-se, abatido pela injustiça do mundo e decidiu que seria melhor, muito melhor deixar de pensar numa fita roxa atada num dedo do pé. Seria preferível pensar em coisas importantes: dinheiro, trabalho, amor, saúde (coisas tiradas do seu horóscopo semanal). mas de todas as coisas do seu mundo, a que, realmente lhe pertencia, era a fita roxa. era ridículo, mesquinho, indefensável, mas gostava da sua fita roxa. e sentia a sua falta, como se sente a falta de um amante com uma fita azul no dedo grande do pé.
a outra é de quem a apanhar

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:34 AM - Comments:



"Quando tiveres um passado, Yvonne, aperceber-te-ás que coisa engraçada é. Primeiramente há cantos inteiros desmoronados: nada mais. Noutras partes são as ervas ruins que nasceram ao acaso e não se reconhece mais nada, também. E depois há caminhos que se julgam tão belos que os repetimos todos os anos e assim acabam de todo por não mais parecerem o que foram. Sem falar naquilo que se julgou muito simples e sem mistério e que se descobre não ser tão claro, anos depois, como quando se passa todos os dias diante de uma coisa engraçada, sem reparar, e mais tarde, de repente apercebemo-nos dela." in Pierrot, Meu Amigo, Raymond Queneau

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:46 AM - Comments:


Escutava os sons que o corpo dele produzia, desde o gargarejo irritante a que se dedicava, de manhã, a seguir à escovagem dos dentes, até à respiração profunda, que não lhe perturbava o sono. Durante as refeições ouvia, quase carinhosamente, Agostinho mastigar e ainda se sobressaltava se ele tossia, como quem desimpede a garganta antes de iniciar uma conversa.
à-espera-de-continuação

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:05 AM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 08, 2003



Em "Der Ordet", eu, que não tenho fé, acredito no milagre. Obrigada a António Poppe por recordar o filme. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:10 PM - Comments:




Johannes, Der Ordet, Carl Dryer

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:00 PM - Comments:


Não falavam há tanto tempo que se tinha esquecido da voz dele. Maria Rita pensou nisso a meio de uma frase. O livro ficou aberto em cima dos joelhos. Deus a livrasse de dirigir a palavra ao marido, ou que se atrevesse ele, à espera de resposta. Ainda assim, podia Deus fazer com que lhe ressoasse dentro dos ouvidos a voz de Agostinho. Sempre ouvira dizer que havia gente que ouvia vozes, com a agravante de que a essas não correspondia qualquer ente físico. Agostinho era magro e alto, embora lhe parecesse que encolhera desde o casamento. Ou teria sido ela quem esticara? Maria Rita lembrava-se de frases, palavras soltas ditas antes do silêncio. Mas era a voz dela que as pensava agora.
à-espera-de-continuação

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:12 PM - Comments:


o desafio consistia em viver, desse dia em diante, com uma fita roxa atada ao dedo grande do pé direito. Não estorvaria, dissera o juíz. poderia lavar-se sem qualquer impedimento e não teria consequências para a sua vida sexual. mas, ele saberia que a fita roxa estava lá, e aí residia a gravidade da pena. só amputando o dedo, ripostara. nem mesmo assim, tinha-lhe assegurado o juíz. o senhor pode-se livrar-se de um dedo, mas não da fita roxa.E se amputasse um dedo atrás de outro? era um exercício retórico, mas ele queria saber o alcance da pena. pois seria colocada noutra parte do corpo. poderia mesmo considerar-se a hipótese de um implante: a fita roxa numa parede do estômago, ou mesmo entre a derme e a epiderme.
estava decidido. passaria a amar a fita roxa. proclamar esse amor perante o mundo inteiro. assim, seria o amor a castigá-lo e não a justiça.
a outra é de quem a apanhar

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:55 PM - Comments:


Terça-feira, Outubro 07, 2003

apontamentos do livre curso da poesia para mais tarde recordar

A partir de Nanni Moretti, António Poppe lançou-nos o desafio de "inventar uma nova linguagem" porque, QUEREMOS UM DETONADOR DE ÂNGULOS, QUEREMOS UMA CASA QUE NÃO OLHE PARA TRÁS, QUEREMOS UMA PISCINA AOS PÉS DA CAMA, QUEREMOS A VIDA AO PORMENOR, QUEREMOS UMA PAREDE COR DE ROSA CHOQUE, QUEREMOS A VERDADE DOS MATERIAIS, QUEREMOS UM ALVO QUE ACERTA, QUEREMOS A EXCELÊNCIA LÍMBICA DAS CRIATURAS PARADISIACAS, QUEREMOS A GRANDE DANÇA DO MEL NA ÍRIS, QUEREMOS A LINHA IMAGINÁRIA DO CONHECIMENTO INSTITIVO DA IMAGEM, QUEREMOS O EMBRIÃO ERÓTICO, QUEREMOS O JAPÃO EM RODA PÉ, QUEREMOS POESAR NA LÍNGUA

Novo Dicionário da Língua Portuguesa, edição multilíngua:

m
Mnemónica - arte de coreografar e desenvolver os lapsos de memória, mediante processos de criação combinatória, vg. "o solo em miolo no mimo mnemónico a bordo do tímpano transe atlântico uterino a laminar em filigrana o mar em harmónio"; "a imaginação acústica do mar bebé solucionando o sol põe o pensamento excelente".

n
Néscio - o que nasceu sem língua própria mente.

o
Onomatopeia - fruto cuja abundância imita o som natural da árvore fecundada, v.g. laranja, maça, figo, romã.

p
Pupila - mina do universo a dilatar.

q
(página em construção)

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:31 PM - Comments:


mudam-se os tempos, ficam as casas, as árvores, o azul, celeste, ... vai-se a caran d´ache, ...

desenho de um menino de oito anos
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 7:54 PM - Comments:


Segunda-feira, Outubro 06, 2003

imaginem uma mesa comprida de madeira áspera, rodeada de corpos de mulheres, corpos velhos um pouco excessivos e com mulheres dentro. Imaginem as mulheres de lenço na cabeça, não um kleenex de papel, um lenço daqueles que muitos apenas conhecem por fotografia. imaginem estas formas vivas de mulheres a afilarem-se, os cabelos a crescerem e a romperem o perímetro dos lenços. a mesa torna-se polida, cobre-se de uma toalha branca, há pratos que descem de um qualquer lugar onde os pratos descansam e são chamados a comparecer. Imaginem-se a querer saber o que se passa. quem são, o que fazem, o que não fazem estas mulheres de formas diferentes. Aqui e além desponta um homem, maioritariamente calado o homem, pela sua natureza e porque a mesa polida e o número de mulheres a isso o obriga. imaginem uma imensa pureza que se derrama sobre a mesa. mais do que a pureza de cada forma, superior à adição das inúmeras partículas de pureza das rotundas formas femininas, do vasto homem que permanece. a comensalidade da tribo celebra-se continuamente. agora mais ao domingo.
a outra é de quem a apanhar

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 10:46 AM - Comments:


um dia, num pequeno-grande alfarrabista da Rua do Século, casa da poesia portuguesa do sec. XX, abri ao acaso um pequeno-grande volume da "colecção Forma", da Editorial Presença, não conhecia o poeta, mas fiquei cativa ao primeiro verso:

"Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de
aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angustia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo.....

HÁ PESADAS SANÇÕES PARA OS QUE AUXILIAREM OS FUGITIVOS ...

FECHEM AS ESCOLAS SOBRETUDO
PROTEJAM AS CRIANÇAS DA CONTAMINAÇÃO ...

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo

(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée
)"

(fragmentos da "Invenção do Amor" de Daniel Filipe)
mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 6:52 AM - Comments:


Sábado, Outubro 04, 2003

"Este é o melhor dos mundos." Pelo menos é o que diz o filósofo Pangloss em "Melhor que Bom", encenação (na Comuna) de "Cândido ou o Optimismo" de Voltaire. Mas ai do pobre Cândido! Em que cuidados se vê metido uma vez expulso do castelo do barão, após - candidamente, está claro - ter beijado a menina Cunegundes. Militarizaram-no os búlgaros, horrorizaram-no os destroços humanos dos campos de batalha, sentiu a chibata nas costas, feito mártir num auto-de-fé em Lisboa, assassinou - candidamente, está claro - o grande inquisidor e depois - ainda mais candidamente - o grande amigo, filho do pretérito barão. Mas "este é o melhor dos mundos", repete sempre, ante cada infortúnio. Assim lhe ensinara Pangloss, ele próprio enforcado - "fui muito mal enforcado" - e dissecado. No final, volta o filósofo: "Este é o melhor dos mundos". "Mantenho, mas não acredito." Desculpem-me os optimistas, mas eu também não. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 4:34 PM - Comments:


Sexta-feira, Outubro 03, 2003

Ouvi ontem o poeta António Poppe lembrar-se de uma frase do filme "O Sacrifício", de Andrei Tarkovsky. Esqueci-me da formulação exacta. Fica a inexacta: "É preciso forçar o naufrágio para salvar o original." Ouvia-a ontem, mas foi agora que me assustou, tal e qual o primeiro trovão de uma tempestade.
a retardatária

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:37 PM - Comments:


Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê
Se saldre dessa aventura
Ô si nela moriré
Ô si nela perco la vida
Ô si nela triumfare
Tu gitana que adivinhas
Me lo digas, poes no lo sê

Tu Gitana
José Afonso, "Galinhas do Mato"


Passou há pedaço no rádio e não resisti a postar. Ainda anda às voltas cá dentro, à espera de encontrar pouso. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 3:10 PM - Comments:




O Homem que Caminha, Alberto Giacometti

Encontrei o walking man, há alguns anos, no Museu Vieira da Silva, às Amoreiras. Senti vontade de aproximar dele uma cadeira, para que pudesse descansar. IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 1:00 PM - Comments:


será que o poeta ainda mantém o olho fechado? é que se o tem assim vou lá piscar-lhe o meu. explicar-lhe-ei que antes não pude retribuir ou responder por não ter ouvido a pergunta. que este desfasamento faz parte do que sou: retardatária. dizem-me às vezes que as frases não fazem sentido. que respondo a alhos com bugalhos. mas os bugalhos são os alhos de momentos anteriores. a frase de que menos gosto é "há tempo para tudo". supõe que acaba o tempo para cada coisa. hei-de chegar tarde. dar por mim a franzir a pálpebra a alguém com os dois olhos bem abertos.
a retardatária

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:24 AM - Comments:


Quarta-feira, Outubro 01, 2003

A Isabel fala-nos de filmes belos, dos seus filmes mais belos. E eu fiquei a pensar nos meus, porque nesta coisa da sétima arte, cada um tem de facto os seus (como diria o Benard da Costa) filmes da sua vida. E de todos, o que flutua acima dos demais, é "mãe e filho" de Alexander Sokurov. Foi amor à primeira imagem. Ao primeiro diálogo:
Filho - És tão pequenina... Minha pequenina
Mãe - Tenho imensa pena de ti, nem podes imaginar. Isto corta-me o coração. Até me dá vontade de chorar.
Filho - Eu sei porque tens tanta pena de mim. Receias que eu fique sozinho. Não te preocupes isso é uma tolice. Não vais morrer, eu estou contigo. Estamos juntos. Não, não vais morrer.
Mãe - Não é nada disso. Uma pessoa vive bem sozinha. Não é nenhum desastre. É tão triste. Ainda por cima tens que passar por tudo aquilo que eu sofri. É tão injusto.
Filho - Dorme um bocadinho Mãe, eu volto já.

Há filmes que vivem e morrem connosco. Filmes Mães. Filmes Filhos.


mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 9:49 PM - Comments:


Época
esta poderia ser uma imagem das palavrasdatribo à volta de uma mesa se a época fosse outra.
Hoje tive de explicar o significado da palavra "época" ao meu filho de 7 anos enquanto fazia(mos) os trabalhos de casa. Depois de ter tentado em vão explicar por palavras, mostrei-lhe esta imagem (de um documentário de Alexander Sokurov) e uma fotografia recente de um almoço da tribo e acho que ele percebeu. mudam-se os tempos, mudam-se as palavras, mudam-se as tribos ... o que fica? talvez o nosso querido amigo tolentino que intrusamente se estreou num blog nos queira responder?

mp

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:40 PM - Comments:


será que a retardatária reparou no piscar d´olho do poeta quando hoje de manhã contornou a estatuária para levar os filhos à escola?

a questionária

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 8:25 PM - Comments:


sou de andar na rua sem reparar no que seja. passam-me conhecidos a rasar o ombro e não dou por eles, a não ser quando já se afastaram além de um grito. verifico a existência do prédio da esquina após os senhores da Câmara terem decidido demoli-lo. por isso compreendo que só ontem, à noite, o outono me tenha entrado no quarto. como uma frase lida há muito tempo a assomar-se num momento que não lembra (a)os livros. uma frase castanho-avermelhada. devo tê-la encontrado durante o dia e nem reparei nela.
a retardatária

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:42 PM - Comments:


Der Himmel uber Berlin (As Asas do Desejo) O filme mais belo sim, talvez um entre os que o são mais alguma vez realizado. Para onde olhas Damiel? O que vês? Consegues ainda sussurar-nos ao ouvido? E seremos nós capazes, senão de ouvir-te e entender-te, pelo menos de perceber que alguém acaba de pousar o queixo sobre o nosso ombro? Ou, qual Peter Falk, poderemos, sem temor do ridículo, estender a mão ao presenteausente para que tu a apertes? IR

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 12:17 PM - Comments:


para responder ao Mário de Sá Carneiro lembrei-me deste "samba lento" do Chico Buarque cantado pela sua sobrinha Bebel Gilberto. Tenho a certeza que a Bebel o Mário deixaria entrar no seu quarto, todos os dias, mesmo com as piores maneiras, que o menino não estaria a dormir e que tudo não teria acabado.

SAMBA E AMOR
música e letra de Chico Buarque de Hollanda

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente ainda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem-vinda companheira
No corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade, que alarde
Será que é tão difícil amanhecer
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lá
Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.

postado por: "PALAVRAS DA TRIBO " 5:47 AM - Comments:



arquivo